Entre o Lago e o Silêncio: Memórias de um Neto no Interior Brasileiro
— Vô, o senhor já viu duende de verdade? — perguntei, com os olhos arregalados, enquanto ele ajeitava o chapéu de palha e olhava para o lago, onde a neblina dançava sobre a água gelada.
Ele riu, aquela risada rouca que só quem já fumou muito fumo de rolo tem. — Duende não, meu filho. Mas já vi coisa que ninguém acreditaria se eu contasse.
Eu tinha oito anos e acreditava em tudo que ele dizia. Meu avô, Seu Orlando, era o homem mais sábio do mundo pra mim. Ele morava numa casinha simples, de madeira, com varanda de frente pro lago Azul, na pequena vila de Santa Clara, interior de Santa Catarina. Minha mãe, Dona Marlene, saiu dali ainda moça pra tentar a vida em Joinville, mas nunca deixou de visitar o pai. E eu, desde pequeno, era grudado no vô. Ele me levava pra pescar, pra roça, até pra vender peixe na feira de Ituporanga.
Mas naquele dia, enquanto ele olhava pro lago e eu insistia nas perguntas sobre duendes e assombrações, percebi um silêncio diferente. Ele ficou sério, os olhos perdidos na água.
— Sabe, menino… tem coisa que a gente guarda porque não sabe se é certo contar — disse baixinho.
Eu não entendi na hora. Só anos depois fui perceber o peso daquele silêncio.
A vida na vila era simples, mas cheia de pequenas tensões. Minha mãe e minha tia Lúcia viviam brigando por causa da herança da vó Maria, que morreu cedo e deixou só aquele terreno perto do lago. Meu tio Zé sumiu no mundo depois de uma briga feia com o vô. Dizem que foi por causa de dinheiro, mas ninguém nunca falou abertamente.
Eu cresci ouvindo essas histórias meio sussurradas, enquanto ajudava o vô a limpar peixe ou a plantar milho. Ele sempre dizia: — Família é igual rede de pesca: se rasgar num canto, pode perder tudo.
Quando fiz quinze anos, minha mãe decidiu que era hora de parar de visitar tanto o vô. Disse que eu precisava estudar, pensar no futuro. Mas eu sentia falta daquele cheiro de mato molhado e do café passado na hora.
Foi numa dessas visitas raras que tudo mudou. Cheguei na casa do vô e encontrei ele sentado na varanda, olhando pro lago como sempre. Mas dessa vez tinha uma carta aberta no colo dele e os olhos vermelhos.
— Vô, tá tudo bem? — perguntei.
Ele demorou pra responder. — Senta aqui comigo, menino.
Sentei ao lado dele e ele me entregou a carta. Era da tia Lúcia. Ela dizia que ia vender a parte dela do terreno pra um fazendeiro da região. O vô tremia de raiva e tristeza.
— Eles querem acabar com tudo que sua avó construiu — murmurou.
Naquele momento senti uma raiva que nunca tinha sentido antes. Como podiam fazer isso com ele? Com a nossa história?
Na semana seguinte, minha mãe chegou na vila pra conversar com a tia Lúcia. A discussão foi feia. Gritos na cozinha, portas batendo. Eu ouvi tudo escondido atrás da porta.
— Você só pensa em dinheiro! — gritava minha mãe.
— E você acha que vai viver de lembrança? O papai não vai durar pra sempre! — retrucou tia Lúcia.
O vô ficou calado o tempo todo. Só depois que todo mundo foi embora é que ele me chamou pra caminhar até o lago.
— Sabe, menino… quando sua avó morreu, eu prometi cuidar desse lugar pra vocês nunca esquecerem de onde vieram. Mas parece que promessa de velho não vale nada hoje em dia.
Eu abracei ele forte. Senti o cheiro do suor misturado com terra e fumo. Queria dizer que ia dar tudo certo, mas não consegui mentir.
Os meses passaram e as coisas só pioraram. O fazendeiro começou a cercar parte do terreno. O lago ficou mais sujo, menos peixe apareceu. O vô foi ficando mais calado, mais triste.
Um dia cheguei lá e encontrei ele sentado na beira do lago com uma garrafa de cachaça quase vazia.
— Vô, vamos pra casa?
Ele olhou pra mim com os olhos marejados.
— Eu perdi tudo, menino… até vocês tão indo embora…
Sentei ao lado dele e ficamos em silêncio por um tempo. Depois ele começou a contar uma história que nunca tinha contado antes.
— Quando eu era jovem, seu bisavô perdeu esse terreno num jogo de cartas. Sua avó trabalhou feito burro pra juntar dinheiro e comprar de volta. Por isso ela sempre dizia: “terra é raiz”. Se arrancar a raiz, a árvore morre.
Naquele momento entendi o peso daquilo tudo. Não era só terra. Era memória, era luta, era amor.
No fim daquele ano, o vô ficou doente. Câncer no pulmão. Minha mãe largou tudo pra cuidar dele na vila. Eu ia nos fins de semana ajudar como podia.
Na última noite dele, sentei ao lado da cama e segurei sua mão.
— Não deixa eles esquecerem daqui… — sussurrou ele.
Chorei como criança. Prometi que nunca ia deixar.
Depois do enterro, minha mãe e tia Lúcia se reconciliaram aos poucos. Decidiram não vender mais nada. Eu comecei a passar mais tempo na vila, cuidando do terreno como o vô fazia.
Hoje olho pro lago e vejo o reflexo da minha infância ali. Sinto falta das histórias do vô Orlando, das brigas da família, até dos silêncios pesados que pairavam sobre nós.
Às vezes me pergunto: será que a gente consegue mesmo manter viva a raiz da família? Ou será que tudo acaba se perdendo com o tempo?
E você? O que faria para não deixar sua história morrer?