Três Olhares Sobre a Mesma Maçã
— Olha só pra isso, minha Nossa Senhora! — resmunguei, segurando uma maçã pequena e cheia de manchas. — Nem maçã presta mais nesse país. Tudo caro, tudo feio. Parece até que o mundo tá acabando.
Dona Cida, minha vizinha de anos, me olhou por cima dos óculos, com aquele sorriso de quem já viu muita coisa. — Marina, minha filha, você só vê o lado ruim. Eu olho pra essas maçãs e penso: depois de tanta seca, de tanta praga, ainda tem fruta pra gente comprar. Isso é bênção.
Antes que eu pudesse retrucar, Luana, a moça do caixa — tão jovem, com aqueles cabelos cacheados presos num lenço colorido — entrou na conversa: — Sabe o que eu vejo? Vejo minha mãe acordando cedo pra colher essas maçãs lá no sítio. Vejo o suor dela em cada uma. Não é só fruta, não. É luta.
Fiquei calada por um instante. O mercado fervilhava ao nosso redor: cheiro de peixe fresco misturado com o doce das frutas maduras, vozes se cruzando, crianças correndo entre as barracas. Mas ali, naquele instante, parecia que só existíamos nós três e aquele cesto de maçãs.
— Dona Cida — comecei, tentando aliviar o clima —, a senhora sempre foi otimista assim? Porque olha… tá difícil.
Ela riu baixinho. — Otimista? Não sei. Já perdi marido pra doença que nem nome tinha na época. Criei três filhos sozinha vendendo bolo na porta da escola. Já vi muita coisa ruim. Mas aprendi que reclamar não enche barriga.
Luana suspirou. — Minha mãe diz isso também. Mas às vezes eu fico revoltada. Meu irmão tá sem emprego faz meses. Meu pai foi embora quando eu era pequena. Só sobra pra gente segurar as pontas.
Senti um nó na garganta. Queria dizer que entendia, mas minha vida era diferente. Meu marido ainda estava comigo — embora ultimamente fosse só de corpo presente. Desde que perdeu o emprego na fábrica, ele se fechou num silêncio que me machuca mais do que qualquer grito.
— Eu só queria poder comprar fruta boa sem ter que escolher entre isso e o gás do mês — falei baixo, quase pra mim mesma.
Dona Cida tocou meu braço com carinho. — Marina, minha filha… a vida nunca foi fácil pra gente. Mas olha ao redor: tem gente aqui que veio do interior com uma mão na frente e outra atrás. Tem mãe vendendo bala no sinal pra dar de comer pros filhos. A gente ainda tá aqui.
Luana assentiu devagar. — Mas será que vai melhorar? Todo ano é promessa de político novo e nada muda. Minha mãe diz que esperança não enche panela.
— Esperança não enche panela, mas sem ela a gente morre por dentro — respondeu Dona Cida.
Ficamos em silêncio por alguns segundos. O vendedor das frutas se aproximou:
— Vai levar as maçãs ou só vai filosofar hoje?
Rimos as três ao mesmo tempo. Era um riso meio amargo, mas era riso.
Peguei duas maçãs e entreguei pra Luana pesar.
— Vou levar essas mesmo. Se não der pra comer pura, faço um doce pro meu menino.
Luana sorriu triste:
— Minha mãe faz compota quando as frutas tão assim feinhas. Diz que tudo pode virar coisa boa se a gente souber transformar.
Dona Cida piscou pra mim:
— Tá vendo? Até as maçãs machucadas têm jeito.
Enquanto pagava, ouvi uma discussão na barraca ao lado: uma mulher gritava com o marido porque ele gastou dinheiro no bar em vez de trazer arroz pra casa. Senti vergonha da minha reclamação anterior. Cada um ali carregava um peso invisível.
No caminho de volta pra casa, pensei em tudo aquilo. Lembrei da minha infância no interior do Paraná: minha mãe ralando mandioca pra fazer bolo e vender na feira; meu pai chegando suado do roçado; a alegria quando sobrava dinheiro pra comprar doce no sábado.
Hoje eu reclamava das maçãs feias, mas esquecia que já tive dias em que nem fruta tinha na mesa.
Cheguei em casa e encontrei meu marido sentado no sofá, olhando pro nada.
— Trouxe maçã — falei tentando soar animada. — Vou fazer um doce igual minha mãe fazia.
Ele não respondeu de imediato. Só depois de alguns segundos levantou os olhos:
— Desculpa por não conseguir mais ajudar como antes.
Sentei ao lado dele e segurei sua mão.
— A gente vai dar um jeito juntos. Sempre deu.
Naquela noite, enquanto mexia o doce na panela e sentia o cheiro invadir a casa pequena, pensei nas palavras da Dona Cida e da Luana. Pensei em todas as mulheres daquele mercado: cada uma com sua luta, sua dor escondida atrás de um sorriso ou de um resmungo.
No dia seguinte voltei ao mercado. Vi Dona Cida conversando animada com o feirante; Luana ajudava uma senhora a escolher bananas maduras.
Aproximei-me das duas:
— Sabe… pensei muito ontem. Acho que cada uma vê a vida do seu jeito porque carrega histórias diferentes nas costas. Mas no fundo todo mundo quer a mesma coisa: dignidade pra viver sem medo do amanhã.
Dona Cida sorriu largo:
— E força pra transformar até as maçãs machucadas em coisa boa!
Luana riu:
— E coragem pra não desistir quando tudo parece difícil demais.
Ficamos ali por alguns minutos, trocando receitas e confidências enquanto o sol esquentava o asfalto do mercado.
Hoje entendo: às vezes a vida é mesmo como aquelas maçãs feias do mercado — cheia de marcas e imperfeições, mas ainda assim cheia de possibilidades se a gente souber olhar direito.
Será que um dia vamos aprender a enxergar além das manchas? Ou vamos continuar presos à ideia de que só o perfeito vale a pena? O que você acha?