Nada é o que parece: O Diário de Gabi
— Doutora Galina, a Ione do quarto cinco passou a noite toda pedindo pra ir embora. Ela tá implorando, disse que precisa muito sair daqui. — O sussurro de Violeta, minha enfermeira de confiança, me pegou de surpresa logo cedo, antes mesmo do café.
Ajeitei o jaleco, respirei fundo e tentei domar o fio rebelde de cabelo que escapava do coque. — Obrigada, Vi. Vou falar com ela agora.
No corredor do hospital público, o cheiro de desinfetante se misturava ao aroma de café requentado. Cada passo em direção ao quarto cinco era um peso no peito. Eu já sabia: Ione não era uma paciente comum. Tinha só 19 anos, mas os olhos carregavam uma dor antiga, dessas que a gente reconhece mesmo sem querer.
Abri a porta devagar. Ione estava sentada na cama, abraçando os joelhos, o olhar perdido na janela gradeada. O sol da manhã desenhava sombras no lençol branco.
— Bom dia, Ione. Dormiu um pouco?
Ela me olhou com uma mistura de esperança e desespero. — Doutora, por favor… Me deixa ir pra casa. Eu não aguento mais aqui. Minha mãe precisa de mim, meu irmãozinho… Eu prometo que tomo os remédios certinho.
Sentei ao lado dela, sentindo o peso da responsabilidade. — Ione, você sabe que ainda estamos ajustando sua medicação. Ontem você teve outra crise… Não posso te liberar assim.
Ela começou a chorar baixinho, quase sem som. — Ninguém acredita em mim. Eu não sou louca! Só tô cansada… Só quero voltar pra minha vida.
Fiquei em silêncio por alguns segundos, ouvindo o choro dela se misturar ao barulho distante dos monitores cardíacos. Lembrei da minha própria mãe, sozinha em casa depois do AVC, esperando por mim nos raros dias de folga. O hospital era minha segunda casa, mas às vezes parecia uma prisão — pra mim e pros pacientes.
— Ione, me conta… O que aconteceu ontem à noite? Por que você ficou tão agitada?
Ela hesitou, mordendo o lábio até quase sangrar. — Eu vi ele de novo. O homem do corredor. Ele fica me olhando, doutora. Eu sei que ninguém acredita, mas ele tá aqui.
Meu coração disparou. Não era a primeira vez que pacientes relatavam alucinações naquele andar antigo do hospital. Mas com Ione era diferente: havia um medo real nos olhos dela.
— Ione, você sabe que às vezes nossa mente prega peças quando estamos fragilizados… Mas eu prometo que vou investigar isso pra você, tá?
Ela assentiu, enxugando as lágrimas com as costas da mão.
Saí do quarto sentindo um nó na garganta. No corredor, Violeta me esperava com uma prancheta e um olhar preocupado.
— Galina, tem alguma coisa errada com aquela menina. Ontem à noite eu ouvi ela falando sozinha… Mas parecia que alguém respondia.
Olhei para Violeta, tentando esconder meu próprio medo. — Vi, fica de olho nela hoje. E se ela pedir pra sair de novo, me chama na hora.
O resto do plantão foi um borrão de atendimentos: uma senhora com pressão alta descompensada, um rapaz esfaqueado numa briga de bar, uma criança com febre alta e mãe desesperada. Mas a imagem de Ione não saía da minha cabeça.
No final da tarde, fui chamada às pressas para o quarto cinco. Ione estava em surto: gritava, se debatia, dizia que o homem estava ali e queria levá-la embora. Segurei suas mãos enquanto Violeta aplicava o calmante.
— Calma, Ione! Você está segura aqui! — tentei acalmá-la, mas ela olhava fixamente para o canto escuro do quarto.
Depois que ela dormiu, sentei no chão do corredor e chorei baixinho. O peso da responsabilidade era esmagador. Será que eu estava fazendo o certo? E se ela realmente estivesse vendo algo? Ou pior: e se eu estivesse ignorando um pedido de socorro?
Naquela noite, levei o diário dela pra casa — um caderno velho que ela escondia embaixo do travesseiro. Li cada página como se fosse um mapa para entender sua dor:
“Ninguém acredita em mim. Desde pequena vejo coisas que ninguém vê. Minha mãe diz que é coisa da minha cabeça, mas eu sei que é real. No hospital é pior: o homem do corredor me chama pelo nome toda noite…”
Fechei o diário com as mãos trêmulas. Lembrei das histórias da minha avó sobre espíritos perdidos nos hospitais antigos de Belo Horizonte. Será que era só doença? Ou havia algo além da medicina ali?
No dia seguinte, conversei com a mãe de Ione:
— Dona Marlene, a senhora já percebeu algo estranho em casa? Alguma coisa diferente com a Ione antes dela vir pra cá?
Ela suspirou fundo, os olhos vermelhos de tanto chorar.
— Doutora… Depois que o pai dela morreu naquele acidente horrível na BR-381, a Ione nunca mais foi a mesma. Ela fala sozinha desde criança… Mas eu sempre achei que era só imaginação.
Senti um arrepio percorrer minha espinha.
— Dona Marlene, a senhora acha que ela corre perigo em casa?
Ela hesitou antes de responder:
— Às vezes acho que sim… Mas eu não tenho escolha. Trabalho o dia inteiro como faxineira pra sustentar meus filhos. Não posso ficar em casa cuidando dela.
Voltei pro hospital mais confusa do que nunca. Naquela noite, sentei ao lado da cama de Ione enquanto ela dormia e segurei sua mão.
— Você não está sozinha — sussurrei.
Na manhã seguinte, Ione acordou calma pela primeira vez em dias.
— Sonhei com meu pai — disse baixinho. — Ele disse pra eu confiar na senhora.
Senti as lágrimas escorrerem pelo rosto sem conseguir controlar.
Na reunião com a equipe médica, sugeri uma abordagem diferente: menos remédios, mais escuta e acolhimento.
— Às vezes a gente esquece que cada paciente tem uma história — falei olhando nos olhos dos colegas cansados. — Não somos só médicos; somos humanos também.
Ione melhorou aos poucos. Voltou pra casa semanas depois, mas deixou comigo uma carta:
“Obrigada por acreditar em mim quando ninguém mais acreditava. Talvez eu nunca pare de ver coisas… Mas agora sei que não sou louca: só sou diferente.”
Guardei aquela carta no bolso do jaleco como um lembrete diário: nada é o que parece num hospital — nem nas pessoas ao nosso redor.
Às vezes me pergunto: quantas Ionas passam por nós todos os dias sem serem vistas? Quantas dores ignoramos por medo ou pressa? Será que estamos realmente ouvindo quem pede socorro?