Esperei o dia do casamento dela para dizer adeus
— Você vai mesmo casar com esse rapaz, Mariana? — a voz do meu avô, Seu Geraldo, ecoou atrás de mim, rouca e trêmula, enquanto eu ajustava o véu diante do espelho. O salão improvisado da igreja evangélica do bairro estava cheio de vozes e risos abafados, mas aquela pergunta cortou tudo ao redor como uma navalha.
Virei devagar. Ele estava parado na porta, apoiado na bengala, o rosto marcado pelo tempo e pelos anos de ausência. Meu coração disparou. Fazia quase dez anos que não nos víamos. Ele sumiu quando minha mãe ficou doente, quando eu mais precisei dele. E agora, no dia mais importante da minha vida, ele simplesmente apareceu.
— O senhor não devia estar aqui — sussurrei, sentindo o peso das lembranças. — A mãe não quer te ver.
Ele baixou a cabeça. — Eu sei. Mas precisava te ver antes que fosse tarde.
Minha prima Camila entrou apressada, os olhos arregalados. — Mari, o pastor já está chamando! — Ela parou ao ver o avô. — O que ele tá fazendo aqui?
— Só vim me despedir — respondeu ele, com um sorriso triste. — Não vou atrapalhar.
Camila me olhou, esperando que eu mandasse ele embora. Mas eu não consegui. Por mais que doesse, por mais que minha mãe tivesse razão em odiá-lo, uma parte de mim queria entender. Queria ouvir.
— Me espera depois da cerimônia — pedi. — Só me espera.
Ele assentiu e saiu devagar, arrastando os pés pelo corredor da igreja. Camila bufou.
— Você é muito boazinha, Mari. Ele não merece.
— Eu sei — respondi, mas minha voz falhou.
A cerimônia passou como um borrão: as músicas, os votos de amor do Lucas, o olhar orgulhoso da minha mãe, Dona Sônia, tentando esconder as lágrimas. Mas tudo parecia distante. Eu só pensava no velho sentado no banco dos fundos, sozinho.
Quando joguei o buquê e todos riram, quando as fotos foram tiradas e os convidados começaram a ir embora para o salão de festas alugado na Vila Mariana, eu procurei por ele. Estava lá fora, sentado no banco da praça em frente à igreja, olhando para o céu cinza de São Paulo.
Sentei ao lado dele. O cheiro de tabaco barato e pomada me trouxe de volta à infância: as tardes em que ele me buscava na escola pública do bairro, os passeios na feira livre de sábado, as histórias sobre o interior de Minas Gerais.
— Por que agora? — perguntei baixinho. — Por que sumiu quando a gente mais precisava?
Ele demorou a responder. — Eu era fraco demais pra ficar. Sua mãe nunca me perdoou pelo que fiz com seu pai…
Meu peito apertou. O assunto proibido. Meu pai morreu num acidente de moto quando eu tinha sete anos. Minha mãe sempre disse que foi culpa do avô: uma briga feia entre eles na noite anterior ao acidente.
— A mãe diz que o senhor expulsou ele de casa — falei, sentindo a raiva crescer.
Ele balançou a cabeça devagar. — Eu era duro demais com ele… Queria que ele fosse diferente… Melhor pra vocês… Mas só consegui afastar todo mundo.
O silêncio entre nós era pesado como o céu antes da chuva.
— Eu te amava tanto, Mari… Mas não sabia demonstrar. Quando sua mãe ficou doente, eu não aguentei ver ela sofrendo daquele jeito… Preferi fugir a encarar minha covardia.
Senti as lágrimas escorrendo pelo rosto feito maquiagem borrada.
— A senhora nunca vai te perdoar — sussurrei.
Ele sorriu triste. — Eu sei. Mas precisava te pedir perdão… E dizer que te amo. Que sempre amei.
Ficamos ali por minutos ou horas — não sei dizer. O barulho dos carros passando na avenida, as vozes distantes dos convidados indo embora… Tudo parecia tão pequeno diante daquela dor antiga.
Quando levantei para ir embora, ele segurou minha mão com força surpreendente para alguém tão frágil.
— Seja feliz, Mariana. Não repita meus erros. Não deixe o orgulho te afastar de quem você ama.
Eu queria dizer tanta coisa… Mas só consegui assentir.
No salão da festa, minha mãe percebeu meus olhos vermelhos e veio até mim furiosa:
— Ele falou com você? O que queria?
— Só se despediu… Pediu perdão…
Ela bufou e virou as costas, indo servir salgadinhos para os convidados. Meu irmão mais novo me abraçou forte:
— Você fez certo em ouvir ele. Todo mundo erra…
A festa continuou: música sertaneja tocando alto, crianças correndo entre as mesas decoradas com flores artificiais compradas na 25 de Março, parentes discutindo política e futebol como sempre acontece em festa de família brasileira.
Mas dentro de mim algo tinha mudado para sempre.
Naquela noite, depois que todos foram embora e Lucas dormia ao meu lado no pequeno apartamento alugado no Ipiranga, chorei baixinho até dormir. Sonhei com meu avô jovem, sorrindo pra mim num campo de girassóis do interior mineiro.
No dia seguinte soube pela Camila que ele pegou um ônibus pra Belo Horizonte logo depois da festa. Nunca mais o vi.
Hoje olho pro passado e penso: quantas vezes deixamos o orgulho falar mais alto? Quantas famílias se destroem por segredos antigos e mágoas nunca ditas?
Se você tivesse a chance de perdoar alguém antes do adeus final… Você conseguiria? Ou deixaria o tempo levar tudo embora sem tentar?