Dez Anos Perdidos
— Dez anos jogados fora, Verônica! — gritei, sentindo minha garganta arder, enquanto segurava a xícara de café frio com tanta força que temi quebrá-la. — Dez anos! Dez anos de amizade, e você…
Ela levantou do sofá num pulo, os olhos faiscando. — E eu o quê, Kátia? Preciso te dar satisfação de tudo agora? Você mesma vivia dizendo que o Marcelo não te interessava mais!
— Eu disse! Mas não pra você ir atrás dele! — minha voz saiu embargada, misturada com um soluço que tentei engolir. O apartamento parecia pequeno demais para tanto ressentimento. A chuva batia forte na janela, como se quisesse lavar aquela cena.
Verônica cruzou os braços, o rosto endurecido. — Você sempre faz isso. Sempre acha que tudo gira ao seu redor. Sabe o que é pior? Eu cansei de ser sua sombra.
As palavras dela me atingiram como um tapa. Sombra? Eu nunca tinha pensado assim. Sempre achei que éramos iguais, irmãs de alma desde a faculdade de Letras na UFRJ, dividindo sonhos e boletos no mesmo quitinete em Botafogo. Lembrei das noites em claro estudando juntas, das risadas no Largo do Machado, dos conselhos trocados sobre homens que nunca prestaram. E agora, tudo parecia tão distante.
— Você ficou com ele? — perguntei baixo, quase num sussurro, temendo a resposta.
Ela hesitou por um segundo, mas logo ergueu o queixo. — Fiquei. E não me arrependo.
Senti o chão sumir sob meus pés. Marcelo era meu ex-namorado, mas também era aquele amor mal resolvido que a gente nunca esquece. Terminamos porque ele queria ir pra São Paulo tentar a vida como músico e eu não quis largar tudo pra segui-lo. Mas Verônica sabia disso. Sabia de cada lágrima que chorei por ele.
— Você podia ter me contado — murmurei, sentindo uma lágrima escorrer.
Ela bufou. — Pra quê? Pra você fazer drama? Pra me julgar? Kátia, você sempre foi a certinha da família, a filha perfeita da Dona Lúcia e do Seu Jorge. Eu sempre fui a amiga quebrada, a que não tem ninguém por ela.
A raiva deu lugar à culpa. Quantas vezes ignorei os problemas dela porque os meus pareciam maiores? Quantas vezes ela me ligou chorando por causa do pai alcoólatra e eu desliguei rápido porque tinha uma reunião importante?
O silêncio pesou entre nós. A chuva lá fora aumentava, e eu podia ouvir o barulho dos carros passando na rua alagada.
— Sabe o que mais dói? — ela continuou, a voz embargada agora. — Não é ter ficado com o Marcelo. É perceber que nossa amizade só existia enquanto eu concordava com você em tudo.
Sentei no chão da sala, abraçando as pernas. Minha cabeça girava. Lembrei de quando ela perdeu o emprego no início da pandemia e veio morar comigo por três meses. Lembrei das brigas bobas por causa de louça suja e das noites em que dividimos um miojo porque o dinheiro não dava pra mais nada.
— Eu errei — admiti, olhando pra ela pela primeira vez sem raiva. — Mas você também errou comigo.
Ela se sentou ao meu lado, os olhos vermelhos. Ficamos ali, duas mulheres adultas tentando juntar os cacos de uma amizade despedaçada.
— O Marcelo não significa nada pra mim agora — falei baixinho. — Mas você… você era minha família.
Ela chorou silenciosamente. Eu também.
O celular vibrou na mesa: era uma mensagem da minha mãe perguntando se eu ia almoçar no domingo. Pensei em como minha família sempre foi presente, mesmo com todos os defeitos. Verônica nunca teve isso. Talvez por isso ela buscasse tanto aprovação nas pessoas ao redor.
— Você vai conseguir me perdoar um dia? — ela perguntou, a voz quase sumindo.
Olhei pra ela e vi a menina assustada que conheci anos atrás na fila do bandejão da faculdade. Vi também a mulher forte que sobreviveu a tanta coisa sozinha.
— Não sei — respondi sinceramente. — Mas quero tentar.
Ficamos ali em silêncio por longos minutos, ouvindo apenas o som da chuva e dos nossos próprios pensamentos.
Dias depois, tentei retomar a rotina: trabalho remoto numa editora pequena do Centro, ligações rápidas com meus pais em Niterói, mensagens trocadas no grupo da família sobre política e futebol. Mas tudo parecia diferente. A ausência de Verônica doía mais do que eu imaginava.
No sábado seguinte, fui ao mercado e vi uma promoção de vinho barato. Peguei duas garrafas sem pensar muito — era nosso ritual nos fins de semana: vinho barato e séries ruins na Netflix.
Mandei mensagem pra ela: “Vinho aqui em casa hoje? Sem julgamentos.”
Ela demorou pra responder, mas veio. Sentamos no sofá, cada uma com sua taça, sem falar muito no começo.
— O Marcelo me ligou ontem — ela disse de repente. — Queria saber se eu queria ir pra São Paulo com ele.
Meu coração apertou, mas forcei um sorriso. — E aí?
Ela deu de ombros. — Disse que não sabia ainda. Que precisava resolver umas coisas aqui primeiro.
Entendi o recado: nossa amizade era uma dessas coisas pendentes.
Conversamos até tarde sobre tudo: sobre nossos medos de envelhecer sozinhas, sobre como é difícil ser mulher no Rio de Janeiro hoje em dia, sobre sonhos adiados pela crise econômica e pela pandemia que parecia não ter fim.
No fim da noite, quando ela foi embora, senti um alívio estranho misturado com tristeza. Sabia que nada seria como antes, mas talvez pudesse ser diferente — e quem sabe até melhor?
Hoje faz um mês desde aquela briga feia. Ainda estamos nos reconstruindo aos poucos: uma mensagem aqui, um café ali, sem pressa nem cobranças.
Aprendi que amizades também acabam ou mudam de forma quando menos esperamos. E que perdoar não é esquecer; é escolher seguir em frente sem carregar tanto peso.
Às vezes me pergunto: quantas amizades verdadeiras sobrevivem às tempestades da vida? Será que vale a pena tentar reconstruir o que foi quebrado ou é melhor deixar ir?