Entre o Amor e o Silêncio: O Grito de Zuleide

“Mãe, eu não quero ir pra casa da vovó!” O grito da Sofia ecoou pelo corredor do prédio, misturando-se ao barulho dos carros lá fora. Ela se debatia, os olhos marejados, enquanto eu tentava, com mãos trêmulas, fechar o zíper da sua jaqueta rosa. “Ela não gosta de mim! Só gosta da prima Camila e do Lucas!”

Senti o peito apertar. Respirei fundo, tentando não deixar transparecer minha própria dor. “Filha, não fala isso. Sua avó ama todos vocês igual.”

“Mentira!” Ela bateu o pé com força no chão de cerâmica. “Ontem ela deu sorvete pro Lucas e pra Camila. Pra mim, falou que eu já tinha comido demais!”

Abaixei até ficar na altura dela, sentindo o peso de cada palavra. “Sofia, às vezes a vovó faz as coisas sem perceber. Não é porque ela não te ama.”

Ela desviou o olhar, enxugando as lágrimas com as costas da mão. “Eu não quero ir. Por favor, mãe.”

Meu coração se partiu em mil pedaços. Eu sabia exatamente como ela se sentia. Cresci ouvindo minha mãe dizer que eu era difícil, que minha irmã mais velha, a Renata, era o orgulho da família. Renata sempre foi a filha perfeita: notas boas, sorriso fácil, nunca dava trabalho. Eu era a rebelde, a que sonhava alto demais pra quem morava no bairro do Capão Redondo.

Mas agora era diferente. Agora era minha filha sofrendo.

Peguei Sofia no colo, mesmo com ela já sendo grandinha. “Vamos juntas, tá? Eu fico lá com você um pouco.”

No caminho até a casa da minha mãe, tentei me convencer de que tudo ia ficar bem. Mas a cada passo, lembranças antigas me assombravam: os aniversários em que Renata ganhava presentes caros e eu ganhava roupa usada; os elogios públicos para ela e os olhares de reprovação para mim.

Chegamos. Minha mãe abriu o portão com aquele sorriso ensaiado. “Oi, minhas meninas!”

Sofia se escondeu atrás de mim.

“Que foi isso agora? Tá emburrada por quê?”

“Ela tá cansada”, menti.

“Ah, criança hoje em dia é tudo mimada”, resmungou minha mãe, já voltando pra cozinha.

Na sala, Camila e Lucas brincavam com um quebra-cabeça novo. Sofia olhou pra eles e depois pra mim, como quem pede socorro. Sentei ao lado dela no sofá.

Minha mãe apareceu com uma bandeja de suco e biscoitos. “Camila, Lucas, venham lanchar!”

Sofia se levantou devagar.

“Pra você tem só suco, Sofia”, disse minha mãe sem olhar pra ela. “Você já comeu muito doce ontem.”

Vi os olhinhos da minha filha se encherem de lágrimas de novo. Senti uma raiva antiga subir pela garganta.

“Por que só ela não pode comer biscoito?” perguntei.

Minha mãe me olhou como se eu fosse louca. “Porque ela é teimosa igual você era! Não sabe ouvir não!”

O silêncio pesou na sala. Camila e Lucas pararam de mastigar.

“Eu só quero ser tratada igual”, sussurrou Sofia.

Minha mãe bufou. “Vocês inventam cada coisa… No meu tempo, ninguém reclamava.”

Levantei do sofá sentindo as pernas bambas. “Mãe, chega. Não dá mais pra fingir que tá tudo bem.”

Ela cruzou os braços. “Vai começar de novo? Você sempre foi ingrata.”

“Não é ingratidão! É dor! Eu cresci ouvindo que nunca era suficiente! Agora você faz isso com a Sofia!”

Minha mãe ficou vermelha. “Você não entende nada da vida! Se não gosta, leva sua filha embora!”

Olhei pra Sofia, que me abraçou forte.

“Vamos embora”, falei baixinho.

No caminho de volta pra casa, Sofia ficou em silêncio. No ônibus lotado, ela encostou a cabeça no meu ombro.

“Mãe… por que a vovó não gosta de mim?”

Engoli o choro. “Filha… às vezes as pessoas têm dificuldade de demonstrar amor. Mas eu te amo tanto que dói.”

Ela sorriu triste e segurou minha mão.

Em casa, sentei no sofá e chorei baixinho enquanto Sofia desenhava no quarto dela. Senti uma mistura de culpa e alívio: culpa por não conseguir proteger minha filha desse tipo de dor; alívio por finalmente ter dito em voz alta aquilo que me machucava desde criança.

À noite, Renata me ligou.

“Zuleide, o que aconteceu hoje? Mãe tá furiosa.”

Respirei fundo. “Aconteceu que eu cansei de fingir que tá tudo bem.”

Ela suspirou do outro lado da linha. “Você sempre foi dramática.”

“Não é drama quando dói de verdade.”

Renata ficou em silêncio por alguns segundos. “Eu nunca percebi isso…”

“Claro que não percebeu”, respondi amarga. “Você era a preferida.”

Ela tentou mudar de assunto, mas desliguei antes que começasse a me culpar por tudo de novo.

Naquela noite, fiquei olhando Sofia dormir. Pensei em todas as mães que carregam feridas antigas e tentam proteger os filhos das mesmas dores. Pensei nas famílias brasileiras onde favoritismo é tabu — onde se finge igualdade enquanto se distribui amor em doses desiguais.

No dia seguinte, decidi procurar uma psicóloga do posto de saúde do bairro. Não queria repetir com Sofia o ciclo de silêncio e mágoa que vivi com minha mãe.

Na sala de espera, vi outras mães com olhares cansados e crianças inquietas no colo. Senti que não estava sozinha.

Quando voltei pra casa depois da consulta, Sofia me abraçou forte.

“Mãe… hoje eu sonhei que a gente morava numa casa grande e todo mundo era feliz.”

Sorri com lágrimas nos olhos.

“Um dia a gente chega lá, filha.”

Agora escrevo essas palavras pensando: quantas Sofias existem por aí? Quantas mães como eu carregam o peso do favoritismo caladas? Será que um dia vamos conseguir quebrar esse ciclo?