A Nova Esposa do Meu Pai

— Uma semana? — repeti em voz alta, sentindo o papel grosso do convite tremer entre meus dedos suados. As letras douradas brilhavam sob a luz fraca do meu quarto, quase zombando da minha incredulidade: “Convidamos para o casamento de Antônio Souza e Camila Oliveira. Sábado, 17h.” Meu pai, Antônio Souza, ia se casar de novo. E eu, Zuleide Souza, só fiquei sabendo agora.

O telefone tocou, cortando o silêncio pesado. Olhei o visor: “Pai”. Respirei fundo antes de atender.

— Oi, filha… — a voz dele soou hesitante, quase culpada.

— Você vai casar sábado que vem? — cortei, sem conseguir disfarçar a mágoa.

— Eu ia te ligar pra conversar… — ele começou, mas minha raiva já transbordava.

— Pra conversar? Ou pra avisar? Porque parece que eu só sirvo pra receber convite pelo correio agora.

Do outro lado da linha, silêncio. Senti meus olhos arderem. Desde que mamãe morreu, dois anos atrás, tudo ficou estranho entre nós. Ele se fechou, mergulhou no trabalho e quase sumiu da minha vida. Agora, de repente, aparece com uma noiva nova e um casamento marcado às pressas.

— Zuleide… Eu sei que é difícil. Mas a Camila me faz bem. Eu queria que você viesse…

Desliguei antes que ele terminasse. Joguei o convite na cama e me encolhi num choro silencioso. Não era só sobre o casamento. Era sobre tudo que ficou não dito desde a morte da mamãe. Sobre como ele nunca me perguntou como eu estava, sobre como parecia que eu era só um lembrete doloroso do passado dele.

No sábado seguinte, fui ao salão de festas quase por obrigação. Minha tia Lúcia me buscou em casa.

— Vai dar tudo certo, Zu — ela tentou me animar. — Seu pai merece ser feliz também.

— E eu? — perguntei baixinho, olhando pela janela do carro. — Eu também merecia um pouco de consideração.

O salão estava cheio de gente sorrindo e música alta. Vi meu pai no altar, nervoso e elegante. Ao lado dele, Camila: jovem demais, bonita demais, com um sorriso que parecia não caber no rosto. Quando ela me viu, veio até mim.

— Zuleide! Que bom que você veio! — Ela tentou me abraçar, mas recuei.

— Vim pelo meu pai — respondi seca.

Ela murchou um pouco, mas manteve o sorriso. — Espero que a gente possa se conhecer melhor…

A cerimônia foi rápida. As pessoas aplaudiram, jogaram arroz. Eu só queria ir embora. Mas meu pai me puxou para uma foto de família.

— Por favor, Zu… Só uma foto — ele pediu baixinho.

Fiquei ali, entre ele e Camila, sentindo-me uma estranha na própria família.

Nos dias seguintes, tentei evitar os dois. Mas morando na mesma casa ficou impossível. Camila tentava ser gentil: fazia café da manhã, perguntava do meu dia, deixava bilhetinhos carinhosos na porta do meu quarto. Tudo me irritava.

Uma noite, ouvi uma discussão na cozinha.

— Ela não gosta de mim, Antônio! Eu tento de tudo! — Camila chorava.

— Dá tempo pra ela… Ela perdeu a mãe há pouco tempo — meu pai respondeu cansado.

Fiquei ouvindo atrás da porta. Senti culpa e raiva ao mesmo tempo. Por que ninguém perguntava como EU estava?

Na escola, as coisas também não iam bem. Minhas notas caíram e minhas amigas começaram a se afastar. Um dia, explodi com minha melhor amiga:

— Você não entende! Meu pai trocou minha mãe por outra mulher! — gritei no pátio.

Ela ficou sem saber o que dizer. E eu percebi que estava sozinha nessa dor.

Certa noite, Camila entrou no meu quarto sem bater.

— Zuleide… Posso falar com você?

Revirei os olhos. — Fala logo.

Ela sentou na beirada da cama. — Eu sei que nunca vou substituir sua mãe. Nem quero isso. Só queria ter uma chance de ser sua amiga…

— Não preciso de amiga — respondi fria. — Preciso da minha mãe de volta.

Ela ficou em silêncio por um tempo. Depois levantou devagar e saiu do quarto. Pela primeira vez vi tristeza verdadeira nos olhos dela.

Naquela madrugada, acordei com barulho na sala. Desci e vi meu pai chorando sozinho no sofá.

— Pai? — chamei baixinho.

Ele enxugou as lágrimas rápido demais. — Oi, filha… Não consegui dormir.

Sentei ao lado dele sem dizer nada. Ficamos em silêncio por alguns minutos.

— Eu sinto falta dela também — ele disse finalmente. — Mas eu preciso seguir em frente…

Olhei para ele e vi o homem cansado que tentava ser forte por todos esses anos. Pela primeira vez entendi que ele também sofria.

No dia seguinte, decidi conversar com Camila.

— Desculpa por tudo — falei sem jeito na cozinha. — Eu só… não sei lidar com isso ainda.

Ela sorriu aliviada e me abraçou de leve.

Aos poucos as coisas foram melhorando. Ainda sinto falta da minha mãe todos os dias. Ainda tenho ciúmes do meu pai com Camila às vezes. Mas aprendi que ninguém substitui ninguém; cada pessoa ocupa um espaço diferente no nosso coração.

Hoje olho para trás e vejo como fui dura com eles — e comigo mesma. Talvez seja assim mesmo quando a vida muda sem pedir licença: a gente sofre, briga com quem mais ama e depois aprende a perdoar devagarinho.

Será que algum dia a dor vira só saudade boa? Ou será que família é sempre esse nó apertado no peito?