Entre o Destino e o Caos: A Jornada de Camila

— Anda logo, menina! — gritou o motorista, impaciente, enquanto eu tentava me espremer entre os corpos suados no ônibus 497, que atravessava a Zona Norte do Rio naquele fim de maio insuportavelmente quente. O suor escorria pelas minhas costas, grudando a minha blusa no corpo, e o cheiro de desodorante vencido misturado ao perfume barato me fazia querer descer no próximo ponto, mesmo sem saber para onde ir.

Mas eu não tinha escolha. Era aquele ônibus ou nada. Minha mãe, Dona Lúcia, tinha sido clara: “Camila, você vai procurar emprego hoje, nem que chova canivete!” E lá estava eu, com o currículo amassado na bolsa e a esperança ainda mais amassada no peito.

No fundo do ônibus, uma senhora reclamava alto:
— Esse país não tem jeito! Olha esse calor, olha esse povo apertado! — E alguém retrucou:
— Se não gosta, vai pra Europa!

Eu queria rir, mas só consegui suspirar. Desde que meu pai morreu, há dois anos, tudo ficou mais difícil. Ele era o alicerce da nossa casa. Trabalhava como porteiro num prédio em Copacabana e fazia bicos de pedreiro nos fins de semana. Quando o câncer levou ele embora, minha mãe se perdeu. Eu também.

Aos 22 anos, larguei a faculdade de Letras porque não tinha mais como pagar as mensalidades. Meu irmão mais novo, Rafael, começou a andar com uma galera estranha. E minha mãe se afundou em dívidas e rezas.

O ônibus parou bruscamente. Alguém esbarrou em mim e quase caí no colo de um rapaz de boné vermelho.
— Foi mal — ele disse, sem nem olhar na minha cara.

A vida no Rio é assim: ninguém tem tempo pra gentileza. Todo mundo tá lutando pra sobreviver.

Desci na Praça Saens Peña com as pernas bambas. O sol parecia me castigar por alguma culpa antiga. Caminhei até a padaria onde tinha deixado um currículo na semana passada. O gerente me olhou de cima a baixo.
— Você já trabalhou com atendimento?
— Já sim — menti, tentando parecer confiante.
— Vou te chamar se precisar — ele respondeu, já virando as costas.

Saí dali sentindo o peso do fracasso. Liguei pra minha mãe:
— Mãe, não consegui nada ainda.
— Você precisa tentar mais! Não desista! — ela disse, mas sua voz soava cansada demais pra convencer alguém.

Sentei num banco da praça e chorei baixinho. Lembrei do último aniversário do meu pai. Ele me abraçou forte e disse:
— Camila, você é forte. Não deixa ninguém te dizer o contrário.

Mas eu não me sentia forte. Me sentia perdida.

Voltei pra casa no fim da tarde. Rafael estava na sala jogando videogame.
— Arrumou emprego? — ele perguntou sem tirar os olhos da tela.
— Não.
— Relaxa, amanhã você tenta de novo.

Minha mãe estava na cozinha, mexendo um feijão aguado.
— Camila, você viu a conta de luz? Vai cortar semana que vem se não pagar.

Eu queria gritar. Queria fugir. Mas só consegui dizer:
— Eu vou dar um jeito.

Naquela noite, ouvi minha mãe chorando baixinho no quarto dela. Fingi que não ouvi. No dia seguinte, acordei cedo e fui pra fila do SINE. A fila já dava volta no quarteirão. Uma moça ao meu lado puxou conversa:
— Tá difícil pra todo mundo, né?
— Tá sim — respondi.

Ela se chamava Jéssica e tinha dois filhos pequenos pra criar sozinha. Conversamos sobre sonhos interrompidos e sobre como o destino parecia brincar com a gente.

Quando finalmente fui atendida, a moça do balcão olhou meu currículo e fez uma careta:
— Só experiência como babá?
— Sim…
— Vou cadastrar aqui, mas tá difícil pra todo mundo.

Saí dali com vontade de sumir. Passei numa igreja e sentei num banco vazio. Pedi forças pra continuar. Pedi um sinal.

Na volta pra casa, encontrei Rafael na esquina conversando com uns caras mais velhos. Um deles me olhou estranho. Senti um frio na barriga.

Em casa, tentei conversar com ele:
— Rafa, quem eram aqueles caras?
— Uns amigos só…
— Cuidado com quem você anda.
— Você não manda em mim!

Ele bateu a porta do quarto com força. Minha mãe apareceu na porta da cozinha:
— Deixa ele, Camila… Ele tá revoltado desde que seu pai morreu.

Eu sabia disso. Mas tinha medo do caminho que ele estava escolhendo.

Naquela noite, recebi uma mensagem da Jéssica:
“Oi Camila! Consegui uma entrevista numa loja no Centro. Quer ir comigo?”

Respondi na hora: “Quero sim!”

No dia seguinte, fomos juntas pro Centro do Rio. A loja era pequena, mas o dono parecia simpático.
— Vocês têm experiência?
Jéssica respondeu antes de mim:
— Temos sim! Somos guerreiras!

O dono sorriu:
— Gosto de gente assim. Vou dar uma chance pras duas. Começam amanhã?

Saímos de lá pulando de alegria. Liguei pra minha mãe chorando:
— Mãe! Consegui emprego!
Ela chorou junto comigo.

Naquela noite, preparei arroz e feijão com salsicha pra comemorar. Rafael apareceu na cozinha:
— Parabéns, mana…
Eu sorri:
— Obrigada… Mas quero ver você bem também.
Ele abaixou a cabeça:
— Vou tentar…

Os dias foram passando e as coisas começaram a melhorar devagarinho. O salário não era grande coisa, mas já dava pra pagar as contas atrasadas e comprar um chocolate de vez em quando.

Mas o destino gosta de testar a gente. Um mês depois, Rafael foi pego pela polícia com uns amigos na rua. Nada grave — só estavam fumando maconha — mas minha mãe quase teve um troço.

Na delegacia, olhei nos olhos dele:
— Rafa, você quer acabar igual ao nosso pai? Lutando todo dia pra sobreviver?
Ele chorou pela primeira vez desde que papai morreu.

Depois daquele dia, Rafael começou a mudar devagarinho. Arrumou um bico numa oficina perto de casa. Minha mãe voltou a sorrir de vez em quando.

Hoje olho pra trás e vejo que sobrevivi ao caos porque não desisti de mim mesma — nem da minha família. O destino pode até ser cruel às vezes, mas a gente é mais forte do que imagina.

Será que todo mundo tem mesmo um destino traçado? Ou será que somos nós que escrevemos nossa história com cada escolha difícil? O que vocês acham?