Entre Sorrisos e Suspiros: O Diário de Gala

— Mãe, cheguei! — a voz do Lucas ecoou pela casa antes mesmo de eu conseguir esconder a cara de poucos amigos. Ele entrou com aquele sorriso largo, o mesmo desde criança, mas agora acompanhado de Vanessa, aquela moça que eu nunca consegui engolir direito. — Trouxe visita! — ele anunciou, como se fosse a coisa mais natural do mundo aparecer sem avisar numa terça-feira à noite.

— Eu percebi… — respondi, tentando forçar um sorriso enquanto sentia o estômago revirar. Abracei meu filho com força, sentindo o cheiro do seu perfume misturado ao suor do metrô. Ele me apertou de volta, mas logo se virou para Vanessa, que já rondava a sala como quem procura defeito na casa dos outros.

— Dona Gala, que saudade! — ela disse, esticando a mão para um cumprimento frio. Fingi não perceber o olhar de superioridade dela e fui logo dizendo:

— Pois é, Vanessa… não esperava vocês hoje. A casa tá uma bagunça.

Lucas riu, aquele riso bobo de quem não percebe nada. — Relaxa, mãe! A gente veio só pra matar a saudade e contar uma novidade.

Meu coração apertou. Novidade? Já imaginei mil tragédias: gravidez indesejada, casamento apressado, mudança pra longe…

— O que foi agora? — perguntei, tentando manter a voz firme.

Vanessa se jogou no sofá como se fosse dona do pedaço. — A gente vai morar junto! — anunciou, olhando pra mim com um sorriso vitorioso.

Senti o sangue sumir do rosto. Lucas me olhou esperando aprovação, como fazia quando era pequeno e queria mais um pedaço de bolo. Mas agora era diferente. Agora ele queria sair do ninho — e com ela.

— Vocês pensaram bem nisso? — perguntei, cruzando os braços.

— Mãe, eu já tenho 27 anos… — Lucas começou, mas Vanessa interrompeu:

— E eu já moro sozinha faz tempo. Vai ser ótimo pra gente.

Fiquei olhando para os dois. Lembrei dos tempos em que Lucas chegava da escola correndo pra me contar sobre o dia. Agora ele mal me ligava. E quando ligava, era sempre pra falar dela.

O jantar foi um desastre. Eu tinha só arroz e ovo na geladeira. Vanessa fez cara feia, mas Lucas comeu sorrindo, tentando puxar assunto:

— Mãe, lembra quando você fazia aquele bolo de fubá? Vanessa adora!

— Não tenho fubá hoje — respondi seca.

O silêncio pesou na mesa. Vanessa mexia no celular enquanto Lucas tentava salvar a noite:

— A gente vai procurar apartamento amanhã. Se tudo der certo, mudamos mês que vem.

— E você vai largar seu emprego? — perguntei para Vanessa.

Ela nem levantou os olhos do celular. — Trabalho home office. Não muda nada pra mim.

Lucas ficou vermelho. Eu sabia que ele ainda não tinha emprego fixo desde que foi demitido da loja de informática. E agora queria morar com ela? Quem ia pagar as contas?

Depois do jantar, fui lavar a louça sozinha. Ouvi os dois rindo na sala, falando sobre decoração e móveis planejados. Senti uma pontada de inveja e tristeza. Meu filho estava indo embora — e nem parecia perceber o quanto isso me machucava.

Quando eles foram embora, Lucas me abraçou forte:

— Mãe, vai dar tudo certo. Você vai ver.

Assenti em silêncio. Vanessa acenou de longe, já chamando o Uber.

Fiquei sozinha na cozinha escura, ouvindo o eco das risadas deles. Senti vontade de chorar, mas me segurei. Peguei meu diário e escrevi:

“Hoje perdi mais um pedaço do meu filho para o mundo. Será que algum dia ele vai entender o vazio que ficou aqui dentro?”

E você aí… já sentiu seu filho ou filha escapando pelos dedos? Como lidar com esse ciúme que parece tão feio, mas dói tanto no peito da gente?