Barulho na Madrugada: O Grito que Ninguém Ouve
— CHEGA! — gritei, batendo com força no radiador velho, o som ecoando pelo apartamento apertado. — De novo essa porcaria de música! — minha voz saiu rouca, misturada com raiva e cansaço. Era uma da manhã e o prédio inteiro parecia tremer com o baixo da banda improvisada dos vizinhos do 302.
Halina, minha filha de dezessete anos, nem levantou os olhos do celular. — Mãe, relaxa. Amanhã você fala com eles de novo. — O tom dela era tão indiferente que me deu vontade de chorar.
— Falar? Falar? — repeti, sentindo o peito apertar. — Já faz um mês que eu falo! Um mês aguentando esses… esses moleques! — gesticulei no ar, procurando palavras que não fossem palavrões.
Halina suspirou, deslizando o dedo na tela. — É só barulho, mãe. Vai passar.
Mas não passava. Nunca passava. Desde que me separei do pai da Halina, tudo parecia mais difícil. O apartamento pequeno em Osasco, as contas atrasadas, o trabalho de caixa no supermercado que mal pagava o aluguel… e agora, esse inferno noturno.
Fui até a janela e olhei para fora. O prédio era velho, paredes finas como papel. Do outro lado do corredor, luzes piscavam por baixo da porta do 302. Risadas altas, gritos desafinados acompanhando Legião Urbana num karaokê torto.
Lembrei do tempo em que eu mesma gostava de música alta. Antes da vida me engolir com suas contas e responsabilidades. Antes de virar “a chata do prédio”.
Voltei para a sala e encarei Halina. — Você não entende porque não precisa acordar cedo pra trabalhar. Não precisa se preocupar se vai ter dinheiro pra comprar mistura amanhã.
Ela finalmente largou o celular e me olhou nos olhos. — Mãe, eu também tô cansada. Só não quero brigar toda noite.
Senti um nó na garganta. Queria abraçá-la, mas havia uma distância entre nós que eu não sabia mais como atravessar.
No corredor, ouvi passos pesados e risadas. Era o Rafael, líder da banda dos vizinhos, voltando do elevador com mais cerveja.
Abri a porta de supetão. — Rafael! Dá pra baixar essa música? Tem gente querendo dormir!
Ele sorriu, meio bêbado. — Dona Marta, relaxa! Hoje é sexta! Amanhã ninguém trabalha!
— Eu trabalho! — respondi, sentindo o rosto esquentar.
Ele deu de ombros e entrou no apartamento dele, fechando a porta na minha cara.
Voltei para dentro tremendo de raiva e impotência. Sentei no sofá e enterrei o rosto nas mãos. Halina ficou me olhando em silêncio.
— Mãe… você tá bem?
— Não tô — respondi baixinho. — Não tô bem faz tempo.
Ela se aproximou devagar e sentou ao meu lado. Ficamos ali, ouvindo o barulho atravessar as paredes como se fossem feitas de vento.
No dia seguinte, acordei com dor de cabeça e olheiras profundas. No café da manhã, Halina mal tocou no pão com margarina.
— Você vai falar com a síndica? — ela perguntou sem me olhar.
— Vou tentar… mas ela nunca faz nada.
No caminho para o supermercado, passei pela portaria e vi Dona Lourdes, a síndica, conversando com outro morador.
— Dona Lourdes, preciso falar sério sobre o barulho do 302. Não aguento mais!
Ela revirou os olhos. — Marta, já falei com eles mil vezes. São jovens… você também já foi jovem!
— Mas eu respeitava os outros! — rebati, sentindo a voz falhar.
Ela deu de ombros e voltou para a conversa dela.
No trabalho, minha cabeça latejava. Atendi clientes no automático, sorrindo sem vontade enquanto pensava em como tudo tinha ficado difícil depois da separação. Antes eu tinha um parceiro pra dividir as dores do dia a dia. Agora era só eu e Halina… e parecia que nem ela estava realmente comigo.
Quando voltei pra casa à noite, Halina estava na sala com os fones de ouvido enfiados até a alma.
— O barulho começou cedo hoje — ela disse sem tirar os olhos do notebook.
Sentei ao lado dela e tentei puxar conversa:
— Você tá bem na escola?
Ela deu de ombros. — Tanto faz…
— Halina… você sente falta do seu pai?
Ela tirou um fone e me olhou surpresa:
— Por quê?
— Porque eu sinto falta de alguém pra conversar… pra dividir as coisas…
Ela ficou em silêncio por um tempo e depois respondeu:
— Eu sinto falta de quando a gente era feliz aqui.
Essas palavras me cortaram mais fundo do que qualquer música alta dos vizinhos.
Naquela noite, quando o barulho começou de novo, não gritei nem bati no radiador. Sentei na cama ao lado da Halina e segurei sua mão.
— Filha… desculpa se eu só reclamo ultimamente. É que eu tô cansada demais pra fingir que tá tudo bem.
Ela apertou minha mão de volta e encostou a cabeça no meu ombro.
— Eu também tô cansada, mãe.
Ficamos ali em silêncio até adormecer.
No domingo à tarde, resolvi tentar mais uma vez conversar com Rafael. Esperei ele sair pra fumar no corredor.
— Rafael… você pode pelo menos baixar o som depois da meia-noite? Eu trabalho cedo… minha filha estuda…
Dessa vez ele pareceu ouvir de verdade. Olhou pra mim por um instante longo demais.
— Tá bom, Dona Marta… vou tentar falar com os meninos…
Voltei pro apartamento sem muita esperança, mas naquela noite o barulho parou mais cedo.
Deitada na cama escura, ouvi apenas o som distante dos carros na avenida e a respiração tranquila da Halina no quarto ao lado.
Pensei em tudo que tinha perdido nos últimos anos: o casamento, a alegria fácil dos dias bons, a sensação de pertencimento num lar que agora parecia só um lugar de passagem.
Mas ali, naquele silêncio raro, senti também uma pequena esperança: talvez ainda desse tempo de reconstruir alguma coisa entre mim e minha filha. Talvez ainda desse tempo de ser ouvida — não só pelos vizinhos barulhentos, mas por quem realmente importava.
Será que algum dia a gente consegue encontrar paz mesmo quando tudo ao redor parece ruir? Ou será que aprender a pedir ajuda já é um começo?