Depois de Trinta Anos, Ele Me Deixou – E Depois Voltou: Meu Coração Entre o Perdão e o Amor-próprio
“Você não entende, Lúcia! Eu preciso ir. Não é sobre você, é sobre mim.”
Essas foram as últimas palavras de Roberto antes de fechar a porta do nosso apartamento em Belo Horizonte, numa noite abafada de janeiro. Eu fiquei ali, parada no corredor, sentindo o suor escorrer pelas costas e o coração despencar no peito. Trinta anos juntos. Trinta anos de café passado na hora certa, de brigas por causa do futebol na TV, de domingos na casa da minha mãe em Contagem. E, de repente, nada.
Eu tinha 64 anos. Meus filhos, Mariana e Felipe, já tinham suas vidas. Mariana morava em São Paulo com o marido e os dois filhos pequenos. Felipe estava em Brasília, sempre ocupado com o trabalho no Ministério da Saúde. Senti que o mundo inteiro tinha se esvaziado ao meu redor. O silêncio da casa era ensurdecedor. A cama parecia maior, fria. O cheiro dele ainda impregnado nos travesseiros era uma tortura diária.
No começo, tentei entender. Procurei respostas nas entrelinhas das nossas conversas antigas, nos olhares cansados do fim do dia. Será que eu tinha deixado de ser interessante? Será que ele tinha outra? Perguntei para Mariana, numa ligação chorosa:
— Mãe, você não fez nada de errado. Às vezes os homens simplesmente enlouquecem — ela disse, tentando me consolar.
Mas eu sabia que não era tão simples assim. Roberto sempre foi um homem calado, mas nunca imaginei que guardasse tamanho desespero dentro dele. A solidão foi se tornando minha única companhia. Passei a frequentar a igreja do bairro mais vezes, só para ouvir vozes humanas ao meu redor. Fiz amizade com Dona Cida, uma vizinha viúva que me ensinou a jogar buraco nas tardes de sábado.
Os meses viraram anos. Aprendi a cozinhar só para mim. Descobri que gostava de caminhar no parque pela manhã, sentindo o cheiro da grama molhada e ouvindo os passarinhos. Comecei a participar de um grupo de leitura na biblioteca municipal. Pela primeira vez em décadas, olhei para mim mesma sem ser metade de um casal.
Mas a dor não passava completamente. No Natal seguinte à partida de Roberto, sentei à mesa com Mariana e Felipe e percebi o vazio deixado por ele. Mariana tentou animar:
— Mãe, vamos viajar no ano que vem! Você precisa conhecer o litoral do Espírito Santo!
Sorri, mas por dentro sentia um buraco impossível de preencher.
Três anos depois daquela noite fatídica, numa terça-feira chuvosa de março, ouvi batidas na porta. Achei que fosse Dona Cida trazendo bolo de fubá. Quando abri, quase desmaiei: era Roberto. Mais magro, cabelos ainda mais brancos, olhos fundos.
— Lúcia… — ele começou, a voz trêmula — Eu errei. Não consegui viver sem você.
Fiquei paralisada. Meu corpo inteiro tremeu. Ele entrou sem pedir permissão e se sentou no sofá como se nunca tivesse ido embora.
— Eu tentei recomeçar… Morei com meu irmão em Juiz de Fora, mas nada fazia sentido sem você. Senti sua falta todos os dias — ele disse, os olhos marejados.
Sentei na poltrona oposta e fiquei olhando para ele como se fosse um estranho. Minha cabeça girava: raiva, saudade, alívio, medo.
— Você não pode simplesmente voltar como se nada tivesse acontecido! — gritei, surpreendendo até a mim mesma.
Ele baixou a cabeça:
— Eu sei… Só queria uma chance de te explicar.
Nos dias seguintes, Roberto insistiu em me ver. Mandava mensagens, flores, até tentou cozinhar um feijão tropeiro (ficou horrível). Mariana ficou furiosa:
— Mãe, não deixa esse homem te enganar de novo! Ele te fez sofrer demais!
Felipe foi mais contido:
— Mãe, só você sabe o que sente. Mas pensa bem antes de perdoar.
A vizinhança logo ficou sabendo do retorno dele. Dona Cida me puxou num canto:
— Lúcia, coração da gente não é brinquedo. Mas também não é prisão.
Eu não sabia o que fazer. À noite, sozinha na cama, lembrava dos bons momentos: as viagens para Ouro Preto, as risadas vendo novela juntos, o jeito como ele me abraçava quando eu tinha medo das tempestades de verão.
Mas também lembrava das lágrimas escondidas no banheiro depois que ele foi embora; das noites em claro imaginando se ele estava com outra mulher; da vergonha de contar para as amigas do grupo da igreja que fui abandonada depois de tanto tempo.
Roberto insistia:
— Lúcia, eu mudei. Procurei ajuda… Fui ao psicólogo! Descobri que estava deprimido há anos e nunca quis admitir.
Eu queria acreditar nele. Queria sentir aquele amor antigo florescer de novo. Mas algo dentro de mim gritava por cuidado: será que eu conseguiria confiar novamente? Será que valia a pena arriscar meu pouco de paz por alguém que já me deixou tão despedaçada?
Numa noite especialmente difícil, liguei para Mariana:
— Filha… E se eu der outra chance pro seu pai?
Ela ficou em silêncio por alguns segundos:
— Mãe… Eu só quero te ver feliz. Mas lembra: você não precisa dele pra ser completa.
Chorei baixinho depois dessa conversa. Pela primeira vez percebi que talvez eu realmente pudesse ser feliz sozinha — ou pelo menos tentar.
Roberto continuou tentando provar seu arrependimento: me levou flores do campo (as minhas favoritas), escreveu cartas à mão contando sobre seus sentimentos e até pediu desculpas para meus irmãos pelo sofrimento causado à família.
Um domingo à tarde, sentamos na varanda olhando a chuva cair sobre as mangueiras do quintal.
— Lúcia… Eu entendo se você não quiser mais nada comigo. Mas queria pelo menos sua amizade — ele disse baixinho.
Olhei para ele e vi o homem com quem dividi quase toda minha vida — com defeitos e qualidades. Senti pena dele e também orgulho de mim mesma por ter sobrevivido à tempestade.
Ainda não sei qual caminho vou escolher. Talvez eu perdoe Roberto e tentemos recomeçar devagarinho; talvez eu siga sozinha e descubra novas formas de felicidade aos 67 anos.
Só sei que hoje sou mais forte do que jamais imaginei ser.
E você? O que faria no meu lugar? Será que vale a pena dar uma segunda chance ao amor depois de tanta dor?