Entre a Vida e o Abismo: Uma Noite no Pronto-Socorro

— Não faz isso! — gritei, minha voz ecoando na madrugada vazia da ponte do Viaduto Santa Tereza. A garota, magra, cabelos pretos grudados no rosto molhado de choro, olhou para trás. Seus olhos, enormes e assustados, encontraram os meus por um segundo eterno. Eu sentia o coração martelar no peito, as mãos suadas agarrando a grade da ponte. O vento frio cortava minha pele, mas nada me gelava mais do que a possibilidade de vê-la pular.

Meu nome é Eleonora, sou cirurgiã do Hospital Municipal de Belo Horizonte. Aquela noite começou como tantas outras: plantão de 24 horas, café requentado, corredores lotados de gente esperando por um milagre. Mas nada me preparou para o que estava por vir.

Tudo começou quando a ambulância chegou às pressas logo depois das 20h. Um rapaz de uns vinte e poucos anos, rosto ensanguentado, corpo retorcido pelo impacto. O motorista gritava:

— Ele bateu de frente com uma caminhonete no cruzamento da Amazonas com a Contorno! Tá perdendo muito sangue!

Corremos para o centro cirúrgico. O cheiro metálico do sangue misturava-se ao suor dos enfermeiros. Eu tentava manter a calma enquanto abria o tórax do rapaz — Lucas, segundo os documentos encontrados no bolso da calça jeans rasgada. O anestesista, Rafael, murmurou:

— Eleonora, pressão caindo rápido!

— Pega mais bolsas de sangue! — ordenei, sentindo o peso da vida daquele menino nas minhas mãos.

Horas se passaram entre bisturis e pinças. Quando finalmente estabilizamos Lucas e o levamos para o OIOM, minhas pernas tremiam. Sentei no vestiário, tentando respirar fundo. Foi quando Dona Cida, enfermeira-chefe há mais de trinta anos ali, entrou com duas xícaras de café.

— Toma, Eleonora. Você precisa se cuidar também.

— Obrigada, Cida… Às vezes acho que não vou aguentar mais uma noite dessas.

Ela sorriu com aquele jeito materno:

— Você já aguentou coisa pior. Lembra do menino da Vila Sumaré? Você salvou ele quando ninguém acreditava.

Antes que eu pudesse responder, meu celular vibrou. Uma mensagem da minha mãe: “Filha, seu pai piorou hoje. O médico disse que talvez precise de outra cirurgia no coração.” Fechei os olhos por um instante. Meu pai estava internado há semanas e eu mal conseguia visitá-lo.

Mal tive tempo de processar quando o rádio do hospital chiou:

— Atenção! Acionamento do SAMU na ponte do Viaduto Santa Tereza. Tentativa de suicídio. Precisamos de apoio médico urgente!

Meu coração disparou novamente. Pedi licença e corri para a ambulância junto com Cida e dois paramédicos.

Chegando à ponte, vi a cena: uma garota em cima da grade, olhando para baixo como se buscasse coragem para se lançar no vazio. Policiais tentavam conversar com ela, mas ela parecia não ouvir nada além do próprio desespero.

Aproximei-me devagar.

— Qual seu nome? — perguntei suavemente.

Ela hesitou antes de responder:

— Mariana…

— Mariana, eu sou Eleonora. Sou médica. Posso subir aí com você?

Ela balançou a cabeça negativamente, lágrimas escorrendo pelo rosto.

— Ninguém liga pra mim… Minha mãe só grita comigo… Meu pai sumiu faz anos… Eu perdi meu emprego… Não tenho mais nada…

Senti um nó na garganta. Lembrei das noites em que também me senti sozinha, sufocada pela pressão do hospital e pelos problemas em casa.

— Mariana, eu sei que parece impossível agora… Mas você não está sozinha. Eu também já me senti perdida. Meu pai está doente, minha mãe depende de mim… Às vezes acho que não vou dar conta. Mas sempre tem alguém que se importa — mesmo quando a gente não enxerga.

Ela olhou para mim com desconfiança.

— Você não entende… Eu sou um peso pra todo mundo.

Me aproximei mais um pouco.

— Você não é peso nenhum. Você é importante. Se quiser, podemos conversar ali na calçada… Só me dá sua mão?

O silêncio durou uma eternidade até que ela estendeu a mão trêmula. Com cuidado, ajudei Mariana a descer da grade enquanto os policiais se aproximavam devagar.

No caminho para o hospital, ela chorava baixinho no banco da ambulância. Segurei sua mão o tempo todo.

De volta ao pronto-socorro, sentei ao lado dela enquanto Cida providenciava um leito na psiquiatria.

— Obrigada… — sussurrou Mariana antes de adormecer exausta.

Naquele instante, percebi como nossas dores se cruzam nos corredores frios dos hospitais brasileiros: jovens destruídos por acidentes evitáveis; meninas esmagadas pela solidão e pela falta de perspectiva; famílias desfeitas pela violência ou pela doença; profissionais exaustos tentando salvar vidas enquanto mal conseguem cuidar das próprias feridas.

Quando finalmente voltei para o vestiário, já era quase manhã. Sentei sozinha e chorei baixinho — pelo Lucas, pela Mariana, pelo meu pai… por mim mesma.

Às vezes me pergunto: até quando vamos fingir que está tudo bem? Quantas Marianas ainda vão subir naquela grade antes que a gente olhe uns para os outros com mais empatia? Será que algum dia vamos aprender a cuidar uns dos outros de verdade?