Dor, Chá e Silêncios: O Preço do Amor com Leonardo
— Você vai sair assim de novo, Clara? — a voz de Leonardo corta o silêncio da cozinha como uma faca. Eu paro, a mão ainda segurando a xícara de chá quente, e olho para ele. O cheiro do pão de queijo recém-saído do forno deveria me trazer conforto, mas só sinto um nó no estômago.
— Assim como? — pergunto, tentando manter a voz firme, mas ela treme. Ele não responde. Só me olha de cima a baixo, com aquele olhar que mistura julgamento e desprezo. O silêncio entre nós é pesado, quase palpável.
Penso em responder, em gritar, em jogar a xícara na parede. Mas engulo tudo. Engulo como engoli tantas outras coisas nesses últimos anos: as críticas veladas, os olhares atravessados, as promessas vazias. Engulo porque aprendi que discutir com Leonardo é como gritar no vazio. Ele sempre vence pelo cansaço.
Quando nos conhecemos, eu era só uma estudante de Letras da UFMG cheia de sonhos. Ele era charmoso, engraçado, parecia me enxergar de verdade. Me fazia rir das minhas inseguranças, dizia que eu era diferente das outras. No começo, tudo era leveza. Mas logo vieram as pequenas cobranças: “Você vai sair com suas amigas de novo?”, “Por que você precisa trabalhar tanto?”, “Não acha que está se arrumando demais?”.
No início, achei que era cuidado. Depois percebi que era controle.
Minha mãe sempre dizia: “Homem bom é aquele que te faz sentir livre, não presa”. Mas eu não quis ouvir. Achava que amor era isso mesmo: abrir mão de si pelo outro. E fui abrindo mão. Parei de sair tanto com minhas amigas — Mariana e Letícia ainda tentam me ligar todo sábado à noite, mas eu quase nunca atendo. Troquei o mestrado por um emprego numa escola particular porque Leonardo dizia que era mais seguro ter salário fixo. Até minha paixão por escrever foi ficando pra trás.
Hoje, minha vida cabe nesse apartamento pequeno no bairro Santa Tereza. O barulho dos ônibus passando na rua mistura-se ao som da chaleira apitando toda manhã. Leonardo sai cedo para trabalhar no escritório do pai dele — um escritório de advocacia onde ele nunca precisou lutar por nada. Eu fico sozinha até as cinco da tarde, quando vou dar aula para crianças do fundamental.
Às vezes, me pego olhando pela janela e imaginando como seria minha vida se tivesse seguido outro caminho. Se tivesse ido morar em São Paulo com Mariana, se tivesse feito aquele intercâmbio na Argentina, se tivesse dito não para Leonardo naquela noite chuvosa em que ele pediu para morar comigo.
Mas aí ele chega em casa e tudo volta ao mesmo lugar.
— O que tem pra jantar? — pergunta sem olhar pra mim, largando a mochila no sofá.
— Fiz arroz, feijão e frango grelhado — respondo baixo.
Ele revira os olhos.
— De novo isso? Você sabe que eu não gosto de frango grelhado.
Eu queria dizer que é o que dá pra fazer com o dinheiro contado do mês, que ele nunca ajuda nas compras, que estou cansada depois do trabalho. Mas só abaixo a cabeça e vou esquentar o prato.
À noite, deitada ao lado dele na cama, olho para o teto e penso em tudo o que perdi de mim mesma nesses anos. Sinto falta da Clara que ria alto no boteco com as amigas, da Clara que escrevia poemas nas madrugadas frias de Belo Horizonte, da Clara que sonhava em ser autora publicada.
Uma vez tentei conversar com minha mãe sobre isso. Ela ficou em silêncio por um tempo e depois disse:
— Filha, você precisa lembrar quem você é. Não deixe ninguém te apagar.
Mas como lembrar quem eu sou se todo dia acordo sentindo menos?
No domingo passado, durante o almoço na casa dos pais dele — aquela casa enorme no bairro Funcionários onde tudo parece perfeito demais — ouvi a sogra dizendo:
— Clara é tão quietinha… parece até que não tem opinião própria!
Todos riram. Até Leonardo.
Eu sorri amarelo e fingi não ouvir. Mas por dentro chorei.
Na volta pra casa, tentei falar sobre como me senti.
— Você é sensível demais — ele disse. — Não foi nada demais.
E assim sigo vivendo: entre silêncios e pequenas dores diárias que ninguém vê.
Outro dia encontrei Mariana por acaso na padaria. Ela me abraçou forte e disse:
— Você sumiu! Sinto falta da minha amiga corajosa.
Quase chorei ali mesmo. Queria contar tudo pra ela: o medo, a solidão, a sensação constante de não ser suficiente. Mas só consegui sorrir e dizer:
— Tô na correria…
Às vezes penso em ir embora. Penso em juntar minhas coisas numa mala pequena e pegar o primeiro ônibus pra qualquer lugar longe daqui. Mas aí lembro do medo: medo do julgamento da família dele, medo de ficar sozinha, medo de não conseguir me sustentar sozinha outra vez.
Mas também lembro da liberdade que sentia antes dele. Da alegria simples de tomar um café na Praça da Liberdade sem pressa, de escrever sem medo de ser julgada.
Hoje acordei diferente. Olhei para Leonardo dormindo ao meu lado e senti uma mistura estranha de tristeza e raiva. Levantei antes dele, preparei meu chá e sentei à mesa com meu caderno velho de poesias.
Escrevi:
“Entre silêncios e chá quente,
uma mulher se refaz.
No espelho dos próprios olhos,
o amor-próprio pede paz.”
Quando Leonardo acordou e veio até a cozinha resmungando sobre o café fraco, eu só olhei pra ele e disse:
— Hoje vou sair com Mariana depois do trabalho.
Ele me olhou surpreso, quase indignado.
— E quem vai fazer o jantar?
— Hoje você se vira — respondi, sentindo um frio na barriga e uma coragem nova crescendo dentro de mim.
Ele bufou e saiu batendo a porta do banheiro. Pela primeira vez em anos, não senti culpa. Senti alívio.
Talvez seja só um pequeno passo. Talvez amanhã eu volte a sentir medo. Mas hoje escolhi a mim mesma.
Será que finalmente estou aprendendo a me amar? Será que é possível reconstruir quem fui um dia? E vocês: já sentiram esse medo de recomeçar?