Luz do Capão Redondo: A História de Zuleide Correnteza

— Dona Zuleide, o chefe quer falar com a senhora agora! — gritou o Júnior do almoxarifado, batendo a mão na porta da sala onde eu tentava organizar as planilhas do mês.

Eu nem precisei levantar os olhos para saber que ela já vinha. O barulho dos saltos gastos ecoava pelo corredor, misturado ao som das máquinas e das conversas abafadas dos outros funcionários. Zuleide Correnteza — ninguém chamava ela pelo sobrenome verdadeiro, mas sim por esse apelido que grudou nela desde o tempo em que chegou no Capão Redondo, fugida do interior da Bahia, há mais de vinte anos.

Ela entrou na sala com aquele jeito apressado, o rosto marcado pelo tempo e pelos dias de sol forte na obra. Os cabelos presos num coque improvisado, a blusa manchada de graxa. Olhou pro chefe, o Seu Ademar, com uma mistura de desafio e cansaço.

— O que foi agora, Seu Ademar? Se for pra reclamar que eu gritei com o moleque novo, pode parar. Ele quase deixou cair a peça no pé do colega!

O chefe suspirou, ajeitou os óculos no nariz e tentou manter a calma:

— Zuleide, você sabe que eu confio no seu trabalho. Mas o pessoal tá reclamando do seu jeito. Dizem que você é grossa demais, que ninguém aguenta mais suas broncas.

Ela cruzou os braços, encarou ele sem piscar:

— E se eu fosse homem? Ia ser chamado de firmeza. Mas como sou mulher e velha, viro grossa? Aqui ninguém respeita mulher que fala alto, só homem. Quer que eu fique calada vendo erro?

O silêncio pesou na sala. Eu senti vontade de defender ela, mas sabia que meu papel era só anotar tudo e fingir que não estava ali.

Zuleide saiu batendo a porta. No corredor, ouvi ela resmungando:

— Quero ver se algum deles aguenta metade do que eu já passei nessa vida…

Na hora do almoço, sentei perto dela no refeitório. Ela mexia no arroz com feijão sem vontade. Resolvi puxar assunto:

— Dona Zuleide, não liga pra eles não. O pessoal fala demais.

Ela me olhou com os olhos marejados:

— Você é nova aqui, né? Não sabe como é ser mulher sozinha nesse mundo de homem. Eu criei três filhos sozinha. O pai deles sumiu quando o caçula tinha dois anos. Trabalhei de faxina, vendi bolo na rua, fiz de tudo pra não faltar comida em casa. Agora que consegui um emprego fixo, querem me calar? Não vou.

Lembrei das conversas no ônibus lotado, das mulheres contando histórias parecidas. Mas Zuleide era diferente: ela não tinha medo de falar alto, de exigir respeito.

Naquela semana, a fofoca correu solta. Diziam que ela ia ser mandada embora. Outros apostavam que ela ia pedir demissão antes. Mas Zuleide continuava igual: cobrando dos colegas, defendendo os mais novos, enfrentando quem tentasse passar por cima dela.

Um dia, cheguei mais cedo e vi ela sentada na calçada da oficina, chorando baixinho. Sentei ao lado dela sem dizer nada. Depois de um tempo, ela falou:

— Sabe o que dói? Não é o trabalho pesado. É ver gente que eu ajudei virar a cara pra mim. Gente que eu defendi quando ninguém queria saber deles.

Fiquei pensando em quantas Zuleides existiam por aí: mulheres invisíveis, que seguram o mundo nas costas e ainda são julgadas por não sorrirem o tempo todo.

No fim do mês, Seu Ademar chamou todos pra uma reunião. Disse que ia ter corte de pessoal por causa da crise. O medo tomou conta da oficina. Quando ele anunciou os nomes dos demitidos, senti um frio na barriga. Mas o nome da Zuleide não estava na lista.

Depois da reunião, ela veio até mim:

— Viu só? Não vão me derrubar fácil assim não. Eu sou correnteza: posso até tropeçar nas pedras, mas sigo em frente.

Naquela noite, fui pra casa pensando nela. Lembrei da minha mãe, das vizinhas guerreiras do bairro onde cresci. Pensei em como a sociedade ainda é cruel com mulheres fortes — principalmente as mais velhas e pobres.

No outro dia, Zuleide chegou mais cedo ainda. Trouxe bolo pra dividir com todo mundo.

— Hoje é aniversário do meu filho mais velho — disse ela sorrindo pela primeira vez em semanas. — Ele se formou em técnico de enfermagem! Quem diria…

Os colegas ficaram sem graça. Alguns pediram desculpa pelas palavras duras dos últimos dias. Outros continuaram fingindo indiferença.

Mas naquele momento eu entendi: Zuleide não precisava da aprovação deles pra ser gigante.

Às vezes me pergunto: quantas mulheres como Zuleide passam pela nossa vida sem serem vistas? Quantas histórias de luta e coragem a gente ignora todo dia?