Entre Redes e Segredos: O Jogo Que Mudou Minha Vida
— Eu sou a esposa do André. Posso entrar?
Minha voz saiu mais trêmula do que eu gostaria. O cheiro de suor e desinfetante do corredor do alojamento universitário me fez hesitar por um segundo. A moça da portaria, com o crachá torto escrito “Juliana”, olhou para mim de cima a baixo, como se tentasse decidir se eu era mesmo quem dizia ser.
— Oi, tudo bem? — ela respondeu, meio desconfiada. — Ele está lá no ginásio, com o pessoal do time.
Respirei fundo. Eu não queria estar ali. Nunca gostei de esportes, nunca entendi o fascínio que André tinha por vôlei, nem por que ele passava tanto tempo com aquela equipe barulhenta da faculdade de Medicina. Mas desde que ele começou a treinar para o campeonato contra a galera da Engenharia, parecia que eu tinha virado figurante na própria vida.
Minha amiga Camila me cutucou:
— Vamos logo, Mari. Se a gente não correr, vai perder o começo do jogo!
— Eu nem gosto de vôlei, Camila. Só vim porque você insistiu.
Ela riu:
— Você veio porque está morrendo de ciúmes daquela tal de Bianca, a levantadora do time dele.
Fingi não ouvir, mas era verdade. Desde que Bianca apareceu, com aquele sorriso fácil e cabelo preso em coque bagunçado, André ficou diferente. Mais distante. Mais irritado quando eu perguntava sobre os treinos. E agora, ali estava eu, atravessando o ginásio lotado, sentindo o coração bater na garganta.
O barulho era ensurdecedor. Gritos, apitos, tênis rangendo no chão encerado. O time da Medicina estava aquecendo; André era o único sentado no banco, olhando para o celular. Quando me viu, pareceu surpreso — ou seria incomodado?
— Mariana? O que você tá fazendo aqui?
— Vim ver o jogo — respondi, tentando soar casual.
Ele olhou para Camila atrás de mim e depois para mim de novo.
— Achei que você odiava vôlei.
— E odeio mesmo — Camila se intrometeu — mas hoje é dia de apoiar os amigos!
Bianca apareceu do nada, suada e sorridente:
— Oi, Mari! Que bom que veio! André falou tanto de você…
Senti um nó no estômago. Ela era linda. Jovem demais, animada demais. E parecia saber exatamente o efeito que causava.
O jogo começou. Eu tentei prestar atenção, mas minha cabeça estava longe. Cada vez que Bianca tocava na bola e André gritava instruções para ela, eu sentia uma pontada de raiva e insegurança. Camila percebeu:
— Relaxa, amiga. É só vôlei.
Mas não era só vôlei. Era sobre tudo o que eu sentia ter perdido desde que André entrou na faculdade: nosso tempo juntos, nossas conversas, até nosso toque. Agora ele só falava de provas, plantões e treinos. E eu? Eu era só “a esposa do André”.
No intervalo, fui ao banheiro tentar me recompor. Quando voltei, vi André e Bianca conversando encostados na parede do ginásio. Eles riam de algo que eu não podia ouvir. Meu peito apertou.
Depois do jogo — que a Medicina perdeu por pouco — André veio até mim:
— Vamos pra casa?
No caminho até o carro, o silêncio era pesado.
— Você tá estranha — ele disse finalmente.
— Eu? Você que anda estranho há semanas.
Ele bufou:
— Lá vem você com essa história de novo…
— Não é história! Você mudou desde que começou a treinar com aquela menina!
Ele parou no meio da calçada:
— Aquela menina tem nome! E é só minha amiga!
— Amiga? Você mal fala comigo em casa! Só tem tempo pra ela!
As palavras saíram antes que eu pudesse segurar:
— Você tá me traindo com ela?
O rosto dele ficou vermelho.
— Claro que não! Mariana, pelo amor de Deus… Você acha mesmo que eu faria isso?
Eu queria acreditar nele. Queria muito. Mas algo dentro de mim gritava que tinha alguma coisa errada.
Naquela noite, dormimos de costas um para o outro. No dia seguinte, acordei cedo e fui trabalhar sem falar com ele.
Durante a semana, tentei me distrair com o trabalho no hospital público onde sou técnica de enfermagem. Mas tudo parecia cinza. Até Camila percebeu:
— Você precisa conversar com ele de verdade, Mari. Ou vai acabar se perdendo nessa paranoia.
Mas como conversar se eu mesma não sabia mais quem eu era? Antes de André entrar na Medicina, eu tinha sonhos: queria fazer faculdade também, viajar pelo Brasil, talvez abrir uma pequena clínica um dia. Agora parecia tarde demais para tudo isso.
Na sexta-feira à noite, cheguei em casa e encontrei André sentado no sofá, olhando para uma foto nossa do casamento.
— A gente precisa conversar — ele disse.
Sentei ao lado dele, sentindo as lágrimas ameaçarem cair.
— Eu sei que ando distante — ele começou — mas não é por causa da Bianca. É porque eu tô sobrecarregado. A faculdade tá me matando… E eu sinto que tô te perdendo também.
Ficamos em silêncio por um tempo.
— Eu sinto falta de você — sussurrei.
Ele pegou minha mão:
— Eu também sinto sua falta. Mas a gente precisa se reencontrar… juntos.
Naquele momento percebi: não era só ciúmes ou insegurança. Era medo de perder quem eu era antes do casamento, antes da rotina engolir meus sonhos.
No sábado seguinte, acordei cedo e fui até a universidade sozinha. Entrei no ginásio vazio e sentei nas arquibancadas. Fechei os olhos e pensei em tudo o que queria para mim — não só para nós dois.
Quando cheguei em casa, André estava preparando café da manhã.
— Tava pensando… — ele disse — Que tal você voltar a estudar? Fazer aquele curso de enfermagem avançada que você sempre quis?
Sorri pela primeira vez em semanas.
A vida não voltou ao normal imediatamente. Ainda brigamos às vezes; ainda sinto ciúmes quando vejo Bianca no Instagram dele. Mas agora sei: preciso cuidar dos meus sonhos também.
E você? Já sentiu que perdeu quem era por causa de alguém? Até onde vale a pena abrir mão dos próprios sonhos por amor?