Enquanto a Lâmpada Brilhar: Memórias de Dona Zuleide
— Dona Zuleide, a senhora esqueceu a luz acesa de novo! — gritou Seu Antônio, o síndico, batendo na porta do meu apartamento com aquela impaciência de quem já perdeu a fé no mundo.
O cheiro de repolho cozido subia pela escada, misturado ao odor acre de fio queimado. Era um perfume familiar, desses que grudam na pele e na alma. Senti o peso dos anos nos meus ombros quando abri a porta, tentando sorrir para disfarçar o cansaço.
— Desculpe, Seu Antônio. Às vezes esqueço mesmo… — respondi, com a voz baixa, quase um sussurro.
Ele resmungou qualquer coisa sobre economia de energia e foi embora. Fiquei ali parada, olhando para o corredor mal iluminado, lembrando dos tempos em que aquela escada era cheia de vozes, risadas e passos apressados das crianças. Agora, só restava o eco dos meus próprios pensamentos.
Quando cheguei ao Brasil, vinda do interior de Minas Gerais, era uma jovem cheia de sonhos. Casei cedo com o Joaquim, um homem trabalhador, mas duro demais com a vida e com os filhos. Tivemos três: Luciana, Paulo e André. Cada um deles carregava uma parte minha e outra dele, mas nenhum herdou a esperança que eu insistia em manter acesa dentro de casa.
Lembro do cheiro do feijão borbulhando na panela enquanto Luciana fazia os deveres na mesa da cozinha e Paulo brigava com André pelo último pedaço de pão. Joaquim chegava tarde, cansado da obra, e descontava no silêncio ou em palavras duras tudo aquilo que o mundo lhe negava.
— Mãe, por que o pai grita tanto? — Luciana me perguntou certa noite, os olhos grandes brilhando de medo.
— Porque ele tem medo também, filha. Medo de não dar conta — respondi, tentando protegê-la da verdade.
Os anos passaram como um vendaval. Luciana foi a primeira a sair de casa, fugindo do peso daquele ambiente. Paulo se perdeu nas más companhias do bairro; lembro até hoje da noite em que a polícia bateu à nossa porta. André tentou ser o filho perfeito, mas carregava uma tristeza silenciosa que eu nunca consegui decifrar.
Depois que Joaquim morreu — um infarto fulminante na fila do INSS — a casa ficou grande demais para mim. Os filhos vinham cada vez menos. Luciana se mudou para São Paulo e só ligava em datas especiais. Paulo sumiu no mundo; dizem que está em algum lugar do Rio, mas nunca mais deu notícias. André casou-se com uma moça boa, mas vive ocupado demais para visitar a mãe.
Hoje, minha companhia é essa lâmpada amarela no corredor e o cheiro persistente de repolho cozido vindo do apartamento da Dona Cida. Às vezes penso que minha vida é feita só de cheiros e ecos: o perfume do café fresco nas manhãs felizes, o suor dos dias difíceis, o cheiro de mofo das cartas guardadas na gaveta.
Outro dia, Dona Cida bateu à minha porta:
— Zuleide, aceita um prato de sopa? Fiz demais pra mim…
Agradeci com um sorriso tímido. Sentamos juntas na cozinha apertada e conversamos sobre os filhos que não vêm mais, sobre os maridos que já se foram e sobre como é difícil envelhecer sozinha numa cidade grande.
— Sabe o que eu acho? — disse ela, mexendo a colher na sopa — A gente só precisa de alguém pra ouvir nossas histórias. Porque se ninguém escuta, parece que a gente nunca existiu.
Essas palavras ficaram martelando na minha cabeça por dias. Será que tudo o que vivi vai desaparecer comigo? As brigas e reconciliações com Joaquim, as noites em claro esperando Paulo voltar, os aniversários improvisados com bolo de fubá… Tudo isso vai sumir como fumaça?
Na semana passada, André finalmente apareceu. Trouxe flores e um bolo da padaria.
— Mãe, desculpa não vir antes… A vida tá corrida demais — disse ele, sem me olhar nos olhos.
— Eu entendo, filho. Só queria saber se você tá bem.
Ele ficou em silêncio por um tempo e depois me abraçou forte. Senti o cheiro dele — mistura de perfume barato e saudade antiga.
— Sabe mãe… Às vezes sinto falta da nossa casa cheia. Mesmo com as brigas… Era bom ter todo mundo junto.
Chorei baixinho no ombro dele. Não era tristeza nem alegria; era só alívio por saber que ainda existia amor entre nós, mesmo escondido sob camadas de mágoa e tempo perdido.
Depois que André foi embora, sentei na poltrona da sala e fiquei olhando para a lâmpada tremeluzente no corredor. Enquanto ela brilhar, pensei comigo mesma, nada está perdido de verdade. Ainda há tempo para recomeçar? Para perdoar? Para ser lembrada?
Talvez tudo o que eu precise seja isso: manter acesa a luz das minhas memórias e esperar que algum dia alguém queira ouvi-las.
E você? Também sente esse medo de ser esquecido? Será que nossas histórias importam mesmo quando ninguém mais está ouvindo?