Mãe, diga à minha filha que eu já não estou mais aqui: A última decisão de uma mulher solitária
— Dona Mariana, a senhora está bem? — a voz da recepcionista me tirou do transe. Eu não sabia se estava. Meus dedos tremiam quando entreguei o RG e o cartão do SUS. O relógio na parede marcava 18h47. O cheiro de desinfetante misturado ao suor das pessoas na fila me dava enjoo. Mas o que mais me sufocava era o peso do que eu estava prestes a fazer.
Minha filha, Isabela, de apenas nove anos, estava em casa com a vizinha, Dona Lourdes. Eu disse que ia ao médico, mas não contei que talvez não voltasse. Não por doença, mas por cansaço. Cansaço de lutar sozinha, de apanhar calada, de ver minha filha crescer com medo do próprio pai.
— A senhora pode aguardar ali, por favor? — a moça apontou para uma cadeira de plástico azul. Sentei e abracei minha bolsa como se ela pudesse me proteger. Lembrei do dia em que conheci o Paulo, no forró da esquina. Ele era bonito, sorridente, parecia um sonho. Mas o sonho virou pesadelo rápido. O primeiro tapa veio quando Isabela tinha só três meses. Depois vieram os gritos, os sumiços, as traições. E eu, sempre acreditando que ele ia mudar.
Minha mãe dizia: “Homem é assim mesmo, Mariana. Aguenta firme pela sua filha.” Mas até quando? O rosto de Isabela me veio à mente, os olhos grandes e assustados, o jeito como ela se encolhia quando ouvia a chave do pai na porta. Eu tentei protegê-la, mas como proteger alguém quando nem você mesma consegue se defender?
O médico me chamou. Entrei na sala e sentei na cadeira dura. Ele olhou meus exames, perguntou do que eu sentia. Eu queria dizer que sentia tudo: dor no corpo, na alma, no peito. Mas só consegui balbuciar:
— Não aguento mais, doutor. Não aguento mais viver assim.
Ele me olhou com pena, mas também com pressa. O hospital estava lotado. Me receitou calmantes e pediu para eu procurar um psicólogo. Eu ri por dentro. Psicólogo? Com que dinheiro? Mal dava pra comprar arroz e feijão.
Saí do consultório e sentei no banco do corredor. Peguei o celular e vi uma mensagem do Paulo: “Volta logo. Se demorar, você vai ver.” Meu coração disparou. Pensei em ligar pra polícia, mas lembrei das vezes que tentei e nada aconteceu. Ele sempre dava um jeito de me encontrar depois.
Foi então que decidi. Não ia mais voltar. Não podia deixar Isabela naquele inferno, mas também não podia levá-la comigo para lugar nenhum. Não tinha família, não tinha amigos. Só tinha medo.
Peguei um papel na bolsa e escrevi:
“Mãe, diga à minha filha que eu já não estou mais aqui. Que ela merece ser feliz, que não é culpa dela. Que eu tentei, mas não consegui. Cuide dela por mim.”
Dobrei o papel e entreguei para a recepcionista.
— Se alguém perguntar por mim, por favor, entregue isso pra minha mãe ou pra minha filha.
Ela me olhou assustada, mas eu já estava indo embora. Saí do hospital e caminhei sem rumo pelas ruas escuras do bairro. Chovia fino. Senti cada gota como um aviso: não tem volta. Pensei em Isabela, no cheiro do cabelo dela, no jeito como ela me abraçava quando tinha pesadelo. Pensei em Dona Lourdes, que sempre dizia que mulher tem que ser forte. Mas eu não era forte. Não mais.
Sentei na calçada e chorei. Chorei tudo o que não chorei em anos. Lembrei do dia em que minha mãe foi embora de casa, deixando eu e meus irmãos com meu pai violento. Jurei que nunca faria isso com minha filha. Mas aqui estava eu, repetindo a história.
O celular tocou de novo. Era Paulo. Ignorei. Depois veio uma mensagem de Isabela: “Mãe, volta logo. Tô com saudade.” Meu peito doeu tanto que achei que ia morrer ali mesmo.
Pensei em voltar, pedir ajuda, tentar mais uma vez. Mas o medo era maior. Medo de morrer nas mãos dele, medo de ver minha filha sofrer ainda mais. Medo de não conseguir sair nunca desse ciclo.
A madrugada chegou e eu ainda estava na rua. Vi um grupo de mulheres conversando na porta de uma igreja evangélica. Uma delas me chamou:
— Moça, tá tudo bem?
Olhei para ela, para as outras. Vi nos olhos delas o mesmo medo, a mesma dor. Sentei no degrau e contei minha história. Elas me ouviram, me abraçaram, me deram café quente. Pela primeira vez em anos, senti que não estava sozinha.
Fiquei ali até o sol nascer. Uma das mulheres, Jussara, me ofereceu abrigo na casa dela. Aceitei. Liguei para Dona Lourdes e pedi para cuidar de Isabela por mais uns dias. Disse que precisava de tempo.
Na casa de Jussara, chorei mais um pouco. Ela me disse que já passou por coisa parecida, que também pensou em desistir. Mas ficou por causa dos filhos. Me mostrou um folheto de um grupo de apoio para mulheres vítimas de violência. Decidi ir.
Os dias passaram devagar. Senti falta de Isabela como se faltasse um pedaço de mim. Mas sabia que precisava me reconstruir antes de voltar pra ela. Procurei ajuda, conversei com outras mulheres, aprendi a dizer não.
Depois de duas semanas, voltei pra casa. Paulo tinha sumido. Dona Lourdes cuidou de Isabela como se fosse neta. Minha filha correu pra mim, chorando, dizendo que achou que eu nunca mais ia voltar.
Abracei ela forte e prometi: nunca mais vou te deixar sozinha. Procurei a delegacia da mulher, fiz denúncia, consegui medida protetiva. Não foi fácil, mas comecei de novo.
Hoje, olho pra trás e vejo que quase repeti a história da minha mãe. Mas tive coragem de pedir ajuda, de sair do silêncio. Minha filha merece uma mãe viva, presente, inteira.
Será que outras mulheres também conseguem romper esse ciclo? Quantas ainda estão presas no medo, no silêncio? O que falta pra sociedade enxergar a dor de quem sofre calada?