Depois do Fim: Minha Jornada de Superação Após o Adeus de Camila
— Você não se ama, Lucas. Como espera que eu te ame? — As palavras de Camila ecoaram como um trovão na sala pequena do nosso apartamento em Osasco. Ela estava de pé, mala na mão, olhos marejados, mas firmes. Eu, sentado no sofá afundado, só conseguia olhar para o chão, sentindo o peso do meu corpo e da minha culpa esmagando meu peito.
A porta bateu. O silêncio que ficou foi ensurdecedor. Eu sabia que tinha perdido Camila, mas só naquele instante percebi que estava perdendo a mim mesmo há anos. O espelho do corredor refletia um homem que eu mal reconhecia: 180 quilos, rosto inchado, olhos apagados. Lembrei das vezes em que prometi mudar, das dietas fracassadas, das caminhadas que nunca duravam mais de uma semana.
Minha mãe, Dona Sônia, sempre dizia: “Filho, saúde é tudo. Não adianta dinheiro, não adianta amor se você não se cuida.” Mas eu nunca ouvi de verdade. Meu pai, Seu Jorge, era mais duro: “Homem tem que ser forte, mas não desse jeito. Vai morrer cedo.” Eu ria para não chorar.
Naquela noite, sozinho, abri o Instagram e vi uma foto antiga minha e da Camila na praia de Ubatuba. Eu sorria, mas por dentro sentia vergonha de tirar a camisa. Os comentários dos amigos eram sempre os mesmos: “Ô gordinho feliz!” ou “Lucas é gente boa demais!” Mas ninguém sabia das noites em claro, das dores nas costas, da falta de ar ao subir dois lances de escada.
A dor do abandono virou raiva. Raiva de mim mesmo. Passei três dias trancado em casa, comendo tudo que via pela frente: pizza fria, brigadeiro de panela, refrigerante de dois litros. No quarto dia, acordei com o peito apertado e uma vontade louca de sumir. Chorei como criança. Peguei o celular e liguei para minha irmã, Mariana.
— Lucas? O que aconteceu?
— Ela foi embora, Mari. Eu tô acabado.
— Você precisa de ajuda. Vem pra cá hoje à noite. A gente conversa.
Na casa dela, entre um café preto e um bolo de fubá, Mariana me olhou nos olhos:
— Você não precisa fazer isso sozinho. Vamos procurar um médico juntos.
Foi assim que comecei minha jornada. O endocrinologista foi direto:
— Lucas, seu IMC está perigosamente alto. Você tem gordura no fígado, pressão nas alturas e risco real de diabetes. Se continuar assim, não chega aos 40.
Saí do consultório tremendo. Pela primeira vez senti medo de morrer jovem. Decidi que ia lutar por mim. No início foi humilhante: caminhar 10 minutos já me deixava exausto. Na academia do bairro, sentia os olhares atravessados dos marombas e das meninas saradas. Mas tinha a voz da Camila na cabeça: “Você não se ama.”
Minha família virou meu porto seguro. Dona Sônia preparava marmitas saudáveis, Mariana me buscava para caminhadas no parque Villa-Lobos aos domingos. Meu pai parou de fazer piada e passou a me incentivar:
— Orgulho de você, filho. Continua firme.
Os primeiros 20 quilos foram os mais difíceis. Tive recaídas: brigadeiro escondido à noite, fast food no caminho do trabalho. Mas cada vez que caía, lembrava do vazio que ficou quando Camila saiu pela porta. Não queria sentir aquilo nunca mais.
Comecei a compartilhar minha rotina no Instagram: fotos suadas na academia, pratos coloridos de salada e frango grelhado, vídeos curtos desabafando sobre as dificuldades. No início só meus amigos curtiam. Depois vieram desconhecidos: “Você me inspira!”, “Também tô nessa luta!”
Com 50 quilos a menos, fui convidado para dar uma entrevista numa rádio local sobre superação. Minha voz tremia:
— Não é só sobre emagrecer. É sobre se reencontrar.
A repercussão foi enorme. Gente do Brasil inteiro mandando mensagem: mães solteiras de Manaus, jovens de Salvador, pais de família do interior de Minas. Todos querendo saber como eu consegui.
Mas nem tudo era vitória. Tive crises de ansiedade, vontade de desistir. Um dia encontrei Camila no mercado. Ela estava diferente: cabelo curto, sorriso tímido.
— Você tá bem — ela disse.
— Tô tentando ser melhor pra mim mesmo — respondi.
Saí dali com o coração acelerado. Não era mais sobre ela. Era sobre mim.
Quando cheguei aos 90 quilos perdidos, organizei uma caminhada solidária no bairro para arrecadar alimentos para famílias carentes. Mais de cem pessoas apareceram. Vi crianças sorrindo, idosos caminhando devagar ao meu lado. Senti que estava fazendo diferença.
Hoje peso 80 quilos. Tenho orgulho do homem que vejo no espelho. Não sou perfeito: ainda luto contra a ansiedade, ainda tenho dias ruins. Mas aprendi a me amar antes de esperar amor dos outros.
Às vezes me pego pensando: quantos de nós só acordam depois de perder alguém ou algo importante? Será que precisamos chegar ao fundo do poço pra buscar a luz? E você aí do outro lado: o que te impede de começar sua própria jornada hoje?