Onde um dia foi meu lar
— Você voltou mesmo, Mariana? — a voz rouca do Seu Geraldo me atingiu antes mesmo que eu visse seu rosto enrugado, encostado no portão de arame farpado. — Depois de tanto tempo… achei que nem lembrava mais desse chão.
O cheiro de terra molhada e café coado invadiu minhas narinas, misturado ao odor azedo de mofo vindo da varanda do sítio. O portão rangeu quando empurrei, e por um instante temi que tudo ali desabasse junto com minhas lembranças. O velho me olhava como quem vê um fantasma.
— Voltei, Seu Geraldo. Só vim ver como ficou… depois de tudo.
Ele balançou a cabeça, os olhos cheios de pena e curiosidade. — Sua mãe era boa demais pra esse mundo. E seu pai… — calou-se, mas não precisava terminar. Eu sabia o resto.
O sítio parecia menor, sufocado pelo mato alto e pelo silêncio. A casa, que um dia foi amarela, agora era só parede descascada e telhado torto. Lembrei da última vez que estive ali: eu com dezenove anos, mala nas costas, minha mãe chorando baixinho na cozinha enquanto meu pai gritava palavrões na sala, bêbado de cachaça barata.
— Não volta nunca mais! — ele berrava, cuspindo ódio e mágoa. — Vai embora igual sua irmã! Aqui ninguém precisa de você!
Eu fui. Fui pra Belo Horizonte com a cara e a coragem, lavando banheiro de rodoviária, dormindo em pensão fedorenta, tentando esquecer o cheiro do feijão queimado da minha mãe e o barulho dos copos quebrando nas brigas de domingo.
Agora, vinte anos depois, estava ali de novo. Não sabia se por saudade ou por obrigação. Meu pai tinha morrido fazia três meses — infarto fulminante, disseram. Ninguém achou o corpo por dois dias. Minha mãe já tinha partido antes dele, silenciosa como sempre foi.
Entrei na casa devagar. O piso rangia sob meus pés. Na parede da sala ainda estava o retrato antigo: eu e minha irmã Luciana pequenas, minha mãe sorrindo tímida e meu pai sério, já com os olhos fundos de quem nunca soube ser feliz.
No quarto deles, o cheiro de mofo era mais forte. Sobre a cômoda, uma caixa de sapato cheia de cartas que nunca li. Cartas da minha mãe para mim e para Luciana — cartas que ela nunca teve coragem de enviar.
“Minha filha,
Sei que você foi embora porque não aguentava mais ver seu pai daquele jeito. Eu também não aguentava. Mas não consegui ir junto com você. Me perdoa por ter ficado.”
Li cada linha com as mãos trêmulas. Senti raiva dela por ter sido tão submissa, raiva dele por ter destruído tudo com a bebida, raiva de mim mesma por nunca ter voltado antes.
No fim da tarde, Luciana chegou. Não nos víamos há dez anos. Ela morava em São Paulo agora, casada com um engenheiro que eu só conhecia por foto.
— Você vai vender? — ela perguntou sem rodeios, olhando para o mato alto pela janela.
— Não sei — respondi. — E você?
Ela deu de ombros. — Aqui só tem dor pra mim.
Ficamos em silêncio. O relógio da parede fazia tic-tac como se zombasse da nossa hesitação.
Naquela noite, sentei na varanda com um copo de café preto e ouvi os grilos cantando. Lembrei das noites em que minha mãe me embalava no colo enquanto meu pai gritava lá dentro. Lembrei das vezes em que desejei que ele sumisse do mundo — e agora ele tinha sumido mesmo.
No dia seguinte, Seu Geraldo apareceu cedo com um saco de pão caseiro.
— Ouvi dizer que vocês vão vender o sítio — disse ele, sem cerimônia.
— Ainda não decidimos.
Ele coçou a barba branca. — Esse lugar tem história demais pra acabar assim. Sua mãe ajudou muita gente aqui. Fez sopa pra vizinho doente, costurou enxoval pra menina grávida… Seu pai era ruim quando bebia, mas também já salvou bezerro doente dos outros.
Fiquei calada. Não sabia se queria ouvir aquilo.
Mais tarde, Dona Cida bateu à porta trazendo um bolo de fubá.
— Mariana, sua mãe era um anjo — disse ela, enxugando os olhos com o avental. — Pena que sofreu tanto com aquele homem…
A vizinhança inteira parecia querer me lembrar que minha mãe era boa e meu pai era ruim — mas ninguém falava das vezes em que ela também gritou comigo ou das noites em que ele chorou sozinho no terreiro depois das brigas.
Luciana queria ir embora logo. Brigamos feio na cozinha:
— Você sempre foi a protegida da mamãe! — ela gritou.
— E você sempre fugiu! — retruquei.
— Eu fugi porque ninguém me defendia!
— E eu fiquei porque achei que podia consertar alguma coisa!
Choramos juntas pela primeira vez desde crianças. Depois do choro veio o silêncio pesado.
No terceiro dia, sentei no chão do quarto da minha mãe e abri outra carta:
“Se um dia você voltar aqui, espero que consiga perdoar seu pai. Ele era doente. Eu também errei muito.”
Perdoar? Como se perdoa quem destruiu sua infância? Como se perdoa quem nunca pediu perdão?
Na última noite antes de ir embora, caminhei pelo terreiro descalça. O céu estava cheio de estrelas como nos tempos em que eu sonhava em fugir dali para sempre. Mas agora eu sabia: fugir não apaga nada.
No portão, Seu Geraldo me esperava outra vez:
— Vai embora amanhã?
— Vou.
— Vai voltar?
— Não sei…
Ele sorriu triste:
— A gente nunca deixa de ser daqui, Mariana. Nem quando tenta esquecer.
Entreguei para Luciana metade das cartas da nossa mãe e um retrato antigo das duas meninas sorrindo no terreiro.
Antes de fechar a porta pela última vez, olhei para dentro: vi a sombra dos meus pais dançando na sala ao som de uma música antiga do rádio velho; vi minha mãe costurando à luz fraca; vi meu pai sentado na varanda olhando pro nada; vi duas meninas brincando no quintal sem saber ainda o peso do mundo.
Saí dali sem levar nada além das cartas e uma pedra pequena do jardim — lembrança concreta de que um dia aquele lugar foi meu lar.
No ônibus de volta pra cidade grande, encostei a cabeça no vidro e pensei: será que algum dia a gente consegue mesmo perdoar tudo? Ou só aprende a carregar as dores sem deixar que elas nos afundem?
E você? Já precisou voltar onde tudo doía só pra descobrir se ainda era possível recomeçar?