Entre Olhares e Silêncios: O Segredo do Último Vagão
— Quem é aquela mulher? — sussurrou Mauro, a voz trêmula, quase engolida pelo barulho do trem. — Que mulher? — Zélia nem tirou os olhos do celular, os dedos voando numa mensagem para a amiga. — Aquela ali… no último banco, perto da janela. Ela não para de olhar pra gente. Parece que tá encarando mesmo, sem vergonha nenhuma.
Meu coração disparou. Eu sabia exatamente de quem Mauro falava, mas fingi desinteresse, ajustando a alça da bolsa no ombro. O trem balançava, o cheiro de café velho misturava-se ao perfume barato que vinha do banco de trás. Olhei de relance. Era ela. A mulher que eu não via há mais de vinte anos. A mulher que destruiu minha família.
— Deve ser só curiosidade — murmurei, tentando soar casual, mas minha voz saiu falha. Zélia finalmente levantou os olhos e seguiu o olhar de Mauro.
— Nossa, ela tá mesmo encarando — disse Zélia, franzindo a testa. — Você conhece?
Engoli em seco. O passado veio como uma onda: eu, criança ainda, ouvindo gritos na cozinha; minha mãe chorando baixinho no quarto; meu pai saindo de casa com uma mala pequena e o olhar perdido. Tudo por causa dela. Dona Lúcia.
O trem parou bruscamente em Jundiaí. Alguns passageiros desceram apressados, outros entraram reclamando do calor. Dona Lúcia continuava ali, imóvel, os olhos fixos em mim. Senti um frio na espinha.
— Por que ela tá olhando tanto? — Mauro insistiu, agora mais alto.
— Deixa pra lá, Mauro — rebati, ríspida demais. Ele me olhou assustado. — Desculpa… é que…
Zélia pousou a mão no meu braço.
— Fala logo, Kasia. Quem é essa mulher?
Respirei fundo. Não dava mais pra fugir.
— É a Dona Lúcia… Ela foi amante do nosso pai.
O silêncio caiu pesado entre nós. Zélia arregalou os olhos, o celular escorregando das mãos.
— Você tá brincando? — sussurrou ela.
— Não… Eu vi com meus próprios olhos, anos atrás. Foi por causa dela que papai foi embora.
Mauro ficou pálido.
— Mas… por que ela tá aqui? Depois de tanto tempo?
Eu não sabia responder. O trem voltou a andar e senti as lágrimas ameaçando cair. Lembrei do dia em que encontrei meu pai chorando no quintal, dizendo que amava duas mulheres e não sabia o que fazer. Lembrei da minha mãe definhando aos poucos, até morrer de tristeza.
Zélia apertou minha mão.
— Você nunca contou isso pra ninguém?
Balancei a cabeça.
— Achei que era melhor esquecer…
O trem parou novamente, desta vez em Francisco Morato. Dona Lúcia levantou-se devagar e começou a caminhar pelo corredor, na nossa direção. Meu estômago revirou.
— Ela tá vindo! — sussurrou Mauro, quase se encolhendo no banco.
Dona Lúcia parou ao nosso lado. O tempo não tinha sido gentil com ela: cabelos grisalhos mal pintados, rugas profundas ao redor dos olhos. Mas o olhar… o olhar era o mesmo de antes: firme, decidido.
— Kasia… — disse ela, a voz rouca. — Posso sentar?
Ninguém respondeu. Ela sentou mesmo assim.
— Eu sei que vocês me odeiam — começou ela, encarando cada um de nós. — E têm razão… Eu fiz muita coisa errada nessa vida. Mas eu precisava ver vocês de novo.
Zélia explodiu:
— Pra quê? Pra reabrir ferida velha? Pra jogar na nossa cara tudo o que você fez?
Dona Lúcia baixou os olhos.
— Eu só queria pedir perdão… Eu tô doente. Não tenho muito tempo.
O silêncio foi cortado apenas pelo barulho das rodas do trem nos trilhos. Senti raiva, pena, confusão.
— Perdão não apaga o que você fez com a nossa mãe — falei, a voz embargada.
Ela assentiu.
— Eu sei… Mas eu precisava tentar. Antes de partir.
Mauro olhou para mim e para Zélia, buscando alguma resposta. Eu não tinha nenhuma para dar.
O trem se aproximava da estação Barra Funda. Dona Lúcia levantou-se devagar.
— Se algum dia quiserem conversar… eu moro ali perto da igreja do bairro São Judas. Porta azul…
Ela desceu sem olhar para trás.
Ficamos ali, em silêncio, cada um perdido em seus próprios pensamentos e dores antigas. O trem seguiu viagem, mas dentro de mim tudo parecia parado no tempo.
Zélia chorava baixinho. Mauro olhava pela janela, tentando disfarçar as lágrimas.
Eu só conseguia pensar: será que algum dia a gente consegue perdoar de verdade? Ou certas feridas nunca cicatrizam?