Segunda-feira de Reencontro: O Dia em que Me Perdi para Me Encontrar
— Você vai levantar ou vai ficar aí o dia inteiro? — a voz da minha mãe atravessou a porta do quarto como uma faca. Eu ainda estava deitada, olhos abertos, encarando o teto mofado do nosso apartamento em Osasco. O relógio marcava 6h42. Não era o despertador, nem o barulho dos ônibus lá fora. Era um silêncio estranho dentro de mim, como se alguém tivesse puxado a tomada do motorzinho que sempre me fazia levantar.
Levantei devagar, sentindo o chão gelado sob os pés. Minha mãe já estava na cozinha, mexendo o café com força demais, como se quisesse resolver todos os problemas da vida naquele movimento. Meu pai lia o jornal, fingindo não ouvir as reclamações dela sobre contas atrasadas e o preço do arroz. Minha irmã mais nova, Luiza, já estava pronta para a escola, olhando para mim com aquele olhar de quem espera alguma coisa — talvez um sorriso, talvez só que eu não atrase ainda mais o nosso dia.
— Anda, Kasia, você vai perder o ônibus pro estágio! — minha mãe insistiu, sem nem olhar pra mim.
Meu nome é Kássia, mas desde pequena todo mundo me chama de Kasia. Sempre achei estranho esse apelido meio polonês no meio da nossa família tão brasileira, mas nunca questionei. Naquele dia, porém, tudo parecia estranho: meu nome, minha casa, meu corpo.
No ônibus lotado para a Vila Madalena, encostei a testa no vidro embaçado e tentei não pensar em nada. Mas era impossível. O estágio no escritório de contabilidade não era ruim — pelo menos pagava metade da faculdade — mas eu sentia que estava vivendo a vida de outra pessoa. Todo mundo dizia que eu devia agradecer por ter conseguido aquela vaga. “Quantas meninas do bairro têm essa chance?”, repetia minha mãe. Mas eu só sentia um peso no peito.
No escritório, tudo era cinza: as paredes, as roupas das pessoas, até os sorrisos. Meu chefe, Seu Roberto, era educado mas distante. As colegas conversavam sobre novelas e promoções de supermercado. Eu tentava me encaixar, mas parecia sempre fora do lugar.
Na hora do almoço, sentei sozinha no refeitório e fiquei mexendo no arroz com feijão frio da marmita. Foi quando recebi uma mensagem do meu namorado, Rafael:
— E aí, amor? Tudo bem? Vai passar aqui depois?
Olhei para a tela por alguns segundos antes de responder:
— Não sei. Tô cansada hoje.
Ele respondeu com um emoji de carinha triste e um “Te amo” apressado. Senti culpa por não conseguir retribuir na mesma intensidade. Rafael era bom pra mim — paciente, carinhoso — mas ultimamente até o amor parecia pesado demais.
Quando voltei pra casa à noite, encontrei minha mãe sentada na sala escura. Ela segurava uma conta de luz vencida nas mãos.
— Kasia, você pode adiantar um pouco do dinheiro do estágio esse mês? Seu pai tá enrolado com o serviço e eu não quero ver a luz cortada de novo.
Senti vontade de gritar que eu também estava enrolada — com a faculdade, com o estágio, com a vida. Mas só balancei a cabeça e fui pro quarto. Luiza estava lá, fazendo lição de casa.
— Mana, você pode me ajudar com matemática?
Sentei ao lado dela e tentei explicar frações enquanto minha cabeça girava em círculos: contas, estágio, faculdade, Rafael, minha mãe… Eu queria sumir.
Naquela noite, deitei cedo mas não consegui dormir. Fiquei olhando pro teto e pensando em como tudo tinha ficado tão difícil. Lembrei da época em que eu sonhava em ser artista plástica — antes de todo mundo dizer que isso não dava dinheiro e que eu precisava ser “alguém na vida”. Lembrei dos desenhos escondidos no fundo da gaveta e das cores que pareciam ter sumido do mundo.
No dia seguinte, acordei ainda mais cedo. Fui até a cozinha e encontrei meu pai tomando café sozinho.
— Tá tudo bem, filha?
Quase chorei ali mesmo. Mas engoli o choro e respondi:
— Só tô cansada.
Ele me olhou com uma tristeza silenciosa. Acho que ele sabia exatamente do que eu estava falando.
Na faculdade, sentei no fundo da sala e fiquei desenhando no caderno enquanto o professor falava sobre balanços patrimoniais. Uma colega viu meus rabiscos e comentou:
— Nossa, Kasia! Você desenha muito bem! Por que não faz algo com isso?
Sorri sem graça e desconversei. Mas aquela pergunta ficou martelando na minha cabeça o resto do dia.
Na volta pra casa, passei por uma praça onde um grupo de jovens pintava um mural colorido num muro cinza. Parei pra olhar e senti uma vontade imensa de pegar um pincel e me juntar a eles. Mas fiquei ali parada, imóvel.
Quando cheguei em casa, minha mãe estava brigando com meu pai por causa do dinheiro de novo. Luiza chorava no quarto porque tinha tirado nota baixa na prova. Rafael mandava mensagens perguntando se eu ainda gostava dele.
Sentei na cama e comecei a chorar baixinho, pra ninguém ouvir. Pela primeira vez em muito tempo, deixei as lágrimas caírem sem tentar segurar.
No meio do choro, peguei meus lápis de cor antigos e comecei a desenhar no caderno. Desenhei uma menina presa dentro de uma caixa cinza enquanto tudo ao redor era colorido. Quando terminei, senti um alívio estranho — como se tivesse tirado um peso das costas.
Naquela noite, mostrei o desenho pra Luiza.
— Que lindo! É você?
Pensei em mentir, mas respondi:
— É sim.
Ela sorriu e me abraçou forte.
No dia seguinte, tomei coragem e fui até o grupo da praça depois da faculdade. Perguntei se podia ajudar no mural. Eles me deram um pincel sem hesitar.
Enquanto pintava aquelas cores vivas no muro cinza da cidade, senti algo acender dentro de mim — uma faísca pequena, mas real.
Quando cheguei em casa coberta de tinta colorida, minha mãe olhou surpresa:
— O que aconteceu com você?
Sorri pela primeira vez em semanas:
— Acho que tô tentando me encontrar de novo.
Ela não entendeu muito bem, mas não perguntou mais nada.
Ainda tenho medo do futuro — das contas atrasadas, das expectativas da família, do que vão pensar se eu largar tudo pra seguir meus sonhos. Mas pela primeira vez em muito tempo sinto que estou viva.
Será que todo mundo sente esse vazio às vezes? Ou será que só eu precisei me perder tanto pra começar a me encontrar? E você: já teve coragem de se reinventar mesmo quando tudo parecia impossível?