Dois Anos de Silêncio: Entre o Orgulho e a Saudade de uma Mãe
— Mãe, eu não aguento mais! — foram as últimas palavras que ouvi da Mariana antes de ela bater a porta com tanta força que até o quadro de Nossa Senhora caiu da parede. Isso foi há dois anos. Desde então, o silêncio virou meu companheiro mais fiel.
Hoje, sentada na poltrona gasta da sala, olho para o celular como quem espera um milagre. Nenhuma mensagem, nenhuma ligação. O calendário na parede marca junho, e daqui a três meses faço setenta anos. Setenta! Quem diria que eu chegaria até aqui sentindo esse vazio?
Às vezes penso que mereço esse castigo. Talvez tenha sido dura demais, exigente demais. Mariana sempre foi uma menina sensível, dessas que chorava escondida quando eu levantava a voz. Mas eu só queria o melhor pra ela! Queria que estudasse, que tivesse um bom emprego, que não dependesse de homem nenhum — como eu dependi do seu pai, até ele nos deixar por outra mulher.
A vizinha Wanda, do 302, sempre diz que eu preciso me distrair. “Dona Lúcia, vamos tomar um chá? Fiz bolo de fubá!”. Ela é dessas pessoas que parecem carregar o sol dentro do peito. Tem 68 anos, mora sozinha desde que o marido morreu de câncer há cinco anos. Mesmo assim, vive sorrindo, contando histórias das viagens que fez com o falecido para o interior de Minas.
Outro dia, sentei com ela na cozinha pequena e aconchegante do seu apartamento. O cheiro de café fresco me fez lembrar dos domingos em família, quando Mariana ainda era criança e corria pela casa com os cabelos soltos.
— Dona Lúcia, por que a senhora não liga pra ela? — Wanda perguntou, servindo uma fatia generosa de bolo.
— Já tentei, Wanda. Mandei mensagem no Natal, no aniversário dela… Nem visualizou. Acho que me bloqueou.
Wanda suspirou fundo:
— Filhos são assim mesmo. Às vezes precisam de tempo pra entender a gente.
Mas quanto tempo? Dois anos já se passaram. Será que Mariana pensa em mim? Será que sente saudade? Ou será que realmente me odeia?
Lembro do dia em que tudo desmoronou. Mariana chegou em casa chorando porque tinha sido demitida do estágio. Eu estava cansada do trabalho — faxina pesada em três casas naquele dia — e acabei perdendo a paciência:
— Você precisa ser mais forte! A vida não é fácil pra ninguém!
Ela gritou de volta:
— Você nunca entende! Só sabe cobrar!
E foi assim que ela saiu de casa. No começo achei que era só birra, mas os dias viraram semanas, as semanas viraram meses. Depois soube pela vizinha do prédio antigo que ela foi morar com umas amigas em Pinheiros.
Meu filho mais velho, Rafael, mora em Curitiba com a esposa e os dois filhos pequenos. Liga de vez em quando, mas sempre apressado:
— Mãe, tá tudo bem aí? Precisa de alguma coisa?
Eu respondo que não, mesmo quando preciso. Não quero incomodar.
Às vezes penso em ir até Pinheiros procurar Mariana. Mas tenho medo de ser rejeitada na frente dos outros. Medo de ouvir dela que sou um peso na vida dela.
A solidão pesa mais à noite. O apartamento fica silencioso demais. O rádio velho toca músicas antigas da Jovem Guarda e eu choro baixinho, lembrando dos aniversários da Mariana, das festinhas simples com brigadeiro e guaraná.
Outro dia encontrei uma caixa com cartas antigas dela. Cartas cheias de corações desenhados, promessas de amor eterno à mamãe. Onde foi que tudo se perdeu?
No mercado, encontro Dona Cida, mãe da amiga de infância da Mariana:
— E a Mariana? Faz tempo que não vejo vocês juntas…
Sorrio amarelo:
— Tá trabalhando muito…
Mentira. Nem sei onde ela trabalha agora.
No grupo da igreja, as senhoras comentam sobre os filhos e netos. Sinto inveja da felicidade delas. Tento disfarçar:
— Deus sabe o que faz…
Mas será mesmo?
Uma noite dessas, Wanda bateu à minha porta com um pote de sopa:
— Fiz demais pra mim. Aceita?
Sentamos juntas na varanda olhando as luzes da cidade.
— Dona Lúcia, a senhora já pensou em escrever uma carta pra sua filha? Às vezes é mais fácil colocar no papel…
Passei a noite em claro pensando nisso. Peguei papel e caneta e comecei:
“Minha filha querida,
Sei que errei muito com você…
”
As palavras saíram aos soluços. Pedi perdão por ter sido dura demais, por não ter escutado suas dores. Disse que sinto saudade todos os dias e que daria tudo para ter uma segunda chance.
No dia seguinte fui até o correio e enviei a carta para o endereço antigo dela. Não sei se vai chegar. Não sei se vai ler.
Os dias seguem iguais: café preto pela manhã, novela à noite, conversas com Wanda sobre a vida e a saudade.
Às vezes penso em desistir de esperar. Mas aí lembro do sorriso da Mariana quando era pequena, das noites em claro cuidando dela com febre alta, dos bilhetes carinhosos colados na geladeira.
Será que todo esse amor pode simplesmente acabar?
Outro dia sonhei com ela: Mariana me abraçava forte e dizia “Mãe, me perdoa também”. Acordei chorando feito criança.
No aniversário dela deixei um bolo simples na porta do prédio onde disseram que ela mora agora. Não tive coragem de tocar a campainha.
A vizinha Wanda diz que sou teimosa demais:
— Dona Lúcia, às vezes é preciso dar um passo atrás pra poder avançar depois.
Mas como dar esse passo se o medo paralisa?
Hoje faz exatamente dois anos desde aquele dia fatídico. Sento na varanda olhando o céu cinza de São Paulo e penso: será que Mariana pensa em mim neste momento? Será que um dia vamos nos perdoar?
A vida é feita de escolhas e silêncios. Mas será justo uma mãe passar os últimos anos da vida sem ouvir a voz da filha?
Será que ainda existe tempo para recomeçar? Ou já perdi minha chance para sempre?