O que descobri nele depois de dez anos?
— Você não mudou nada, Mariana — disse a voz rouca do Lucas, enquanto eu ainda tentava controlar o tremor nas mãos. O cheiro de giz e madeira encerada da velha sala de aula me transportou direto para a adolescência, mas o peso no peito era novo. Dez anos. Dez anos desde que saímos correndo daquele portão enferrujado, prometendo nunca esquecer uns aos outros. E agora, quase todos estávamos ali de novo, menos o Davi, que a vida levou para longe, e a Ana Paula, que ficou em casa com o bebê recém-nascido.
Olhei ao redor: rostos conhecidos, mas marcados pelo tempo e pelas escolhas. O cabelo do Rafael já começava a rarear, a Júlia usava óculos grossos e falava baixo, como se ainda tivesse medo de ser notada. Mas foi Lucas quem me tirou o fôlego. Ele estava diferente — mais magro, barba por fazer, um olhar cansado. Mas quando sorriu para mim, senti tudo voltar: o frio na barriga, a raiva, a saudade.
— Você também não mudou — respondi, tentando soar casual. Mas minha voz falhou.
A professora Lourdes entrou na sala com aquele mesmo passo apressado de sempre. — Que bom ver vocês! — exclamou. — Vamos sentar em círculo, igual fazíamos nas rodas de conversa?
Todos riram e obedeceram. O clima era leve, mas eu sentia uma tensão no ar. Talvez fosse só comigo. Ou talvez todos ali tivessem seus próprios fantasmas.
Quando chegou minha vez de falar, hesitei. — Eu… — comecei, olhando para as mãos. — Sinto falta de quando tudo parecia mais simples.
Lucas me encarou. — Mas era mesmo simples? Ou a gente só não sabia das coisas?
A pergunta ficou no ar. Ninguém respondeu.
Depois do lanche — pão com mortadela e suco de caju, igualzinho à merenda de antigamente — fomos para o pátio. O céu estava carregado de nuvens pesadas, típico de interior do Paraná em outubro. Sentei no banco de cimento ao lado da Júlia.
— Você sabia que o Lucas voltou pra cá faz uns meses? — ela cochichou.
— Não fazia ideia.
— Ele se separou da esposa. Parece que tá morando com a mãe de novo.
Meu coração disparou. Não devia importar, mas importava. Lembrei das cartas que escrevi pra ele e nunca tive coragem de entregar. Lembrei da última noite antes da formatura, quando ele me pediu desculpas por algo que nunca explicou.
O reencontro virou festa improvisada na casa do Rafael. Música sertaneja tocando baixo, cerveja gelada e conversa fiada. Mas eu só conseguia pensar em Lucas. Quando ele se aproximou na varanda, meu corpo inteiro ficou em alerta.
— Preciso te falar uma coisa — ele disse, olhando pro chão.
— Pode falar.
— Eu menti pra você naquela noite. Sobre por que terminei com você.
Senti um nó na garganta. — Por quê?
Ele respirou fundo. — Meu pai tinha acabado de ser preso. Eu fiquei com vergonha… achei que você ia me julgar, que todo mundo ia saber.
Fiquei em silêncio por alguns segundos eternos. Lembrei das fofocas na cidadezinha sobre o pai dele envolvido com jogo do bicho e agiotagem. Lembrei do olhar triste da mãe dele na missa de domingo.
— Eu nunca teria te julgado — falei baixo.
Ele balançou a cabeça. — Eu sei disso agora. Mas naquela época… eu só queria sumir.
A dor antiga voltou com força total. Não era só sobre nós dois; era sobre tudo que ficou mal resolvido naquela escola, naquela cidade pequena onde todo mundo sabe da vida de todo mundo.
A festa continuava animada lá dentro, mas nós dois ficamos ali fora, no escuro, ouvindo os grilos e sentindo o cheiro da chuva chegando.
— Você já perdoou seu pai? — perguntei.
Ele demorou para responder. — Não sei se consigo. Ele destruiu muita coisa… inclusive a gente.
Ficamos em silêncio mais um tempo. Eu queria abraçá-lo, dizer que tudo ia ficar bem, mas sabia que não era tão simples assim.
Naquela noite, dormi na casa da Júlia porque não tinha coragem de voltar sozinha para o sítio dos meus pais. Fiquei olhando pro teto, pensando em tudo que Lucas tinha dito. Pensei nos meus próprios segredos: no aborto que fiz escondida aos 19 anos, no medo constante de decepcionar minha mãe religiosa demais e meu pai calado demais.
No café da manhã seguinte, Júlia me olhou com aquele jeito dela de quem sabe das coisas sem precisar perguntar.
— Você ainda gosta dele?
— Não sei — menti.
Ela sorriu triste. — A gente nunca esquece o primeiro amor. Só aprende a conviver com a falta.
Voltei pra casa antes do almoço, mas não consegui tirar Lucas da cabeça. Passei o dia ajudando minha mãe a separar feijão e ouvindo as reclamações do meu pai sobre o preço do adubo. A vida seguia igualzinha à de sempre, mas eu sentia tudo diferente por dentro.
No domingo à tarde, Lucas apareceu no portão do sítio. Meu pai foi quem atendeu primeiro e ficou desconfiado — nunca gostou muito dele desde aquela história do pai preso.
— O que você quer aqui? — perguntou seco.
— Só conversar com a Mariana — respondeu Lucas, firme.
Meu pai bufou e saiu resmungando algo sobre “gente problemática”.
Fui até o portão com as pernas bambas.
— Oi…
— Oi. Desculpa aparecer assim. Eu precisava te ver mais uma vez antes de ir embora pra Curitiba amanhã.
Meu coração afundou no peito.
— Você vai embora?
— Vou tentar recomeçar lá… arrumar um emprego melhor, esquecer um pouco daqui.
Ficamos nos encarando por um tempo que pareceu uma eternidade.
— Eu queria ter feito tudo diferente — ele disse baixinho.
— Eu também…
Ele sorriu triste e me entregou um envelope amassado.
— Achei isso entre minhas coisas quando voltei pra casa da minha mãe. É sua letra?
Peguei o envelope com as mãos trêmulas. Era uma das cartas que escrevi pra ele e nunca entreguei.
— Eu nunca li… mas acho que já sei o que diz aí dentro — ele falou.
Abri o envelope devagar e li em silêncio as palavras cheias de esperança adolescente: “Eu te amo mesmo sabendo que talvez você nunca me ame igual”.
Quando terminei de ler, Lucas já estava indo embora pelo caminho de terra batida. Fiquei ali parada até ele sumir na curva da estrada.
Hoje faz uma semana desde aquele reencontro. Ainda sinto o cheiro da chuva daquela noite e o peso das palavras não ditas entre nós dois. Às vezes penso se teria sido diferente se tivéssemos tido coragem de falar a verdade antes…
Será que algum dia a gente realmente consegue se libertar dos segredos do passado? Ou estamos todos condenados a carregar essas dores pra sempre?