Delicadeza em Meio ao Vazio: Uma Jornada no 302
— Dona, vai descer? — a voz do cobrador me arrancou do transe. O ônibus 302 balançava pelas ruas esburacadas de Belo Horizonte, cortando bairros onde o inverno não traz neve, mas um frio úmido que entra pelos ossos. Eu estava sentada na janela, o rosto quase colado no vidro embaçado, e na mão uma sacola plástica do Supermercado Popular. Dentro dela, um bolo simples chamado “Delicadeza”. O nome parecia piada.
Hoje era meu aniversário de trinta e cinco anos. Ninguém me ligou. Nem minha mãe, que mora a três bairros de distância e só me procura quando precisa de dinheiro para o remédio do coração. Nem meu irmão, que sumiu depois de arrumar uma mulher ciumenta. Nem meus colegas da loja de roupas, onde passo o dia sorrindo para clientes que nem sabem meu nome.
O ônibus estava cheio, mas eu me sentia vazia. Uma senhora cochilava ao meu lado, a cabeça pendendo para o meu ombro de vez em quando. Um menino brincava com um carrinho de plástico no corredor, enquanto a mãe tentava impedir que ele se perdesse entre as pernas dos passageiros. O motorista xingava baixinho cada vez que alguém demorava a descer.
Olhei para o bolo na sacola. Era pequeno, coberto com glacê branco e confeitos coloridos. Comprei porque estava em promoção e porque não queria passar a data em branco. Pensei em acender uma vela sozinha no meu apartamento apertado, cantar parabéns baixinho e comer um pedaço vendo novela. Mas só de imaginar já senti vontade de chorar.
Lembrei do ano passado, quando tentei reunir a família para uma comemoração simples. Minha mãe chegou atrasada, reclamando do trânsito e do preço do gás. Meu irmão apareceu só para pegar dinheiro emprestado. No fim da noite, fiquei lavando a louça sozinha enquanto eles discutiam política na sala. Prometi a mim mesma que não faria mais festa nenhuma.
O ônibus parou bruscamente e quase deixei cair a sacola. — Cuidado aí, moça! — gritou o motorista pelo retrovisor. Senti o rosto esquentar de vergonha, mas ninguém realmente olhou para mim. Ninguém nunca olha.
Desci no ponto perto da minha rua. O céu estava cinza, ameaçando chuva. Caminhei rápido, desviando das poças e dos cachorros soltos. Passei pela padaria onde costumava comprar pão com meu pai antes dele morrer de câncer há dez anos. Ele era o único que lembrava do meu aniversário sem precisar de lembrete.
Subi as escadas do prédio velho, ouvindo o eco dos meus passos no corredor vazio. Abri a porta do apartamento e fui recebida pelo silêncio familiar. A televisão desligada, as plantas murchas na janela, o cheiro de café velho na cozinha.
Coloquei o bolo na mesa e sentei diante dele. Olhei para os confeitos coloridos tentando imaginar uma alegria que não existia ali. Peguei o celular e abri o WhatsApp: nenhuma mensagem nova. Rolei as conversas antigas com minha mãe, cheias de cobranças e respostas secas.
De repente, ouvi batidas na porta. Meu coração disparou — será que alguém lembrou? Abri devagar e dei de cara com Dona Cida, minha vizinha do 402.
— Ô Vi, desculpa incomodar… Você tem um pouco de açúcar pra me emprestar? — perguntou ela, sorrindo sem graça.
Convidei-a para entrar e ofereci um pedaço do bolo. Ela aceitou, sentando-se à mesa comigo.
— Hoje é meu aniversário — falei baixinho, esperando alguma reação.
— Sério? Parabéns, menina! — Ela abriu um sorriso sincero e começou a cantar parabéns sozinha, batendo palmas desafinadas.
Eu ri pela primeira vez no dia. Dona Cida contou histórias da infância dela em Montes Claros, das festas juninas com bolo de fubá e fogueira no quintal. Falou dos filhos que moram longe e das saudades que sente deles.
Quando ela foi embora, fiquei olhando para a porta fechada por alguns minutos. Senti uma mistura estranha de tristeza e gratidão. Talvez eu não tivesse família presente ou amigos íntimos, mas naquele instante percebi que não estava completamente sozinha no mundo.
Peguei um pedaço do bolo e fui até a janela. Lá fora começava a chover devagarinho, lavando as ruas sujas da cidade.
Pensei em tudo que vivi até ali: as perdas, as ausências, os silêncios pesados nas noites frias. Pensei nas pequenas delicadezas que às vezes passam despercebidas — como o sorriso de Dona Cida ou o carinho silencioso do meu pai em lembranças antigas.
Talvez a vida seja isso: encontrar sentido nos detalhes miúdos quando tudo parece vazio.
Será que todo mundo sente esse vazio às vezes? Ou sou só eu tentando achar delicadeza onde só existe solidão?