O marido perfeito. Só não para mim

— Olha lá, Marlene! — cochichou Dona Lourdes, encostada no portão da minha casa, enquanto eu tentava varrer as folhas secas do quintal. — O seu marido podia aprender um pouco com o Cláudio, viu? Olha só como ele trata a Dona Sônia: todo sábado traz flores, lava o carro dela, faz até café da manhã! — Ela apontava com o queixo para o outro lado da rua, onde Cláudio sorria, entregando um buquê de girassóis para a esposa.

Senti o rosto esquentar de vergonha e raiva. — Cada um tem seu jeito, Dona Lourdes — respondi, tentando não demonstrar o incômodo. Mas por dentro, a frase ecoava: “Por que o meu nunca faz nada disso?”.

Meu marido, Paulo, estava dentro de casa, provavelmente assistindo ao jogo do Flamengo e reclamando do juiz. Não era de flores, nem de grandes gestos. Às vezes esquecia até do nosso aniversário de casamento. Mas era ele quem acordava cedo pra pegar ônibus lotado e garantir o arroz e feijão na mesa. Era ele quem me abraçava forte quando eu chorava escondida no banheiro, cansada da rotina e das cobranças.

Mas ninguém via isso. Só enxergavam o que faltava.

Minha mãe também não ajudava. — Marlene, você precisa se valorizar! — dizia ela toda vez que vinha passar uns dias conosco em Duque de Caxias. — Olha a sua prima Lúcia: o marido dela levou pra Gramado no aniversário de casamento! E você aí, só nesse fogão velho… — E suspirava alto, como se eu tivesse fracassado na vida.

Eu tentava sorrir e mudar de assunto, mas aquilo me corroía por dentro. À noite, deitada ao lado do Paulo, ficava pensando se eu era mesmo menos amada. Se ele me visse como alguém comum demais para merecer um gesto especial.

Uma vez criei coragem:
— Paulo, você nunca me trouxe flores…
Ele riu, achando graça:
— Ué, amor… Pra quê? Flor morre rápido! Prefiro te trazer um chocolate ou um pastel na feira.
— Mas toda mulher gosta de flor…
— Você gosta mesmo ou só acha que tem que gostar porque todo mundo fala?

Fiquei sem resposta. Será que eu queria flores mesmo? Ou queria ser vista como alguém digna de flores?

No domingo seguinte, Dona Lourdes voltou à carga:
— Sabe o que eu acho? O Paulo é bom homem, mas acomodado demais! Você devia dar uma sacudida nele. Se não valorizar, outra valoriza!

Fiquei remoendo aquilo o dia inteiro. Quando fui buscar minha filha na escola na segunda-feira, ouvi as mães conversando sobre viagens, presentes caros e jantares românticos. Me senti pequena. Cheguei em casa e explodi:
— Paulo, por que você não é igual aos outros maridos? Nunca faz surpresa nenhuma! Nunca pensa em mim!
Ele largou o prato na pia e me olhou assustado:
— Que foi agora? Eu faço tudo por essa casa! Trabalho igual burro de carga! Você acha que é fácil?
— Não é isso… Eu só queria sentir que você se importa…
Ele saiu batendo porta. Fiquei sozinha na cozinha, sentindo uma mistura de culpa e vazio.

Naquela noite não dormi. Fiquei pensando em tudo que tínhamos passado juntos: as dificuldades quando ele ficou desempregado; quando perdemos nosso primeiro filho; quando minha mãe ficou doente e ele cuidou dela como se fosse a própria mãe. Lembrei do dia em que ele vendeu a bicicleta pra pagar meu curso técnico. Lembrei dos domingos em família na laje, do sorriso dele quando nossa filha nasceu.

Mas também lembrei das vezes em que desejei outro tipo de amor: mais leveza, mais poesia, menos boletos e preocupações.

No dia seguinte, Paulo chegou mais cedo do trabalho. Trouxe um pão doce da padaria.
— Trouxe pra você — disse sem jeito.
Eu sorri amarelo.
— Obrigada…
Ele sentou ao meu lado na mesa.
— Marlene… Eu não sou bom nessas coisas de romantismo. Mas eu te amo do meu jeito. Se quiser conversar, eu tento melhorar…
Meus olhos encheram d’água.
— Eu sei… Desculpa também.

Na semana seguinte, Dona Lourdes veio fofocar:
— Você viu? O Cláudio traiu a Dona Sônia com a moça da farmácia! Ela tá arrasada…
Fiquei em choque.
— Sério?
— Sério! E olha que era aquele marido perfeito…

Naquele momento percebi: ninguém sabe o que acontece dentro da casa dos outros. O que parece perfeito pode ser só fachada.

À noite, sentei ao lado do Paulo no sofá. Ele me puxou pra perto e colocou minha cabeça no ombro dele.
— Tá tudo bem?
— Tá sim… — respondi sincera pela primeira vez em muito tempo.

Minha filha entrou correndo na sala:
— Mãe! Pai! Vamos brincar de Uno?
Rimos juntos. Pela primeira vez em meses senti paz.

Agora entendo: talvez o marido perfeito não exista. Ou talvez exista só nos olhos de quem vê de fora. O amor real é feito de pequenos gestos diários — nem sempre bonitos ou dignos de foto no Instagram — mas verdadeiros.

E você? Já se sentiu pressionada a ter uma vida perfeita só porque os outros cobram? Será que felicidade é mesmo aquilo que parece ou está nos detalhes invisíveis aos olhos?