Espere por mim!
— Espera por mim, Dona Mariana! — A voz de Ana Clara cortou o silêncio do corredor, quase vazio depois do sinal. Eu já estava com a mão na maçaneta da sala dos professores, pronta para me refugiar por cinco minutos antes da próxima aula. Mas aquele pedido, quase um grito, me fez parar.
Virei devagar, tentando esconder o cansaço no rosto. Ana Clara vinha correndo, a mochila pendurada num ombro só, os olhos arregalados de ansiedade. Ela era uma das minhas alunas do oitavo ano, dessas que carregam o mundo nas costas e ainda assim sorriem quando conseguem.
— O que foi, Ana? — perguntei, tentando soar paciente, mesmo com a cabeça latejando de preocupação. Minha mãe estava internada no hospital público do bairro desde ontem à noite, e eu não conseguia pensar em outra coisa.
Ana hesitou, olhando para os próprios tênis gastos. — A senhora pode me ajudar com o trabalho de história? Eu não consegui fazer em casa… — A voz dela sumiu no fim da frase.
Suspirei fundo. Queria dizer que não podia, que precisava correr para o hospital assim que o último aluno saísse. Mas vi o medo nos olhos dela, o mesmo medo que eu sentia quando era criança e minha mãe demorava para voltar do trabalho.
— Claro, Ana. Senta aqui comigo — falei, apontando para um banco encostado na parede.
Enquanto ela tirava os cadernos da mochila, meu celular vibrou no bolso. Era uma mensagem do meu irmão: “Mãe piorou. Vem logo.” O chão pareceu sumir sob meus pés. Mas Ana já estava sentada ao meu lado, esperando por mim como se eu fosse a última esperança dela naquele dia.
— Dona Mariana… — Ela começou, mas parou ao ver minha expressão. — Tá tudo bem?
Sorri com esforço. — Tá sim, Ana. Só um pouco cansada. Vamos ver esse trabalho?
Enquanto explicava sobre a República Velha e os coronéis do café, minha cabeça viajava para o leito do hospital, para o cheiro de éter e os gemidos abafados dos outros pacientes. Lembrei de quando minha mãe me ensinava a ler à luz de vela porque a energia tinha sido cortada. Lembrei das vezes em que ela deixou de comer para que eu e meu irmão tivéssemos arroz e feijão no prato.
— Dona Mariana? — Ana me chamou de novo, apontando para uma dúvida no texto.
Me forcei a voltar ao presente. Expliquei com calma, mas sentia as lágrimas querendo escapar. Por que a vida era tão dura para algumas pessoas? Por que eu nunca conseguia estar onde mais precisava?
Quando terminamos o trabalho, Ana me abraçou de repente. — Obrigada, professora. Se não fosse a senhora…
Não deixou a frase terminar. Saiu correndo pelo corredor, misturando-se aos poucos alunos que ainda restavam na escola.
Fiquei ali sentada por alguns segundos, tentando recuperar o fôlego. Peguei o celular e respondi ao meu irmão: “Tô indo.” Saí da escola apressada, atravessando as ruas cheias de buracos do bairro Jardim das Palmeiras. O ônibus demorou quase meia hora para passar; sentei perto da janela e fiquei olhando as casas simples, as crianças brincando descalças na calçada.
No hospital, encontrei meu irmão Rafael sentado no corredor, com cara de quem não dormia há dias.
— E aí? — perguntei baixinho.
Ele balançou a cabeça. — Os médicos dizem que é grave. Pneumonia forte. Ela tá perguntando de você.
Entrei no quarto devagar. Minha mãe estava tão pequena na cama que quase não reconheci. Os olhos dela brilharam quando me viu.
— Mariana… minha filha… — A voz dela era só um sussurro.
Segurei sua mão fria entre as minhas. — Tô aqui, mãe. Fica tranquila.
Ela sorriu de leve. — Você sempre cuidou de todo mundo… até dos filhos dos outros…
Engoli o choro. — Eu faço o que posso.
Ela fechou os olhos por um instante e depois murmurou: — Não se esquece de cuidar de você também…
Fiquei ali até ela adormecer de novo. Saí do quarto com o peito apertado. Rafael me olhou com preocupação.
— Você não pode continuar assim, Mari. Trabalhando em duas escolas, cuidando da mãe… E o Pedro? Ele sente sua falta.
Pedro era meu filho de oito anos. Desde que me separei do pai dele, ele ficava mais tempo com a avó do que comigo.
— Eu sei — respondi baixinho. — Mas como eu faço? Se eu largar um emprego, não pago as contas. Se fico em casa, não cuido da mãe…
Rafael suspirou. — Eu posso ajudar mais. Fica com Pedro essa semana. Eu fico aqui no hospital.
Agradeci com um abraço apertado. No caminho pra casa, pensei em tudo que tinha deixado pra trás: meus sonhos de estudar fora, de ser escritora, de viajar pelo Brasil inteiro. Agora minha vida era dividir tempo entre escola pública lotada e hospital público lotado.
Cheguei em casa tarde da noite. Pedro já dormia no sofá da sala pequena, abraçado ao cachorro velho da família. Sentei ao lado dele e passei a mão em seus cabelos macios.
No dia seguinte acordei cedo, preparei café preto forte e pão com margarina pra mim e pro Pedro. Ele me olhou com aqueles olhos grandes e perguntou:
— Mãe, você vai ficar comigo hoje?
Meu coração apertou de novo. — Vou sim, filho. Hoje é só nosso.
Passamos o dia juntos: fomos ao parque da praça central (mesmo com os brinquedos quebrados), tomamos sorvete na padaria da Dona Cida e rimos das histórias antigas da família.
À noite recebi uma mensagem do hospital: minha mãe estava estável, mas ainda precisava de cuidados intensivos.
Sentei na varanda com Pedro no colo e olhei pro céu escuro sem estrelas.
Pensei em Ana Clara e nos outros alunos que dependiam de mim para aprender algo além dos livros; pensei na minha mãe e em tudo que ela sacrificou; pensei em mim mesma e nos sonhos adiados.
Será que algum dia vou conseguir equilibrar tudo isso? Será que vale a pena abrir mão dos próprios sonhos para cuidar dos outros?
E vocês? Já sentiram esse peso nas costas? Como fazem para seguir em frente quando tudo parece demais?