Quando Meus Netos Vão Embora, Sinto Alívio — O Desabafo de Dona Lurdes
— Mãe, a senhora pode ficar com as crianças hoje de novo? — a voz da minha filha, Camila, ecoou pelo telefone antes mesmo do sol nascer. Eu ainda estava deitada, sentindo as dores nas costas que me acompanham desde que completei sessenta e oito anos. Olhei para o teto do meu quarto, aquele teto manchado de infiltração, e pensei: será que algum dia alguém vai perguntar se eu quero?
Levantei devagar, coloquei o café no fogo e tentei me convencer de que era só mais um dia. Mas não era. Era mais um dia em que eu deixaria de lado meus planos — a novela das seis, o crochê que nunca termino, a caminhada na praça — para cuidar dos meus três netos: Lucas, de seis anos, Manuela, de quatro, e o pequeno Pedro, de apenas dois.
Quando Camila chegou com as crianças, mal me olhou nos olhos. Estava apressada, como sempre. — Mãe, obrigada mesmo. Não sei o que faria sem a senhora. — Ela me deu um beijo rápido na testa e saiu quase correndo. Fiquei ali parada na porta, com Pedro já puxando minha saia e Manuela pedindo mingau.
O dia passou arrastado. Lucas brigou com Manuela por causa do tablet. Pedro fez xixi no sofá. O telefone tocou duas vezes: era minha irmã, perguntando se eu ia ao aniversário dela no sábado. Respondi que não sabia — Camila talvez precisasse de mim.
No almoço, enquanto as crianças gritavam e derrubavam arroz no chão, senti uma vontade enorme de chorar. Mas engoli o choro. Avó não chora na frente dos netos. Avó é forte. Avó aguenta tudo.
Depois do almoço, enquanto Pedro dormia no meu colo e os outros dois assistiam desenho, lembrei do tempo em que eu era só Lurdes. Antes de ser mãe, antes de ser avó. Eu sonhava em viajar para o interior de Minas, conhecer as cachoeiras que via nas revistas. Sonhava em fazer aulas de dança na terceira idade. Sonhava em ter tempo para mim.
Mas a vida foi passando e os sonhos foram ficando para depois. Primeiro vieram os filhos — Camila e Rodrigo — e toda a luta para criá-los sozinha depois que meu marido foi embora com outra mulher. Depois vieram os netos e a responsabilidade aumentou ainda mais.
Às vezes sinto raiva da Camila. Sei que ela trabalha muito, sei que a vida dela não é fácil. Mas será que ela não percebe que eu também estou cansada? Que eu também tenho direito de dizer não?
No fim da tarde, quando Camila voltou para buscar as crianças, já estava escuro lá fora. Ela entrou apressada, pegou as mochilas e agradeceu mais uma vez:
— Mãe, desculpa mesmo te incomodar tanto. Mas é só até eu conseguir um emprego melhor…
Quis dizer pra ela que não era só incômodo. Que era exaustão. Que eu sentia falta de mim mesma. Mas só sorri e disse:
— Vai com Deus, filha.
Quando a porta se fechou e o silêncio tomou conta da casa, sentei no sofá e chorei baixinho. Chorei pelo cansaço físico, pelas dores nas costas, pelo arroz grudado no chão da cozinha. Mas chorei principalmente pela solidão de não ser vista como pessoa — só como avó.
No grupo das amigas do bairro, todas reclamam das mesmas coisas:
— Minha nora acha que sou babá! — diz Dona Tereza.
— Meu filho acha que aposentadoria é sinônimo de tempo livre! — reclama Dona Sônia.
Mas ninguém tem coragem de dizer não. Porque fomos criadas para servir, para cuidar dos outros antes de cuidar da gente mesma.
No domingo seguinte, Rodrigo veio me visitar com a esposa dele. Trouxeram bolo e refrigerante. Sentamos na varanda e conversamos sobre política, sobre o preço do gás, sobre a violência no bairro.
— Mãe, a senhora tá bem? — ele perguntou de repente.
Quase respondi que sim por costume. Mas alguma coisa dentro de mim mudou naquele instante.
— Não tô muito bem não, filho — confessei baixinho. — Tô cansada…
Rodrigo ficou em silêncio por alguns segundos.
— A senhora já falou isso pra Camila?
Balancei a cabeça negativamente.
— Ela precisa saber, mãe. A senhora não é obrigada a dar conta de tudo sozinha.
Naquela noite dormi pensando nas palavras dele. Será que eu tinha coragem de falar?
Na segunda-feira seguinte, quando Camila ligou pedindo pra eu ficar com as crianças porque tinha uma reunião importante no trabalho novo, respirei fundo antes de responder:
— Filha… hoje não vai dar pra ficar com eles.
Silêncio do outro lado da linha.
— Mas mãe… eu realmente preciso…
— Eu sei, filha. Mas hoje eu preciso cuidar de mim um pouco também.
Camila ficou magoada. Ouvi pela voz dela. Mas desliguei sentindo um alívio enorme — como se tivesse tirado um peso das costas.
Naquele dia fui à praça. Sentei num banco e fiquei olhando as árvores balançando ao vento. Senti o cheiro do pão fresco vindo da padaria da esquina e lembrei da minha infância em Belo Horizonte.
Pela primeira vez em muitos anos, senti paz.
Sei que muita gente vai me julgar por isso. Vão dizer que avó tem que ajudar mesmo, que família é pra isso. Mas será justo sacrificar minha saúde física e mental pelo bem-estar dos outros? Será justo esquecer quem eu sou?
Quando meus netos vão embora e a casa volta ao silêncio, sinto alívio sim — mas também sinto culpa por sentir esse alívio.
Será que outras avós também se sentem assim? Será que algum dia vamos aprender a dizer não sem medo de sermos chamadas de egoístas?