O Dia em que Meu Mundo Desabou

— Mariana! Por que você não levantou? Já são nove e meia! — a voz da minha mãe ecoou pelo pequeno apartamento, misturando raiva e desespero.

Abri os olhos assustada, o suor frio escorrendo pela testa. O ventilador fazia um barulho cansado, girando devagar, e o calor abafado de São Paulo invadia pela janela quebrada. Sentei na cama procurando meu celular. Morto. Nem sinal de bateria. O carregador pendurado na tomada já estava quebrado há semanas, mas nunca sobrava dinheiro pra comprar outro.

Levantei num pulo, tropeçando nos chinelos do meu irmãozinho, Lucas, que dormia no colchão ao lado da porta. Minha mãe continuava gritando:

— Você vai perder o emprego! Não entende que precisamos desse dinheiro?

Me vesti às pressas, sem tempo nem de lavar o rosto. Desci as escadas do prédio correndo, desviando da Dona Cida, a vizinha fofoqueira que sempre cheirava a café queimado.

— De novo atrasada, Marianinha? — ela disse com aquele sorriso falso que me dava náuseas.

Nem respondi. Lá fora, o sol já castigava. Corri até o ponto de ônibus, mas era tarde demais. O ônibus azul que me levava ao centro já tinha passado. Fiz as contas rápido: se pegasse um Uber, não sobraria pra comer hoje. Se fosse a pé, chegaria uma hora atrasada. Decidi caminhar.

No caminho, entre barracas de frutas e gritos dos ambulantes, senti a angústia apertar o peito. Meu emprego na papelaria era tudo que mantinha minha família desde que meu pai foi embora com outra mulher há dois anos. Minha mãe não podia trabalhar por causa da artrose nas pernas e Lucas só tinha dez anos.

Quando cheguei na papelaria, Seu Ernesto me esperava na porta com cara fechada.

— Mariana, terceira vez esse mês. Se não conseguir chegar cedo, vou ter que arrumar outra pessoa.

— Por favor, Seu Ernesto, não me manda embora. Faltou luz lá em casa e…

— Não quero saber de desculpa. Hoje você fica sem pagamento.

Senti as lágrimas queimarem nos olhos, mas engoli o choro e fui trabalhar. Passei o dia inteiro atendendo clientes com um sorriso falso, enquanto por dentro eu só queria sumir.

Na volta pra casa, andei devagar. No caminho, vi meu pai do outro lado da rua. Ele andava de mãos dadas com uma mulher mais nova e um menininho. Me escondi atrás de uma barraca de pastel pra ele não me ver. Senti raiva e tristeza ao mesmo tempo. Como ele podia ter outra família enquanto a gente mal sobrevivia?

Cheguei em casa e encontrei minha mãe chorando na mesa.

— O que aconteceu? — perguntei, já esperando o pior.

— O dono do apartamento veio aqui. Disse que se não pagarmos amanhã vamos ser despejados.

Sentei ao lado dela e abracei forte. Lucas nos olhava do canto da sala, abraçado ao caderno de desenhos.

— Não chora, mãe — falei baixinho — A gente vai dar um jeito.

Quase não dormi naquela noite. Pensei em pedir ajuda pra tia Lúcia, mas ela sempre dizia que já tinha problemas demais. Pensei em procurar outro emprego, mas quem ia contratar uma menina sem diploma?

No dia seguinte saí cedo batendo de porta em porta nos mercadinhos do bairro. Ninguém precisava de ajuda ou pagavam tão pouco que nem valia a pena. Voltei pra casa no meio do dia e encontrei minha mãe discutindo com meu pai na porta.

— Você não tem direito de aparecer aqui! — ela gritava — Você abandonou a gente!

— Só vim pegar minhas coisas — ele respondeu sem nem olhar pra mim.

Não aguentei mais:

— Por que você faz isso com a gente? Por que tem outra família e deixa a gente assim?

Meu pai me olhou pela primeira vez em meses. Vi um lampejo de culpa nos olhos dele, mas foi só por um segundo.

— A vida é difícil pra todo mundo, Mariana — disse antes de ir embora.

Minha mãe desabou no chão e corri pra ajudá-la. Lucas chorava baixinho no canto.

Naquela tarde tomei uma decisão desesperada: venderia meu celular pra pagar parte do aluguel. Não era muito dinheiro, mas ganharia uns dias a mais.

Fui até a feira e vendi por menos da metade do valor. Na volta vi Lucas sentado na calçada desenhando casas grandes e famílias felizes.

— Por que você desenha isso? — perguntei.

— Porque um dia a gente vai ter uma casa assim — ele respondeu com aquele sorriso inocente que me partia o coração.

Naquela noite jantamos feijão com arroz requentado e pão duro. Minha mãe quase não falou nada. Eu também não tinha forças pra dizer nada.

Os dias foram passando e a esperança parecia cada vez mais distante. Numa sexta-feira à tarde, Seu Ernesto me chamou no canto depois do expediente.

— Sei que você tá passando aperto em casa — ele disse — Minha irmã tá precisando de uma moça pra ajudar lá na casa dela. Não paga muito, mas tem comida e lugar pra dormir.

Pensei na minha mãe e no Lucas. Sair de casa pra trabalhar como empregada? Abandonar eles como meu pai fez?

Contei pra minha mãe naquela noite:

— Mãe, Seu Ernesto disse que posso ir morar com a irmã dele pra trabalhar lá…

Ela me olhou com lágrimas nos olhos:

— Não quero te perder também… Mas se for o melhor pra você…

Lucas se agarrou na minha cintura:

— Não vai embora, Mariana…

Choramos os três abraçados até dormir.

No dia seguinte arrumei minhas poucas roupas numa sacola velha e fui me despedir dos vizinhos do prédio. Todo mundo desejou sorte, menos meu pai, que nunca mais apareceu.

A casa da irmã do Seu Ernesto era grande e limpa no bairro nobre da cidade. Dormia num quartinho apertado ao lado da lavanderia e passava o dia limpando e cozinhando pra uma família que mal olhava na minha cara. Mas toda noite ligava pra minha mãe do orelhão da esquina e mandava o pouco dinheiro que sobrava pra eles não serem despejados.

Às vezes me perguntava se algum dia ia poder estudar ou ter uma vida diferente. Se algum dia ia voltar pra casa sem sentir culpa por ter deixado eles sozinhos.

Hoje faz três anos desde aquele dia em que tudo mudou. Minha mãe continua doente mas estável; Lucas já está no ensino médio graças ao dinheiro que mando todo mês. Eu continuo trabalhando longe deles, sonhando com um futuro melhor.

Às vezes me pergunto: quantas Marianas existem por aí lutando pra sobreviver? Quantas filhas precisam escolher entre seus sonhos e a família? E você: o que faria se estivesse no meu lugar?