Felicidade à Beira do Abismo

— Você puxou ao seu pai, Mariana. Ele era bonito, só podia ser por isso que me apaixonei. — A voz da minha mãe ecoava atrás da porta do banheiro, enquanto eu encarava meu reflexo no espelho.

Meu rosto sempre foi motivo de análise: traços longos, nariz grande e arrebitado, boca fina, olhos frios, cinzentos. Só meus cabelos me davam algum orgulho — negros, grossos, uma franja longa que quase cobria os olhos. Cresci ouvindo comentários sobre minha aparência. “É feia, mas é inteligente”, diziam as tias no almoço de domingo. “Se estudar bastante, arruma um bom emprego e não precisa se preocupar com marido”, completavam, como se fosse consolo.

Na escola, as coisas não eram diferentes. As meninas riam do meu jeito calado, dos meus sapatos gastos, das roupas herdadas da prima mais velha. Os meninos me ignoravam ou faziam piada. Eu fingia não ligar, mas cada palavra grudava em mim como chiclete no asfalto quente de Belo Horizonte.

Minha mãe, Dona Lúcia, era dura comigo. “Você precisa ser forte, Mariana. O mundo não é fácil pra quem não nasceu bonita.” Ela mesma nunca foi de muitos carinhos. Meu pai morreu quando eu tinha sete anos — acidente de ônibus na BR-381 — e desde então ela carregava o peso da casa sozinha, trabalhando como costureira até tarde da noite.

Eu ajudava como podia: lavava roupa, cuidava do meu irmão caçula, Lucas, e estudava à luz fraca da cozinha. Meu sonho era passar no vestibular de medicina na UFMG. Queria salvar vidas, queria ser alguém importante. Talvez assim as pessoas me enxergassem além do que viam no espelho.

Mas a vida não facilita pra quem já começa atrás na corrida. No terceiro ano do ensino médio, Lucas se envolveu com uma turma errada. Começou a faltar na escola, chegou em casa com dinheiro que não sabia explicar. Uma noite, ouvi minha mãe chorando baixinho no quarto. Fui até lá e a encontrei sentada na cama, com a cabeça entre as mãos.

— Ele tá se perdendo, Mariana… Eu não sei mais o que fazer.

Sentei ao lado dela e abracei forte. Pela primeira vez em anos, senti sua mão afagando meus cabelos.

— A gente vai dar um jeito, mãe. Eu prometo.

No dia seguinte, fui atrás do Lucas na praça do bairro. Encontrei ele com uns moleques mais velhos, rindo alto e fumando cigarro barato.

— Lucas! — chamei firme.

Ele olhou pra mim com desprezo.

— O que foi? Vai dedurar pra mamãe?

— Vem pra casa agora.

Os outros riram. Um deles, com tatuagem no pescoço, se aproximou:

— Deixa o moleque em paz, irmãzinha.

Senti o medo gelar minha espinha, mas não recuei.

— Ele tem família. Não vai estragar a vida dele por causa de vocês.

Lucas bufou e saiu andando comigo. No caminho, ficou em silêncio. Quando chegamos em casa, ele entrou direto pro quarto e bateu a porta.

Naquela noite, escrevi uma carta pra ele. Falei do pai, da mãe cansada, dos meus próprios medos. Deixei embaixo da porta do quarto dele. Não sei se leu. Mas dias depois, vi que tinha parado de sair com aquela turma.

O vestibular chegou e eu tremia de nervoso. Fiz a prova pensando em tudo que já tinha ouvido: que eu não era suficiente, que não ia conseguir. Mas também pensei na minha mãe e no Lucas. Pensei em mim mesma criança, sonhando alto apesar de tudo.

Quando saiu o resultado, corri pra lan house do bairro porque em casa não tinha internet. Meu nome estava lá: Mariana Alves da Silva — aprovada em medicina na UFMG.

Voltei pra casa correndo, lágrimas escorrendo pelo rosto. Minha mãe me abraçou forte pela primeira vez desde que eu era pequena.

— Você conseguiu… Minha filha conseguiu!

Lucas sorriu tímido no canto da sala.

A faculdade foi outro mundo: gente rica, gente bonita, gente que nunca soube o que é dividir um pão francês entre três irmãos. No começo me senti invisível de novo. Mas aos poucos fui encontrando meu lugar — estudando dobrado, ajudando colegas nas matérias difíceis.

No terceiro ano da faculdade conheci Rafael. Ele era diferente dos outros: prestativo, engraçado, olhava nos meus olhos quando conversava comigo. Um dia me chamou pra sair depois da aula.

— Mariana, você já percebeu como seu sorriso ilumina o corredor?

Ri sem acreditar.

— Você tá brincando comigo?

— Tô falando sério! Você devia sorrir mais.

Fiquei vermelha feito tomate maduro. Pela primeira vez alguém via beleza em mim além dos cabelos.

Começamos a namorar e minha autoestima foi crescendo aos poucos. Mas nem tudo era perfeito: minha mãe adoeceu de repente — câncer no pulmão. Passei noites no hospital ao lado dela, segurando sua mão magra.

— Não deixa o Lucas se perder de novo… — pediu num sussurro.

Prometi que cuidaria dele. Ela morreu numa manhã fria de junho. O enterro foi simples; poucos parentes vieram. Senti um vazio imenso dentro de mim.

Lucas quase desistiu de tudo depois disso: largou o emprego de entregador e passou dias trancado no quarto. Rafael me ajudou a convencê-lo a procurar terapia gratuita no posto de saúde do bairro.

Aos poucos fomos nos reerguendo juntos: eu na faculdade, Lucas tentando retomar a vida. Rafael virou parte da família — ajudava nas contas quando apertava, fazia almoço de domingo pra animar a casa.

Hoje sou médica num posto de saúde na periferia de BH. Atendo gente que carrega as mesmas marcas que eu: rejeição, luta diária pela sobrevivência, sonhos sufocados pela realidade dura do Brasil.

Às vezes olho no espelho e ainda vejo aquela menina insegura de antes. Mas agora também vejo força nos olhos cinzentos e orgulho nos cabelos negros.

Será que um dia a gente aprende a se amar de verdade? Ou será que a felicidade é mesmo só um instante fugaz entre tantas batalhas?