Atrás das Paredes: O Barulho Que Ninguém Vê
— Você não vai fazer nada, mãe? — gritou minha filha Camila da porta do meu quarto, enquanto o som ensurdecedor do funk atravessava as paredes finas do nosso apartamento no Tatuapé. Era quase meia-noite de uma terça-feira. Eu estava sentada na cama, mãos trêmulas, tentando decidir se ligava para o síndico ou se apenas chorava em silêncio mais uma vez.
— O que você quer que eu faça, Camila? — respondi, sentindo a voz falhar. — Já reclamei no grupo do prédio, já pedi pro seu pai falar com eles… Ninguém liga. Parece que sou invisível.
Ela bufou, revirando os olhos. — Invisível não, mãe. Só… cansada. Você sempre foi forte. Agora parece que desistiu.
Aquelas palavras me cortaram mais fundo que qualquer pancada de grave vindo do 604. Eu, Rosana, sempre fui a mulher que resolvia tudo. Criei dois filhos sozinha depois que o Paulo foi embora com a secretária dele. Trabalhei em dois empregos, enfrentei fila de SUS, greve de ônibus, enchente na Marginal. Mas agora… agora eu era só uma mulher de 54 anos, sozinha num apartamento barulhento.
O barulho aumentou ainda mais. Era como se os meninos do 604 soubessem exatamente quando eu estava prestes a dormir. O chão vibrava, os quadros na parede tremiam. Senti uma raiva surda crescer dentro de mim.
Levantei da cama e fui até a sala. Camila estava sentada no sofá, fones no ouvido, tentando ignorar tudo. Meu filho mais velho, Rafael, nem mora mais aqui — fugiu para Curitiba assim que conseguiu um estágio decente. Diz que não aguenta São Paulo, que aqui ninguém respeita ninguém.
Peguei o telefone e disquei para o síndico.
— Alô? Seu Cláudio? Aqui é a Rosana do 603. Olha, desculpa ligar essa hora de novo, mas não dá mais! O barulho tá insuportável! — minha voz saiu mais alta do que eu queria.
Do outro lado, silêncio. Depois um suspiro cansado.
— Dona Rosana… já falei com eles hoje. Eles dizem que vão abaixar. Não posso fazer mais nada agora. Amanhã converso de novo.
Desliguei sem responder. Senti vontade de jogar o telefone na parede.
Camila tirou os fones e me olhou com pena.
— Mãe… vem cá — ela abriu os braços e eu sentei ao lado dela. Pela primeira vez em meses, chorei na frente da minha filha.
— Eu não aguento mais, filha. Não durmo direito há semanas. No trabalho vivo errando relatório. Minha pressão subiu de novo… E ninguém faz nada! Parece que só eu me importo!
Ela me abraçou forte.
— Eu sei, mãe… Mas você também precisa cuidar de você. Não pode carregar tudo sozinha.
Na manhã seguinte, acordei com dor de cabeça e olheiras profundas. No elevador, encontrei Dona Lurdes do 602.
— Dormiu bem? — ela perguntou com aquele sorriso amarelo.
— Dormir? Só se for com protetor auricular e reza brava — tentei brincar.
Ela riu sem graça.
— Esses meninos de hoje não têm respeito… Mas sabe como é, né? A mãe deles trabalha à noite, eles ficam soltos…
Fiquei pensando nisso o dia inteiro no escritório da contabilidade onde trabalho há vinte anos. Será que eu estava sendo dura demais? Será que era só uma fase? Mas e meu direito ao descanso?
Naquela noite, decidi tentar algo diferente. Bati na porta do 604 com o coração acelerado. Um garoto magro abriu a porta — devia ter uns 18 anos.
— Oi… sou a Rosana do 603. Desculpa incomodar, mas vocês podiam abaixar um pouco o som? Eu acordo cedo pra trabalhar…
Ele me olhou como se eu fosse um fantasma.
— Foi mal, tia… A gente já vai desligar — respondeu sem olhar nos meus olhos.
Voltei para casa sentindo-me derrotada e velha. Camila me esperava na cozinha.
— E aí?
— Disseram que iam desligar… Vamos ver.
Naquela noite o barulho diminuiu um pouco, mas não sumiu. No dia seguinte voltou tudo igual ou pior: risadas altas, gritos no corredor, música até duas da manhã.
Comecei a perder a paciência com tudo e todos. No trabalho, briguei com a colega porque ela esqueceu de passar um recado. Em casa, gritei com Camila porque ela deixou louça na pia. Até Rafael percebeu quando ligou no domingo:
— Mãe, você tá diferente… Tá tudo bem?
— Tá sim — menti.
Mas não estava. O barulho virou parte da minha vida como uma doença crônica: não mata, mas corrói por dentro.
Um sábado à noite, depois de mais uma discussão inútil no grupo do WhatsApp do prédio (“Se incomoda tanto, muda pra casa!”, “Jovem tem que se divertir!”, “Antigamente era pior!”), sentei sozinha na varanda olhando as luzes da cidade e chorei baixinho para ninguém ouvir.
No domingo seguinte fui visitar minha mãe em Guarulhos. Lá era silêncio: só o canto dos passarinhos e o barulho distante da TV velha dela.
— Você tá abatida, filha — disse ela enquanto servia café com bolo de fubá.
— É o barulho lá em casa… Não aguento mais.
Ela segurou minha mão enrugada nas dela ainda mais enrugadas.
— Sabe o que eu fazia quando seus irmãos faziam bagunça? Rezava pra ter paciência… E batia panela também! — riu alto.
Eu ri junto pela primeira vez em meses.
Na volta pra casa decidi tentar conversar com a mãe dos meninos do 604. Esperei ela chegar do trabalho à noite e bati na porta dela.
— Dona Márcia? Desculpa incomodar… Eu queria conversar sobre o barulho dos meninos…
Ela me olhou cansada, uniforme do hospital ainda no corpo.
— Ai dona Rosana… Eu sei… Já falei mil vezes… Mas eu saio pra trabalhar e eles fazem o que querem… Não sei mais o que fazer…
Vi nos olhos dela a mesma exaustão que sentia em mim mesma. Duas mulheres cansadas tentando sobreviver numa cidade que não perdoa fraqueza.
Naquela noite escrevi uma carta para os meninos do 604:
“Queridos vizinhos,
Eu sei que vocês querem se divertir e têm todo direito de serem felizes. Mas eu também preciso dormir pra trabalhar e cuidar da minha filha. Vamos tentar achar um meio termo? Se precisarem conversar ou desabafar, minha porta está aberta.”
Coloquei por baixo da porta deles e fui dormir sem esperar resposta.
Na semana seguinte o barulho diminuiu um pouco — não sumiu, mas ficou suportável. Um dia encontrei o garoto magro no elevador:
— Valeu pela carta, tia… A gente vai tentar maneirar…
Sorri agradecida e senti um peso sair das costas.
Mas a verdade é que o barulho nunca some completamente — nem das paredes nem da cabeça da gente. O ruído maior é aquele da solidão e da falta de empatia entre vizinhos, entre gerações, entre mães exaustas e filhos perdidos num mundo cada vez mais barulhento.
Hoje olho pra Camila dormindo no sofá depois da faculdade e penso: será que um dia vamos aprender a ouvir uns aos outros antes de gritar?
E você aí do outro lado: já sentiu esse barulho te corroendo por dentro? Até quando vamos fingir que não ouvimos?