Entre o Medo e o Sonho: A Vida de André
— Você vai ficar aí parado olhando pra parede ou vai me ajudar com as contas, André? — a voz da minha mãe ecoou pela cozinha, cortando o silêncio da manhã como uma faca afiada. Eu estava sentado à mesa, encarando a xícara de café frio, tentando encontrar coragem para responder. Mas as palavras ficaram presas na garganta, como sempre.
Meu nome é André, tenho 35 anos e moro com minha mãe, Dona Célia, em um pequeno apartamento no bairro do Méier, Zona Norte do Rio. Desde que meu pai morreu, há dez anos, tudo parece ter parado no tempo. Eu trabalho como caixa em um supermercado da região, rotina que me consome e me faz sentir cada vez menor. Todo dia acordo às cinco, pego o 457 lotado, enfrento o calor, o empurra-empurra, os olhares cansados. Volto pra casa à noite e repito tudo no dia seguinte. Às vezes me pergunto se nasci pra isso ou se apenas aceitei o papel que a vida me deu.
A verdade é que sonho com outra vida. Queria ser escritor, viajar pelo Brasil, contar histórias de gente comum como eu. Mas o medo me paralisa. Medo de fracassar, de decepcionar minha mãe, de não conseguir pagar as contas. Medo de sair da zona de conforto — mesmo que ela seja desconfortável.
— André, você ouviu o que eu falei? — insistiu minha mãe, já impaciente.
— Ouvi sim, mãe. Eu vou ver as contas depois do trabalho — respondi baixo, evitando seu olhar.
Ela suspirou fundo e saiu batendo panelas. Sei que ela se preocupa comigo, mas às vezes sinto que ela é a maior barreira entre mim e meus sonhos. Desde pequeno ouvi que precisava de estabilidade, carteira assinada, salário fixo no fim do mês. “Sonhar é coisa pra rico”, ela dizia.
No trabalho, a rotina era sufocante. Dona Marlene, a gerente, vivia reclamando do meu rendimento. Os clientes mal-educados despejavam suas frustrações em cima de mim. Meu colega Rafael tentava animar o ambiente com piadas sem graça:
— E aí, Andrézão! Bora sair pra tomar uma cerveja depois? Ou vai ficar em casa escrevendo poesia?
Eu sorria amarelo. Ninguém ali sabia do meu caderno escondido na gaveta do quarto, onde escrevia histórias nas madrugadas insones. Era meu segredo, meu refúgio.
Numa dessas noites, escrevi sobre um homem que largava tudo para viver na estrada. Quando terminei, chorei baixinho para não acordar minha mãe. Senti inveja do personagem — ele tinha coragem que me faltava.
Aos domingos, minha irmã Luciana vinha almoçar conosco com o marido e os filhos. Ela sempre foi a filha exemplar: formada em Direito, concursada, casa própria em Jacarepaguá. Durante o almoço, ela não perdia a chance de alfinetar:
— André, você já pensou em fazer um curso técnico? Caixa de supermercado não dá futuro pra ninguém.
Minha mãe concordava com um aceno silencioso. Eu engolia a comida sem sabor e fingia não ouvir.
Certa noite, depois de mais um dia exaustivo, sentei na varanda e olhei para o céu poluído da cidade. Peguei meu caderno e escrevi uma carta para mim mesmo:
“André,
Você vai esperar até quando? Até sua mãe morrer? Até perder o emprego? Até adoecer de tristeza? O medo vai te proteger ou te enterrar vivo?”
Guardei a carta na carteira e decidi que precisava tentar algo diferente. No dia seguinte, durante o intervalo do trabalho, pesquisei concursos literários gratuitos na internet. Encontrei um edital da Secretaria de Cultura do Estado para contos inéditos. O prazo era em duas semanas.
Passei noites em claro revisando meu texto. Cada palavra era uma batalha contra minha insegurança. Mostrei para Rafael:
— Cara, tá maneiro! Por que você nunca falou que escrevia assim?
— Sei lá… Achei que ninguém ia ligar.
— Tá maluco? Manda logo esse conto!
Enviei o texto no último minuto do prazo. Nos dias seguintes, voltei à rotina automática: trabalho-casa-trabalho-casa. Mas algo tinha mudado dentro de mim — uma faísca acesa pela esperança.
Duas semanas depois, recebi um e-mail: meu conto foi selecionado entre os finalistas. Quase desmaiei de emoção. Mostrei para minha mãe:
— Olha só isso aqui…
Ela leu em silêncio e depois disse:
— Isso é bonito, filho… Mas não esquece das contas.
Fiquei triste com a reação dela, mas não desisti. Fui à cerimônia de premiação sozinho. Quando chamaram meu nome para receber menção honrosa, senti um orgulho que nunca tinha sentido antes.
No caminho de volta pra casa, sentei num banco da praça e chorei de novo — dessa vez de alegria. Pela primeira vez na vida senti que podia ser mais do que esperavam de mim.
Aos poucos comecei a publicar meus textos em redes sociais. Recebi mensagens de desconhecidos dizendo que se identificavam com minhas histórias. Isso me deu força para continuar.
Minha relação com minha mãe melhorou um pouco quando ela viu meu nome no jornal do bairro. Ela ainda se preocupa com estabilidade financeira — e eu também — mas agora enxerga que escrever faz parte de quem sou.
Hoje continuo trabalhando no supermercado porque preciso pagar as contas. Mas escrevo todos os dias e sonho com o momento em que poderei viver só da escrita.
Às vezes ainda sinto medo — muito medo — mas aprendi que coragem não é ausência de medo; é agir apesar dele.
E você? Também sente vontade de mudar tudo mas não sabe por onde começar? Será que vale a pena arriscar mesmo sem garantia nenhuma? Quero ouvir sua história.