Só Ele Me Entende: Entre Cães e Silêncios
— O que vai ter de almoço? — perguntou meu pai, Sérgio, entrando na cozinha com aquele jeito apressado de sempre, já cheirando o ar como se fosse um cão farejador.
— Tô fazendo biscoito pro Thor — respondi, tirando a forma do forno com cuidado. O cheiro de frango com aveia se espalhava pelo apartamento pequeno em Osasco. — Ele tá passando por uma fase difícil. Troca de pelo, tosagem, anda meio estranho… Decidi mimar ele um pouco.
Meu pai bufou. — Você só pensa nesse cachorro. Nem parece que tem gente nessa casa.
Mordi o lábio para não responder. Era sempre assim: qualquer coisa que eu fizesse por Thor era motivo de crítica. Minha mãe, Dona Lúcia, nem olhou pra mim. Estava sentada no sofá, olhos grudados na novela, como se o mundo pudesse acabar e ela nem perceberia.
Thor me olhava com aqueles olhos castanhos enormes, a língua de fora, abanando o rabo. Só ele parecia perceber quando eu estava triste ou cansada. Só ele vinha deitar a cabeça no meu colo quando eu chorava baixinho no quarto, tentando não fazer barulho para não incomodar ninguém.
— Você vai sair hoje? — minha mãe perguntou sem tirar os olhos da TV.
— Não sei ainda — respondi, mas ela já tinha voltado a atenção para a tela. Era sempre assim: perguntas automáticas, respostas que se perdiam no ar.
Peguei um biscoito ainda quente e fui até Thor. Ele pulou de alegria, quase derrubando a tigela d’água. — Calma, garoto! — ri baixinho. — Olha só o que eu fiz pra você.
Ele pegou o biscoito com delicadeza, mastigando devagar, como se saboreasse cada pedacinho do meu carinho. Sentei no chão ao lado dele e encostei a cabeça no seu pelo macio. Ali, naquele instante, era como se o resto do mundo sumisse.
Lembrei da última vez que tentei conversar com meus pais sobre a faculdade. Queria fazer Psicologia, mas eles achavam bobagem. “Isso não dá dinheiro”, diziam. “Você devia prestar concurso público igual seu primo Rafael.” Mas eu não queria ser igual ao Rafael. Eu queria entender as pessoas, ajudar quem se sentia perdido como eu.
Thor lambeu minha mão e me olhou como se dissesse: “Eu entendo você”. E talvez fosse verdade. Talvez só ele me entendesse mesmo.
Naquela noite, depois do jantar silencioso — arroz, feijão e frango grelhado feito às pressas pela minha mãe — fui para o quarto com Thor atrás de mim. Sentei na cama e comecei a chorar baixinho. Ele subiu e deitou do meu lado, encostando o focinho no meu ombro.
— Por que ninguém me escuta nessa casa? — sussurrei para ele. — Será que sou invisível?
Thor suspirou alto e ficou ali comigo, em silêncio. Às vezes acho que ele sente tudo o que eu sinto.
No dia seguinte acordei cedo para levar Thor ao pet shop. Ele odiava banho, mas precisava tosar o pelo porque estava caindo demais pela casa toda. No caminho, encontrei Dona Cida, vizinha do 302.
— Bom dia, Ana! Vai passear com o Thor?
— Vou levar ele pra tosar — respondi.
Ela sorriu e fez carinho nele. — Esse cachorro é um anjo na sua vida, né? Sempre vejo vocês juntos.
Sorri de volta, mas por dentro senti um aperto no peito. Era verdade: Thor era meu anjo. Meu melhor amigo.
No pet shop, enquanto esperava, sentei num banco e fiquei olhando as pessoas passarem pela rua movimentada. Vi mães puxando crianças apressadas para a escola, motoboys buzinando impacientes, senhoras carregando sacolas pesadas do mercado. Todo mundo parecia ter pressa demais para notar quem estava ao lado.
Quando voltei pra casa com Thor todo tosado e cheirando a shampoo de camomila, minha mãe reclamou:
— Gastou dinheiro de novo com esse cachorro? Você acha que dinheiro nasce em árvore?
— Ele precisava… — tentei explicar.
— Precisava nada! Você inventa desculpa pra tudo!
Meu pai nem olhou pra mim. Estava ocupado demais discutindo política no WhatsApp com os amigos do trabalho.
Fui pro quarto de novo. Thor pulou na cama e ficou me olhando com aquela carinha de quem entende tudo sem precisar de palavras.
À noite tentei conversar com minha mãe enquanto ela lavava a louça:
— Mãe… Eu queria tentar Psicologia ano que vem…
Ela nem parou pra me olhar:
— Ana Paula, já falamos disso mil vezes! Você precisa pensar em algo que dê futuro! Olha seu primo Rafael! Já tá quase passando num concurso!
— Mas mãe…
Ela me cortou:
— Chega desse assunto! Vai ajudar seu pai na sala!
Saí da cozinha sentindo um nó na garganta. Sentei no chão da sala ao lado de Thor e comecei a chorar baixinho de novo. Ele lambeu minhas lágrimas e ficou ali comigo até eu conseguir respirar fundo.
No domingo à tarde, enquanto meus pais dormiam vendo futebol na TV, sentei na varanda com Thor no colo e comecei a escrever num caderno velho:
“Só você me entende, Thor. Aqui em casa ninguém me escuta de verdade. Eles só querem que eu seja igual todo mundo: calada, obediente, invisível. Mas você não liga se eu choro ou rio. Você só fica aqui comigo e isso já basta pra eu aguentar mais um dia.”
Fechei o caderno e abracei Thor forte. Lá fora o céu estava nublado e uma garoa fina começava a cair sobre Osasco. Pensei em como seria minha vida se eu tivesse coragem de ir embora dali, tentar ser feliz do meu jeito.
Naquela noite sonhei que estava correndo num campo enorme com Thor ao meu lado, livre de todas as cobranças e silêncios da minha família. Acordei chorando baixinho outra vez.
No café da manhã seguinte, meu pai perguntou:
— Vai sair hoje?
Olhei pra ele e respondi:
— Vou sim. Vou levar o Thor pra passear no parque.
Ele resmungou alguma coisa sobre perder tempo com cachorro enquanto minha mãe bufava lavando a louça.
Mas naquele dia eu fui mesmo. Andei pelo parque inteiro com Thor correndo feliz ao meu lado. Sentei num banco e fiquei olhando as famílias brincando juntas, rindo alto, conversando sobre tudo e nada ao mesmo tempo.
Senti inveja daquela alegria simples que parecia tão distante da minha realidade.
Quando voltei pra casa, decidi: vou tentar Psicologia sim, mesmo sem apoio deles. Vou estudar escondido se for preciso. Porque se tem uma coisa que aprendi com Thor é que a gente precisa ser fiel à nossa própria essência — mesmo quando ninguém entende ou apoia.
Às vezes penso: será que um dia meus pais vão perceber quem eu sou de verdade? Ou será que vou passar a vida inteira sendo invisível dentro da minha própria casa?
E você? Já se sentiu assim também? Já teve alguém — ou algum bichinho — que foi seu único refúgio quando ninguém mais parecia te ouvir?