A Última Promessa de Dona Catarina

— Mãe, por favor, não me deixa agora. — Minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto segurava a mão magra de Dona Catarina. O cheiro do hospital misturava-se ao perfume suave que ela sempre usava, um restinho de vaidade que resistia ao tempo e à doença.

Ela abriu os olhos devagar, como se cada piscada fosse um esforço sobre-humano. O rosto dela, outrora cheio de vida, agora era só pele e osso. Mas ainda assim, quando olhou pra mim, vi ali a mesma força que me criou sozinha depois que meu pai sumiu no mundo.

— Zeca… — ela murmurou, apertando minha mão com uma força surpreendente para quem já não comia direito há dias. — Não briga com sua irmã. Promete pra mim.

Engoli em seco. A promessa parecia simples, mas eu sabia que era quase impossível. Desde que a doença da mãe ficou grave, eu e a Luciana vivíamos em pé de guerra. Ela queria vender a casa pra pagar um tratamento caríssimo em São Paulo; eu achava que era tarde demais e que só ia prolongar o sofrimento da mãe. As discussões eram diárias, sempre terminando em gritos e portas batidas.

Naquele quarto abafado do Hospital das Clínicas de Belo Horizonte, o tempo parecia suspenso. O barulho dos monitores era o único som constante, marcando o ritmo lento do fim.

Lá fora, a vida seguia: ônibus lotados, vendedores ambulantes gritando na porta do hospital, gente correndo pra pegar o metrô. Aqui dentro, tudo era silêncio e espera.

Lembro como se fosse agora da primeira vez que a mãe sentiu aquela dor forte na barriga. Ela tentou esconder de todo mundo, dizia que era só uma virose. Só foi ao médico quando já não conseguia mais levantar da cama. O diagnóstico veio como uma sentença: câncer no fígado, estágio avançado. A partir dali, nossa vida virou de cabeça pra baixo.

Luciana largou o emprego em São Paulo e voltou pra casa. Eu continuei trabalhando na oficina do Seu Geraldo, mas passava as noites no hospital. As contas começaram a se acumular: aluguel atrasado, luz cortada duas vezes, até comida começou a faltar.

— Zeca! — Luciana entrou no quarto sem bater, os olhos vermelhos de tanto chorar. — O médico quer falar com a gente.

Olhei pra mãe, que fechou os olhos de novo, exausta. Saímos pro corredor.

— Ele disse que não tem mais o que fazer — Luciana falou baixo, quase sem voz. — Só manter ela confortável.

Senti um vazio enorme dentro do peito. Sabia que esse momento ia chegar, mas nunca estamos preparados de verdade.

— A gente precisa decidir sobre os aparelhos — ela continuou. — Se vai manter ou não.

— Você quer desligar? — perguntei, sentindo a raiva crescer de novo.

— Eu quero o melhor pra ela! — Luciana rebateu. — Você acha que ela merece ficar sofrendo desse jeito?

— E você acha que eu quero ver ela morrer?

O corredor ficou pequeno demais pra tanta dor e mágoa acumulada. Lembrei das brigas antigas: quando papai foi embora e deixou a gente sozinho; quando Luciana quis estudar fora e a mãe quase teve um troço; quando eu larguei a escola pra trabalhar e ajudar em casa.

No fundo, todo mundo só queria proteger quem amava — mas cada um do seu jeito.

Voltamos pro quarto em silêncio. A mãe dormia profundamente, o peito subindo e descendo devagarinho.

Naquela noite, sentei ao lado dela e comecei a falar baixinho:

— Mãe… lembra quando a senhora fazia pão de queijo nas tardes de domingo? Eu e a Luciana brigando pelo maior pedaço… A senhora sempre dizia: “Dividam direitinho ou ninguém come!”

Uma lágrima escorreu pelo meu rosto. Senti uma saudade antecipada daquelas tardes simples, da família unida antes de tudo desandar.

De manhã cedo, fui acordado pelo choro da Luciana. A mãe tinha partido durante a madrugada, tranquila, sem dor.

O velório foi simples, como ela queria. Vieram vizinhos antigos do bairro Santa Tereza, colegas da igreja Batista onde ela cantava no coral, até o Seu Geraldo apareceu com um buquê de flores murchas.

Na hora do enterro, Luciana segurou minha mão com força. Pela primeira vez em meses, não discutimos. Só choramos juntos.

Depois do enterro, voltamos pra casa vazia. O cheiro do café ainda pairava no ar; as fotos antigas na parede pareciam nos observar em silêncio.

— E agora? — perguntei pra Luciana.

Ela olhou pra mim com os olhos inchados:

— Agora a gente tenta cumprir a promessa que fez pra ela.

Ficamos ali sentados na sala por horas, sem dizer nada. Aos poucos, começamos a conversar sobre coisas pequenas: quem ia ficar com o cachorro da mãe; como dividir as contas; se valia mesmo vender a casa ou tentar recomeçar ali mesmo.

Os dias seguintes foram difíceis. A ausência da mãe era um buraco impossível de preencher. Mas aos poucos fomos nos reaproximando. Descobrimos cartas antigas dela guardadas numa caixa de sapato: conselhos para nós dois, receitas escritas à mão, até uma carta pro nosso pai — nunca enviada — perdoando ele por ter ido embora.

Lemos juntos cada palavra, chorando e rindo ao mesmo tempo. Ali entendi que o perdão é um processo lento; começa pequeno e vai crescendo até ocupar todo o espaço da mágoa.

Hoje faz um ano que Dona Catarina se foi. Eu e Luciana ainda brigamos às vezes — irmãos são assim mesmo — mas aprendemos a conversar antes de gritar. Mantivemos a casa; reformamos o quintal onde ela gostava de plantar roseiras.

Às vezes me pego pensando: será que fizemos tudo certo? Será que ela teria orgulho da gente?

E vocês aí do outro lado: já passaram por algo assim? Como conseguiram seguir em frente depois de perder alguém tão importante?