Os Olhos de uma Amizade Esquecida
— Valéria? — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto o ônibus freava bruscamente e eu me agarrava à barra de ferro para não cair. O cheiro forte de gasolina e suor impregnava o ar abafado da manhã, e por um instante, tudo ao redor pareceu sumir. Só restaram aqueles olhos castanhos, tão familiares, arregalados de surpresa e talvez um pouco de medo.
Ela demorou um segundo para me reconhecer. O tempo tinha deixado marcas em nós duas: rugas discretas, olheiras profundas, cabelos mais opacos. Mas era ela. Valéria, minha melhor amiga de infância, a irmã que a vida me deu e depois tirou sem piedade.
— Mariana? — Ela hesitou, a voz rouca, como se o nome pesasse na língua. — Meu Deus…
O silêncio entre nós era ensurdecedor. O ônibus seguiu seu caminho aos solavancos pela Avenida Amazonas, mas eu não sentia mais o chão sob meus pés. Só conseguia pensar na última vez que vi Valéria: há quase vinte anos, no portão da escola estadual do bairro Santa Tereza, quando ela me olhou com raiva e mágoa antes de virar as costas para sempre.
— Você… tá indo pra onde? — perguntei, tentando soar casual, mas minha voz falhou.
Ela desviou o olhar para a janela suja. — Pro hospital. Minha mãe tá internada de novo. E você?
— Trabalho na padaria ali perto do centro — respondi, sentindo uma pontada de vergonha. Não era o futuro que sonhávamos juntas quando rabiscávamos nossos nomes nos cadernos e fazíamos planos de viajar o mundo.
O ônibus parou num ponto lotado. Um senhor resmungou atrás de nós, pedindo passagem. Eu me afastei um pouco, mas não consegui desviar os olhos dela. Queria perguntar tanta coisa: se ela ainda gostava de desenhar, se tinha filhos, se era feliz. Mas as palavras ficaram presas na garganta.
Valéria suspirou fundo. — Você soube do meu pai?
Assenti devagar. O bairro inteiro soube quando ele foi preso por corrupção na prefeitura. Lembrei do escândalo nos jornais, das fofocas nas esquinas, do jeito como todos começaram a evitar Valéria na escola.
— Sinto muito — murmurei.
Ela deu um sorriso amargo. — Não sente não. Ninguém sentiu. Nem você.
Aquelas palavras me cortaram como faca. Eu quis protestar, dizer que tentei ligar, que escrevi cartas nunca enviadas, que chorei noites inteiras sentindo falta dela. Mas não disse nada. Talvez ela tivesse razão.
O ônibus virou bruscamente na Rua dos Caetés e uma senhora tropeçou em mim, quase caindo no colo de Valéria. Ela segurou a mulher com firmeza e gentileza, como sempre fazia quando éramos crianças e eu me machucava brincando na rua.
— Obrigada, filha — disse a senhora, ajeitando o lenço na cabeça.
Valéria sorriu para ela e eu vi nos olhos dela o mesmo brilho de antes: uma mistura de força e ternura que sempre admirei.
— Você casou? — perguntei de repente, tentando quebrar o gelo.
Ela balançou a cabeça. — Não tive tempo pra isso. Depois que meu pai foi preso, minha mãe adoeceu e eu tive que cuidar dela sozinha. Trabalhei em tudo quanto é canto: faxina, cozinha de restaurante… A vida não deu muita escolha.
Senti um nó na garganta. Eu também não casei. Tive alguns namorados, mas nenhum ficou tempo suficiente para conhecer meus fantasmas.
— E você? — ela perguntou.
Dei de ombros. — Também não. Acho que a gente nunca aprendeu a confiar direito depois de tudo aquilo.
Ela riu baixinho, um riso triste. — A gente era tão grudada… Lembra das nossas promessas?
Lembrei sim. Prometemos nunca nos abandonar, dividir tudo: sonhos, segredos, até as dores. Mas quando o escândalo estourou e todos começaram a apontar para Valéria como se ela fosse culpada pelos erros do pai, eu me afastei. Tive medo de ser rejeitada também. Medo do que os outros iam pensar.
— Desculpa — sussurrei, finalmente encontrando coragem para encará-la nos olhos. — Eu devia ter ficado do seu lado.
Ela ficou em silêncio por alguns segundos longos demais. O ônibus parou novamente e algumas pessoas desceram apressadas.
— Já passou muito tempo — disse ela enfim. — Não adianta mais pedir desculpa agora.
Meu coração apertou. Queria tanto voltar no tempo, segurar sua mão naquele portão da escola e dizer que nada importava além da nossa amizade.
— Você ainda desenha? — perguntei baixinho.
Ela sorriu pela primeira vez desde que nos reencontramos. — De vez em quando… Quando sobra tempo e coragem.
O ônibus se aproximava do centro e eu sabia que logo teria que descer. Olhei para Valéria mais uma vez, tentando memorizar cada traço do rosto dela.
— Posso te dar meu número? Se quiser conversar… ou tomar um café qualquer dia desses…
Ela hesitou antes de pegar meu papel amassado com o número rabiscado às pressas. Guardou no bolso do casaco azul desbotado sem prometer nada.
Quando desci do ônibus, senti as pernas bambas e os olhos marejados. O barulho da cidade parecia distante enquanto eu caminhava até a padaria.
Passei o dia inteiro pensando nela: nas tardes em que brincávamos no quintal da casa dela, nas noites em que sonhávamos com um futuro diferente daquele que recebemos. Pensei em quantas vezes deixamos o medo falar mais alto que o amor.
Naquela noite, antes de dormir, fiquei olhando pro teto escuro do meu quarto e me perguntei: será que ainda dá tempo de reconstruir uma ponte quebrada há tanto tempo? Será que amizades verdadeiras sobrevivem aos erros do passado?
E você? Já deixou alguém importante escapar por medo ou vergonha? Será que ainda dá tempo de pedir perdão?