Minha mãe busca o amor enquanto eu me afogo nas responsabilidades maternas

— Mãe, você pode ficar com as crianças só hoje à noite? — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto segurava o celular com uma mão e com a outra tentava acalmar o choro do Lucas, meu caçula de dois anos. Do outro lado da linha, ouvi o som abafado de risadas e música. — Hoje não dá, filha. O Paulo vai me buscar pra jantar fora. Você entende, né? — respondeu minha mãe, Dona Graça, sem hesitar, como se fosse a coisa mais natural do mundo.

Desliguei o telefone devagar, sentindo um nó apertar minha garganta. Olhei para a sala bagunçada, brinquedos espalhados, a televisão ligada em um desenho animado qualquer, e a pequena Sofia, de quatro anos, me puxando pela barra da blusa: — Mamãe, vem brincar comigo! — Eu já vou, filha, só preciso de um minuto, tá bom? — respondi, tentando sorrir. Mas por dentro, eu estava despedaçada.

Minha mãe sempre foi uma mulher vaidosa, cheia de energia, dessas que não aceitam envelhecer. Depois que meu pai morreu, há três anos, ela mergulhou de cabeça em aplicativos de namoro, grupos de dança de salão, viagens com amigas. No começo, achei bonito vê-la se reinventando. Mas, com o tempo, percebi que ela parecia ter me esquecido. Eu, sua única filha, e principalmente, seus netos, que ela dizia amar tanto quando nasceram.

A rotina aqui em casa é exaustiva. Acordo antes do sol nascer, preparo café, arrumo as crianças, levo Sofia pra creche, fico com Lucas em casa enquanto tento trabalhar remotamente. Não tenho marido — o pai das crianças foi embora quando Lucas ainda estava na barriga. Meus amigos sumiram, cada um com sua própria vida. E minha mãe… bem, minha mãe está sempre ocupada demais.

Lembro de uma tarde, há alguns meses, quando tentei conversar com ela sobre como eu estava me sentindo. — Mãe, eu tô cansada. Sinto que não dou conta de tudo sozinha. Você podia me ajudar mais, pelo menos de vez em quando… — Ela me interrompeu, ajeitando o batom no espelho da sala: — Filha, você é jovem, forte, vai dar conta. Eu já criei você sozinha, agora é minha vez de viver. Não posso ficar presa em casa de novo. —

Aquelas palavras ficaram ecoando na minha cabeça. “Agora é minha vez de viver.” Mas e eu? Quando vai ser a minha vez? Será que ser mãe significa abrir mão de tudo, inclusive do direito de pedir ajuda?

Os dias foram passando, um igual ao outro. Às vezes, Dona Graça aparecia para uma visita rápida, sempre apressada, contando as novidades do último encontro, mostrando fotos de viagens, roupas novas. Sofia corria para o colo dela, mas logo se frustrava quando a avó dizia que não podia ficar muito tempo. Lucas, pequeno demais para entender, só olhava curioso. Eu sorria, fingindo que estava tudo bem, mas por dentro sentia uma raiva crescente.

Uma noite, depois de colocar as crianças para dormir, sentei no sofá e chorei baixinho. Senti vergonha de mim mesma, de não conseguir ser aquela mãe forte que todos esperam. Senti inveja da liberdade da minha mãe, da leveza com que ela encarava a vida. Senti culpa por desejar que ela estivesse mais presente, por querer dividir o peso que carrego todos os dias.

No grupo de mães do bairro, vejo outras mulheres reclamando da sogra que se mete demais, da mãe que quer controlar tudo. Eu, ao contrário, daria tudo por um pouco de intromissão, por uma visita inesperada, por um prato de comida pronto, por um colo. Mas Dona Graça está sempre ocupada demais, sempre apaixonada demais, sempre vivendo demais.

Outro dia, Sofia ficou doente. Febre alta, tosse, noites sem dormir. Liguei para minha mãe, desesperada, pedindo ajuda. Ela atendeu no viva-voz, voz animada: — Filha, tô indo pro samba com o Cláudio, posso passar aí amanhã. Dá dipirona pra ela e faz inalação. — Desligou antes que eu pudesse insistir. Passei a noite em claro, cuidando da minha filha sozinha, sentindo uma solidão que parecia me engolir.

No aniversário de Lucas, preparei uma festinha simples, só nós três. Convidei minha mãe, claro. Ela apareceu no final, já maquiada, pronta para sair. Trouxe um presente caro, tirou fotos, postou no Instagram, e foi embora antes do parabéns. Sofia perguntou: — Mamãe, por que a vovó nunca fica com a gente? — Não soube o que responder. Como explicar para uma criança que o amor às vezes é egoísta?

Comecei a evitar ligar para minha mãe. Passei a guardar para mim as dificuldades, as noites mal dormidas, os medos. Mas a saudade dela, da mãe que eu conheci um dia, não passava. Às vezes, me pego lembrando da infância, quando ela fazia questão de estar presente em tudo, mesmo trabalhando muito. O que mudou? Será que fui eu? Será que ela cansou de ser mãe?

Um dia, encontrei Dona Graça por acaso na padaria. Ela estava com um homem elegante, sorrindo, feliz. Quando me viu, tentou disfarçar o incômodo. — Oi, filha! Esse aqui é o Sérgio. — Olhei para ela, para o homem, para o sorriso dela. Senti um misto de orgulho e tristeza. Queria que ela fosse feliz, claro. Mas também queria que ela lembrasse de mim, dos netos, da família que construímos juntas.

Naquela noite, depois que as crianças dormiram, escrevi uma mensagem longa para minha mãe. Falei do meu cansaço, da solidão, da saudade. Pedi, mais uma vez, que ela estivesse mais presente. Ela respondeu no dia seguinte, com um áudio curto: — Filha, eu te amo, mas preciso viver minha vida também. Não quero me sentir culpada por isso. Você vai entender quando seus filhos crescerem. —

Talvez ela tenha razão. Talvez um dia eu entenda. Mas hoje, tudo o que eu queria era um abraço, um pouco de colo, alguém para dividir o peso. Sinto falta da minha mãe, da mulher que me ensinou a ser forte, mas que agora parece tão distante.

Às vezes me pergunto: será que é possível ser mãe e, ao mesmo tempo, ser filha? Será que um dia vou conseguir perdoar minha mãe por escolher a própria felicidade? Ou será que, no fundo, eu só queria ser vista, ser cuidada, ser amada de novo?

E você, já se sentiu assim? Já precisou de alguém que não estava disposto a te ajudar? O que fazer quando quem mais amamos decide seguir outro caminho?