Escolhi a Mim Mesma, e Você Preferiu Outras Meias
— Kamila, você vai lá pegar o buquê? — perguntou minha mãe, com aquele sorriso de quem espera que eu finalmente anuncie um noivado.
Eu só balancei a cabeça, tentando me esconder atrás da mesa de doces. O salão estava lotado, a música alta, e o cheiro de flores misturado com perfume barato me dava náuseas. Bartos, meu namorado há quase cinco anos, estava do outro lado do salão, rindo alto com os amigos dele. Eu observava de longe, tentando decifrar se aquele sorriso era para mim ou para a loira de vestido vermelho que não parava de tocar no braço dele.
A cerimônia da minha melhor amiga, Juliana, estava chegando ao fim. Ela parecia radiante, dançando com o marido, enquanto eu sentia um peso no peito. Não era inveja, era um vazio. Um buraco que crescia toda vez que eu olhava para Bartos e via o quanto ele parecia distante. Eu sabia que algo estava errado há meses, mas fingia não perceber. Fingir era mais fácil do que encarar a verdade.
O mestre de cerimônias anunciou o momento do buquê. As mulheres se aglomeraram no centro da pista, rindo e empurrando umas às outras. Eu fiquei de lado, quase atrás de uma coluna, torcendo para que ninguém me notasse. Mas, de repente, vi o buquê voando em minha direção. O tempo pareceu desacelerar. Por instinto, estendi as mãos e, antes que percebesse, as flores estavam comigo. Todos aplaudiram, e eu sorri amarelo, sentindo o olhar de Bartos atravessar o salão.
Ele veio até mim, com aquele sorriso ensaiado. — Olha só, Kamila, parece que agora vai ter que ser você, hein? — disse, rindo, mas sem nenhum brilho nos olhos.
— Só se você quiser, né? — respondi, tentando soar leve, mas minha voz saiu trêmula.
Ele desviou o olhar, mexendo no celular. — Vou ali fumar um cigarro com o pessoal, já volto.
Fiquei ali, segurando o buquê, sentindo o peso das expectativas de todos. Minha mãe se aproximou, animada:
— Filha, você viu? Agora é só esperar o pedido!
— Mãe, por favor… — pedi, quase chorando.
Ela percebeu meu tom e se afastou, preocupada. Eu queria sumir. Fui para o banheiro, tranquei a porta e encostei a testa fria no espelho. “Por que eu continuo insistindo nisso?”, pensei. Lágrimas começaram a escorrer, e eu não consegui segurar. O som abafado da festa parecia distante, como se eu estivesse em outro mundo.
Lembrei de todas as vezes que Bartos me deixou esperando, das mensagens não respondidas, dos aniversários esquecidos. Lembrei da noite em que encontrei uma meia feminina diferente no nosso apartamento, e ele jurou que era da irmã dele. Eu quis acreditar, mas no fundo sabia que não era verdade. Eu me anulava, tentando ser a namorada perfeita, enquanto ele se afastava cada vez mais.
Saí do banheiro, respirei fundo e voltei para a festa. Bartos estava encostado na varanda, conversando baixo com a loira do vestido vermelho. Ela ria alto, jogando o cabelo para trás. Senti um nó na garganta. Fui até eles, tentando manter a dignidade.
— Oi, tudo bem? — falei, forçando um sorriso.
A loira me olhou de cima a baixo, avaliando. Bartos fingiu surpresa:
— Ah, Kamila, essa aqui é a Vanessa, colega do trabalho.
— Prazer — disse ela, estendendo a mão com unhas vermelhas impecáveis.
— Prazer — respondi, mas minha mão tremia.
O silêncio ficou constrangedor. Bartos olhou para o relógio.
— Acho que já tá na hora de ir, né? — disse, sem olhar para mim.
No carro, o silêncio era ensurdecedor. Eu olhava pela janela, vendo as luzes da cidade passarem rápido. Ele mexia no celular, rindo de alguma mensagem. Não aguentei:
— Bartos, você ainda quer ficar comigo?
Ele demorou a responder. — Kamila, você tá viajando. Só porque peguei carona com a Vanessa outro dia, já acha que tem coisa?
— Não é só isso. Você não me olha mais, não me escuta. Eu me sinto sozinha mesmo estando do seu lado.
Ele bufou, irritado. — Você tá sempre reclamando. Nunca tá satisfeita com nada.
— Eu só queria que você me amasse de verdade — sussurrei, sentindo as lágrimas voltarem.
Chegamos em casa. Ele foi direto para o quarto, largando o celular na sala. Eu sentei no sofá, abraçando o buquê. O cheiro das flores me fez chorar ainda mais. Peguei o celular e liguei para Juliana.
— Amiga, posso dormir aí hoje? — perguntei, a voz embargada.
— Claro, Ká. Vem pra cá. — Ela nem perguntou o motivo, sabia que eu precisava.
Arrumei uma mochila às pressas. Quando passei pelo quarto, Bartos estava deitado, de costas para mim.
— Vou dormir na Ju hoje — avisei.
Ele não respondeu. Saí, sentindo um alívio estranho. No caminho, pensei em tudo o que vivi ao lado dele. As viagens, as risadas, os planos. Mas também lembrei das brigas, das mentiras, das noites em claro esperando uma mensagem que nunca chegava.
Na casa da Juliana, fui recebida com um abraço apertado. — Você merece mais, Ká. Muito mais — ela disse, enxugando minhas lágrimas.
Naquela noite, deitada no colchão improvisado, decidi que não ia mais me anular. No dia seguinte, voltei para casa cedo. Bartos estava na cozinha, tomando café.
— Kamila, a gente precisa conversar — disse ele, finalmente me olhando nos olhos.
— Não precisa, Bartos. Eu já entendi tudo. Eu escolhi a mim mesma dessa vez.
Ele ficou em silêncio, surpreso. — Você tá exagerando, Kamila. Foi só uma meia, só uma carona…
— Não, Bartos. Não foi só isso. Foi cada vez que você me fez sentir invisível. Foi cada vez que eu precisei me diminuir pra caber no seu mundo. Eu cansei.
Ele tentou argumentar, mas eu não ouvi. Fui para o quarto, peguei minhas coisas e saí. Liguei para minha mãe, contei tudo. Ela chorou, mas disse que estava orgulhosa de mim.
Os dias seguintes foram difíceis. Senti falta dele, das pequenas rotinas. Mas, aos poucos, fui redescobrindo quem eu era. Voltei a sair com minhas amigas, comecei a fazer terapia, me matriculei em um curso de fotografia. Pela primeira vez em anos, olhei no espelho e gostei do que vi.
Alguns meses depois, encontrei Bartos por acaso em um bar. Ele estava com outra, rindo alto, como sempre. Nossos olhares se cruzaram, mas eu não senti dor. Senti alívio. Senti liberdade.
Hoje, quando olho para trás, vejo que aquele buquê não foi um sinal de casamento, mas de renascimento. Eu escolhi a mim mesma. E você, Bartos? Você preferiu outras meias, outras histórias. Eu finalmente entendi que mereço mais.
Será que a gente precisa perder tudo para se encontrar? Quantas vezes você já se anulou por alguém que não te via? Quero saber: você já teve coragem de se escolher?