Trinta Anos Depois: Um Encontro no Caixa do Supermercado

— Vai ser só isso, senhor? — a voz dela atravessou o barulho dos caixas, cortando o ar abafado do supermercado. Eu estava distraído, empilhando o kefir, a mortadela e o maço de cigarros na esteira, sem prestar atenção em nada além do bip monótono do leitor de código de barras. Mas aquele timbre… Era impossível não reconhecer. O coração disparou, como se tivesse voltado trinta anos no tempo, para uma noite abafada de verão em Belo Horizonte, quando tudo ainda era possível.

Olhei para cima, tentando disfarçar o susto. Ela não me encarou, os olhos fixos na tela do caixa, os cabelos tingidos de loiro presos num coque apressado. Mas o gesto — aquele jeito de afastar a franja do rosto com as costas da mão — era inconfundível. Só então reparei no crachá pendurado no peito: “Maura S. Oliveira”. Meu Deus. Maura.

— Maura? — minha voz saiu baixa, quase um sussurro, mas ela ouviu. Parou de passar as compras, a mão congelada no ar, e finalmente me olhou. Os olhos dela, ainda castanhos e profundos, se arregalaram por um segundo, antes de se estreitarem, desconfiados.

— Ricardo? — ela perguntou, hesitante, como se não quisesse acreditar.

O silêncio entre nós era tão denso que dava para sentir o peso das três décadas que nos separavam. Atrás de mim, alguém pigarreou, impaciente, mas eu não conseguia me mover. O supermercado inteiro parecia ter parado, como se o tempo tivesse congelado só para nós dois.

— Faz tanto tempo… — tentei sorrir, mas minha voz falhou. — Você está bem?

Ela deu de ombros, desviando o olhar. — Tô levando. E você?

— Também. — Menti. Eu não estava bem. Não desde que ela foi embora, levando com ela tudo o que eu achava que sabia sobre amor, sobre futuro, sobre mim mesmo.

A fila atrás de mim começou a se agitar. Uma senhora reclamou alto, e Maura voltou ao trabalho, passando minhas compras com movimentos automáticos. Mas eu não conseguia sair dali. O passado me prendia pelos tornozelos, me puxando de volta para aquela última noite, quando discutimos na porta do meu apartamento, ela chorando, eu gritando, os vizinhos espiando pelas frestas das portas.

— Você ainda fuma? — ela perguntou, apontando para o maço de cigarros.

— De vez em quando. — Respondi, envergonhado. — E você? — arrisquei.

Ela riu, um riso curto e amargo. — Parei quando a Ana nasceu. Não dava pra criar filha pequena com cheiro de cigarro em casa.

O nome me acertou como um soco no estômago. Ana. O nome que tínhamos escolhido juntos, quando ainda fazíamos planos de ter uma família. Será que era minha filha? Não tive coragem de perguntar. O medo da resposta era maior do que a curiosidade.

— Você tem filhos? — ela perguntou, quase casual.

— Não. — respondi, sentindo o peso da palavra. — Nunca casei.

Ela assentiu, como se já esperasse. — Eu me separei faz uns anos. O pai da Ana sumiu no mundo. Agora é só eu e ela.

O silêncio voltou, pesado. Eu queria dizer tanta coisa, pedir desculpas, explicar tudo o que não consegui naquela época. Mas as palavras não saíam. O orgulho, a vergonha, o arrependimento — tudo se misturava num nó na garganta.

— Deu cinquenta e dois reais, senhor. — ela disse, formal, como se quisesse encerrar o assunto.

Paguei, as mãos tremendo. Peguei as sacolas, mas não consegui ir embora. Fiquei ali, parado, olhando para ela, tentando encontrar algum vestígio da garota que eu amei. Ela me olhou de volta, cansada, mas com um brilho nos olhos que eu lembrava bem.

— Maura… — comecei, mas ela me interrompeu.

— Ricardo, deixa pra lá. Já passou muito tempo. — Ela sorriu, triste. — A vida é assim mesmo. Cada um segue seu caminho.

— Mas eu nunca deixei de pensar em você. — confessei, a voz embargada.

Ela respirou fundo, como se estivesse segurando as lágrimas. — Eu também pensei muito em você. Mas a gente errou demais, né? Fomos orgulhosos, cabeça dura. E agora… agora é tarde.

Atrás de mim, a fila já estava impaciente. O gerente olhava de longe, desconfiado. Eu sabia que precisava ir, mas não conseguia dar o último passo.

— Você ainda mora no mesmo lugar? — perguntei, desesperado por mais um minuto.

— Não. Tive que mudar quando perdi o emprego na fábrica. Agora moro no bairro Novo Horizonte, com a Ana. Vida simples, mas a gente se vira.

Fiquei ali, sem saber o que dizer. Queria abraçá-la, pedir perdão, voltar no tempo. Mas tudo o que eu podia fazer era olhar para ela, tentando memorizar cada detalhe, como se isso pudesse preencher o vazio dos últimos trinta anos.

— Cuida de você, Ricardo. — ela disse, baixinho, antes de chamar o próximo cliente.

Saí do supermercado atordoado, o sol forte batendo no meu rosto, as sacolas pesando nas mãos. Caminhei sem rumo pelas ruas do bairro, lembrando de tudo o que vivemos, de tudo o que perdemos. Pensei em ligar para ela, em procurar seu endereço, mas sabia que não adiantava. O tempo não volta. As palavras não ditas, os gestos não feitos, tudo fica para trás, como poeira na estrada.

Naquela noite, sentei na varanda do meu apartamento, olhando as luzes da cidade. Acendi um cigarro, mesmo sabendo que não devia. Pensei em Maura, em Ana, em tudo o que poderia ter sido. Será que, se eu tivesse sido menos orgulhoso, menos teimoso, nossa história teria sido diferente? Será que ainda existe tempo para recomeçar, ou certas portas se fecham para sempre?

Às vezes me pergunto: quantas vidas cabem dentro de uma só? Quantas vezes a gente deixa o amor escapar por entre os dedos, achando que vai ter outra chance? E se a vida for só isso — encontros e desencontros, saudades e silêncios?

E você, já deixou alguém importante escapar por orgulho? O que faria se tivesse uma segunda chance?