Minha mãe não quer cuidar dos meus filhos: entre o trabalho e a solidão
— Mãe, por favor, só hoje. Eu preciso ir ao trabalho, a creche está fechada, e não tenho com quem deixar as crianças. — Minha voz treme, quase implorando, enquanto seguro o telefone com uma das mãos e tento acalmar o choro do Lucas, meu caçula, com a outra.
Do outro lado da linha, o silêncio de Dona Lourdes pesa mais do que qualquer palavra. Finalmente, ela responde, seca:
— Ana Paula, já criei meus filhos. Agora é sua vez. Eu também preciso de paz, minha filha.
A ligação termina, e o vazio da sala parece me engolir. O relógio marca 6h40 da manhã. O cheiro de café passado ainda paira no ar, mas não me traz conforto. Meus filhos — Lucas, de dois anos, Mariana, de quatro, e Gabriel, de seis — me olham com olhos grandes, esperando que eu resolva tudo, como sempre. Mas eu não sei como.
Desde o acidente do Rogério, meu marido, há pouco mais de um ano, minha vida virou um campo de batalha. Ele saiu para trabalhar numa manhã chuvosa e nunca mais voltou. Um caminhão atravessou o sinal vermelho na Avenida do Contorno, e tudo acabou ali. Fiquei sozinha, com três crianças pequenas e uma dor que não cabe no peito.
No início, achei que minha mãe seria meu porto seguro. Ela sempre foi dura, mas pensei que, diante da tragédia, ela abriria o coração. Mas não. Ela se fechou ainda mais. — Já fiz minha parte, Ana. Agora é com você. — repetia, como se fosse um mantra. Eu tentava entender, tentava não julgar, mas cada negativa dela era como uma facada.
No trabalho, as coisas não são mais fáceis. Sou auxiliar administrativa numa clínica de exames, e meu chefe, Seu Cláudio, já deixou claro que não aceita atrasos. — Ana, eu entendo sua situação, mas a empresa precisa de compromisso — ele disse, olhando por cima dos óculos, enquanto eu tentava explicar o motivo de mais um atraso. Senti vontade de gritar, de chorar, de sumir. Mas respirei fundo e pedi desculpas.
A rotina é um malabarismo impossível. Acordo antes do sol, preparo o café, arrumo as crianças, tento não chorar no banho. Levo Gabriel para a escola, Mariana para a creche, Lucas fica comigo até eu conseguir alguém para olhar ele — geralmente uma vizinha, Dona Cida, que faz o que pode, mas também tem seus próprios netos para cuidar. Às vezes, pago uma moça do bairro, mas o dinheiro mal dá para o básico. O aluguel, a luz, o gás, a comida. Tudo pesa.
À noite, quando finalmente consigo colocar as crianças na cama, sento no sofá e olho para o teto. O silêncio da casa é ensurdecedor. Sinto falta do Rogério, do jeito como ele fazia piada até nos piores momentos. Sinto falta de ter alguém para dividir o peso, para segurar minha mão. Sinto falta de ser filha, de poder correr para o colo da minha mãe e ouvir que tudo vai ficar bem.
Mas Dona Lourdes não é dessas. Ela foi criada na roça, endurecida pela vida, e sempre disse que cada um tem que dar conta do seu próprio fardo. — Eu criei você e seus irmãos sozinha, Ana. Não morri por isso. — Ela repete, como se isso fosse consolo. Mas não é. É só mais uma parede entre nós.
Outro dia, tentei conversar com ela de novo. Fui até a casa dela, as crianças brincando no quintal, enquanto eu sentava na cozinha, sentindo o cheiro de feijão no fogão.
— Mãe, eu não estou pedindo pra senhora criar meus filhos. Só preciso de uma ajuda de vez em quando. Eu tô cansada, mãe. Tô sozinha.
Ela me olhou, os olhos duros, mas vi um brilho de tristeza ali. — Você acha que eu não tô cansada também? Eu trabalhei a vida inteira, Ana. Agora quero um pouco de sossego. Não é justo comigo.
Fiquei sem resposta. Não é justo. Mas e comigo? E com meus filhos? Não é justo com ninguém, mas a vida não se importa com justiça.
Na volta pra casa, Mariana perguntou:
— Mamãe, por que a vovó não gosta da gente?
Meu coração se quebrou em mil pedaços. — Não é isso, filha. A vovó só tá cansada. — Mas nem eu acreditava nisso.
Os dias vão passando, um igual ao outro. Às vezes, penso em desistir de tudo, largar o emprego, viver só para os meus filhos. Mas sei que não posso. Eles precisam de comida, de escola, de um teto. Preciso ser forte, mesmo quando tudo dentro de mim quer desabar.
No domingo, depois do almoço, sentei na varanda com Gabriel. Ele me abraçou forte e disse:
— Mamãe, eu cuido de você quando crescer, tá?
Chorei baixinho, sem que ele visse. Porque, no fundo, é isso: a gente se cuida como pode. Eu cuido deles, eles cuidam de mim. E seguimos, um dia de cada vez.
Às vezes, me pego pensando se um dia minha mãe vai entender o quanto dói precisar dela e não ter. Se um dia ela vai olhar para mim e ver não só a filha adulta, mas a menina assustada que ainda mora aqui dentro. Será que um dia ela vai me abraçar de verdade?
E vocês, já sentiram esse vazio, essa solidão dentro da própria família? Até onde vai o dever de uma mãe? E o de uma filha?