“Não sei mais como viver. A solidão e a velhice me assustam…” O desabafo de uma mulher que sobreviveu a tudo e ficou sozinha
— Dona Lúcia, a senhora vai querer o pão de sempre? — gritou o Seu Jorge, da padaria, lá da calçada, enquanto eu tentava abrir a janela emperrada do meu apartamento. A voz dele ecoou pelo corredor vazio, e por um instante, senti um calorzinho no peito. Mas logo o silêncio voltou, pesado, sufocante. Eu moro sozinha há quase dez anos, desde que o Paulo, meu marido, se foi. O câncer levou ele rápido demais, e eu fiquei aqui, nesse apartamento pequeno em Osasco, cercada de lembranças e de móveis antigos que já viram mais alegria do que eu mesma.
Quando o Paulo partiu, achei que meus filhos iam me ajudar a segurar as pontas. Mas a vida deles foi tomando outros rumos. O André se mudou pra Curitiba, casou, teve filhos, e agora só liga no Natal. A Mariana, minha menina, foi pra Brasília atrás de um emprego melhor. No começo, ela me ligava toda semana, mas agora, às vezes, esquece até do meu aniversário. Eu entendo, sabe? A vida é corrida, o mundo não para pra ninguém. Mas dói. Dói demais.
Hoje, acordei com o peito apertado. O relógio marcava seis da manhã, e o sol nem tinha dado as caras direito. Sentei na beirada da cama e fiquei olhando pro retrato do Paulo na cômoda. — O que eu faço agora, hein, Paulo? — sussurrei, esperando uma resposta que nunca vem. Levantei, fiz meu café preto, do jeito que ele gostava, e sentei na mesa da cozinha. O silêncio era tão grande que dava pra ouvir o barulho do meu coração batendo.
A solidão é uma coisa que a gente aprende a conviver, mas nunca se acostuma. No começo, eu tentava preencher o vazio: fazia crochê, assistia novela, ia na igreja. Mas, com o tempo, até essas coisas foram perdendo a graça. As amigas de antigamente também sumiram. Algumas morreram, outras mudaram de bairro, e as poucas que restaram estão tão cansadas quanto eu.
Outro dia, a vizinha do 304, a Dona Cida, bateu na minha porta. — Lúcia, você não quer descer pra jogar uma conversa fora? — Eu inventei uma desculpa qualquer, disse que tava cansada. Mas a verdade é que eu não queria que ela visse meus olhos inchados de tanto chorar. Tem dias que a tristeza me pega de jeito, e eu só queria sumir.
Lembro de quando a casa era cheia. O André correndo pela sala, a Mariana brincando de boneca no tapete, o Paulo rindo alto, contando piada ruim. Agora, tudo o que me resta são as vozes deles gravadas na minha memória. Às vezes, fecho os olhos e quase consigo sentir o cheiro do feijão da minha mãe, ouvir o barulho da chuva batendo no telhado da casa velha em Minas, onde cresci. Mas tudo isso parece tão distante, como se fosse de outra vida.
A pior parte da velhice não é a dor nas costas, nem o remédio caro. É o medo. Medo de adoecer e não ter quem cuide de mim. Medo de cair no banheiro e ficar horas esperando alguém aparecer. Medo de morrer sozinha, sem ninguém pra segurar minha mão. Eu vejo as notícias na televisão, histórias de idosos abandonados, e me pergunto se é esse o destino de todo mundo que envelhece.
Outro dia, tentei ligar pra Mariana. O telefone tocou, tocou, e caiu na caixa postal. Deixei um recado, mas ela não retornou. Fiquei sentada na poltrona, olhando pro telefone, como se ele fosse tocar de novo. Mas não tocou. Senti uma raiva misturada com tristeza. — Será que eu errei como mãe? Será que fui dura demais, ou talvez boa demais? — Essas perguntas me atormentam nas noites longas, quando o sono não vem.
No domingo passado, resolvi ir à feira. Coloquei meu vestido azul, aquele que o Paulo gostava, e fui andando devagar pela rua. O cheiro de pastel, o barulho das pessoas, tudo me fez lembrar dos tempos em que a família ia junto. Comprei umas frutas, troquei duas palavras com a moça da banca, mas logo voltei pra casa. O peso das sacolas era menor do que o peso no meu peito.
Às vezes, penso em vender tudo e ir morar num asilo. Pelo menos lá teria gente pra conversar, alguém pra dividir a solidão. Mas aí lembro do orgulho, da vergonha. — Eu, Lúcia, criada na roça, mãe de dois filhos, terminar meus dias num asilo? — Não sei se teria coragem. Mas também não sei quanto tempo mais aguento essa vida de silêncio.
Outro dia, o André me mandou uma mensagem: “Mãe, desculpa não ter ligado antes. As crianças estão doentes, o trabalho tá puxado. Te amo.” Fiquei feliz, mas também triste. Porque amor de longe não aquece a cama fria, não enche a casa de risada. Amor de longe é só palavra, e palavra voa com o vento.
No Natal passado, a Mariana veio me visitar. Trouxe um panetone, me deu um abraço apertado. Mas ficou só duas horas, porque tinha que pegar o ônibus de volta pra Brasília. Quando ela foi embora, sentei no sofá e chorei baixinho, pra ninguém ouvir. O cheiro do perfume dela ficou na sala por dias, como se fosse um lembrete de que eu ainda sou mãe, mesmo que só de vez em quando.
A vida é feita de escolhas, dizem. Eu escolhi ser mãe, ser esposa, cuidar da casa, abrir mão dos meus sonhos pra ver os outros felizes. Não me arrependo, mas às vezes me pergunto: e se eu tivesse feito diferente? E se tivesse estudado mais, viajado, conhecido outros lugares? Será que estaria menos sozinha agora?
Outro dia, acordei com uma dor forte no peito. Achei que era o fim. Sentei na cama, respirei fundo, e esperei passar. Não contei pra ninguém. Pra quê? Quem viria me socorrer? Fiquei pensando no Paulo, nos filhos, na vida que passou tão rápido. — Será que alguém vai sentir minha falta quando eu me for? —
A solidão é uma sombra que não desgruda. Tento ser forte, sorrir pra vizinha, fingir que tá tudo bem. Mas, no fundo, só queria um pouco de companhia, alguém pra dividir o café da manhã, pra conversar sobre besteira, pra segurar minha mão quando o medo apertar.
Às vezes, olho pela janela e vejo as crianças brincando no parquinho do condomínio. Sinto uma saudade imensa de quando meus filhos eram pequenos, de quando a vida parecia ter sentido. Agora, tudo o que me resta é esperar o tempo passar, torcendo pra que amanhã seja menos dolorido que hoje.
Será que é assim com todo mundo? Será que a velhice é sempre tão solitária? Ou será que ainda existe esperança pra quem já perdeu quase tudo?
Eu queria saber: alguém aí sente esse vazio também? Como vocês lidam com a solidão e o medo de envelhecer sozinhos?