Mosaico de Flores: Fragmentos de uma Vida

— Ana Paula, você vai ficar aí deitada até quando? — a voz da minha mãe atravessou a porta como uma faca, cortando o silêncio do meu quarto. Eu estava de olhos fechados, tentando ignorar o peso do mundo, mas era impossível. O cheiro de café queimado vinha da cozinha, e o rádio velho tocava uma música sertaneja qualquer. Mariana, minha irmã mais nova, estava sentada na cama ao lado, com as pernas cruzadas, lendo alto um capítulo de biologia.

— Mãe, só mais cinco minutos — murmurei, mas sabia que era inútil. Ela nunca aceitava desculpas. Mariana me olhou com aquele olhar de quem julga, mas finge que não.

O celular vibrou na minha mão. Uma mensagem do Rafael. Meu coração disparou. “Preciso falar com você. Agora.” Sentei na cama, sentindo o peso do mundo nas costas. Mariana fechou o livro com força, me lançando um olhar de desaprovação.

— De novo esse Rafael? Você não cansa de sofrer, Ana? — ela disse, com aquela voz irritante de quem acha que sabe tudo.

— Cuida da sua vida, Mariana — respondi, mas minha voz saiu fraca. Eu sabia que ela estava certa. Rafael era um capítulo que eu não conseguia fechar, mesmo sabendo que só me fazia mal.

Levantei da cama, joguei o celular em cima do travesseiro e fui para o banheiro. Olhei meu reflexo no espelho: olheiras profundas, cabelo desgrenhado, olhos vermelhos de tanto chorar na noite anterior. Lavei o rosto, tentando apagar as marcas do passado, mas elas estavam gravadas na pele.

Na cozinha, minha mãe me esperava com a cara fechada. — Você precisa arrumar um emprego, Ana Paula. Não dá mais pra ficar nessa vida de estudante fracassada. Olha a sua irmã, já passou em três faculdades. E você?

Engoli em seco. O café estava amargo, mas engoli mesmo assim. — Eu tô tentando, mãe. Não é fácil.

— Nada é fácil, minha filha. Mas a vida não espera. — Ela virou as costas, batendo a panela na pia.

Peguei o celular de novo. Rafael insistia: “Me encontra na praça. É sério.” Senti um frio na barriga. Sabia que não devia ir, mas alguma coisa em mim precisava de respostas. Saí de casa sem avisar ninguém, ouvindo Mariana gritar atrás de mim: — Vai correr atrás de quem não te quer de novo, né?

A praça estava vazia, o sol forte batendo nas pedras portuguesas. Rafael estava lá, sentado no banco de sempre, com o boné virado pra trás e o olhar perdido. Quando me viu, levantou rápido.

— Ana, desculpa te chamar assim, mas eu precisava falar. — Ele parecia nervoso, as mãos suando. — Eu… eu vou embora pra São Paulo. Consegui um emprego lá. Amanhã.

Senti o chão sumir sob meus pés. — E você me chama aqui pra dizer isso? Depois de tudo?

— Eu não podia ir sem te ver. Sem te pedir desculpa por tudo. Eu sei que te magoei, mas… — Ele abaixou a cabeça, a voz falhando.

— Você sempre faz isso, Rafael. Some, volta, promete mudar. E eu fico aqui, esperando. — As lágrimas vieram sem que eu pudesse controlar. — Vai embora, Rafael. Vai viver sua vida. Eu preciso aprender a viver a minha.

Voltei pra casa com o coração em pedaços. Minha mãe me esperava na sala, braços cruzados. — Onde você estava?

— Fui resolver minha vida, mãe. — Passei direto, subindo as escadas. Mariana estava no quarto, fingindo que estudava, mas eu sabia que ela ouvia tudo.

Deitei na cama, encarando o teto. O celular vibrou de novo. Era uma mensagem da minha amiga Letícia: “Vamos sair hoje? Você precisa distrair a cabeça.”

Pensei em recusar, mas algo em mim queria mudar. Queria sair daquele ciclo de dor e arrependimento. Respondi: “Vamos. Me busca às oito.”

À noite, Letícia chegou com seu carro velho, tocando funk alto. — Bora, Ana! Hoje é dia de esquecer homem!

No bar, as luzes coloridas, o cheiro de cerveja e fritura, as risadas altas. Por um momento, esqueci dos problemas. Dancei, ri, bebi mais do que devia. Mas, no fundo, a dor ainda estava lá, escondida, esperando a hora de voltar.

Na volta pra casa, Letícia me olhou séria. — Você precisa se valorizar, Ana. Não pode deixar que ninguém te faça sentir menos do que você é.

— Eu sei, Le. Mas é difícil. Parece que tudo dá errado pra mim. Minha mãe me odeia, minha irmã me despreza, o Rafael vai embora…

— Você precisa se amar primeiro. Só assim as coisas mudam.

Cheguei em casa de madrugada. Minha mãe estava acordada, sentada na cozinha, chorando baixinho. Sentei ao lado dela, sem dizer nada. Ficamos em silêncio por um tempo.

— Desculpa, mãe. Eu sei que te decepciono.

Ela enxugou as lágrimas. — Eu só quero que você seja feliz, Ana Paula. Só isso.

Naquela noite, chorei como nunca. Chorei por tudo que perdi, por tudo que deixei de ser, por todas as vezes que me deixei em segundo plano. Mas, pela primeira vez, senti uma vontade real de mudar.

No dia seguinte, acordei cedo. Preparei o café, arrumei a casa, ajudei Mariana com os estudos. Mandei currículos, liguei para empresas, fui atrás de oportunidades. Não foi fácil. Recebi muitos “não”, mas não desisti.

Meses se passaram. Consegui um estágio numa floricultura do bairro. O trabalho era simples, mas me dava prazer. Cuidar das plantas, ver as flores desabrochando, sentir o cheiro da terra molhada. Era como se, aos poucos, eu também estivesse florescendo.

Minha relação com minha mãe melhorou. Mariana passou na faculdade dos sonhos e foi morar em outra cidade. Rafael nunca mais deu notícias. Às vezes, ainda doía, mas aprendi a lidar com a saudade.

Hoje, sentada entre vasos de orquídeas e girassóis, penso em tudo que vivi. Penso em quantas vezes me deixei abalar por palavras duras, por amores errados, por expectativas alheias. E me pergunto: quantas de nós, mulheres brasileiras, já não passamos por isso? Quantas já não se sentiram perdidas, sozinhas, sem rumo?

Será que um dia a gente aprende a se amar de verdade? Será que um dia a gente para de buscar aprovação dos outros e começa a florescer por si mesma?