Tudo vai dar certo, filho…
— Henrico, filho, sou eu… a mamãe.
A voz dela, sempre um pouco rouca, ecoou no meu ouvido enquanto eu olhava para o teto do meu quarto, tentando ignorar o calor e o barulho distante dos carros na avenida. Eu sabia que era ela, claro. O nome dela aparece na tela do celular, mas ela insiste nesse ritual, como se o tempo não tivesse passado, como se eu ainda fosse aquele menino que precisava de confirmação para tudo.
— Oi, mãe. Tá tudo bem? — perguntei, já esperando a ladainha de sempre: reclamação do vizinho, da conta de luz, do cachorro doente.
Mas, dessa vez, o silêncio dela foi mais longo. Senti um aperto no peito.
— Filho… eu caí hoje.
A frase veio baixa, quase um sussurro. Sentei na cama, o suor escorrendo pelas costas.
— Como assim, mãe? Onde você tá? Se machucou?
— Foi no banheiro. Tava escorregadio, sabe? Mas já passou, já passou… só queria ouvir sua voz.
Eu sabia que não tinha passado. Minha mãe nunca foi de pedir ajuda, sempre foi dura, dessas mulheres que criam filho sozinha, que enfrentam fila de hospital, que brigam com gerente de banco. Mas agora, aos 68 anos, morando sozinha num apartamento antigo no bairro Floresta, ela estava mudando. E eu, Henrico, seu único filho, não sabia lidar com isso.
— Mãe, você precisa de alguém aí com você. Já falei pra senhora vir morar comigo.
— E largar minha casa? Meu jardim? E o Zeca, quem vai cuidar dele?
O Zeca era o cachorro vira-lata que ela pegou na rua, o companheiro de todas as horas.
— Mãe, eu trabalho o dia inteiro, não posso ficar tranquilo sabendo que a senhora tá aí sozinha.
— Eu me viro, filho. Sempre me virei.
A conversa terminou como sempre: eu frustrado, ela teimosa. Mas aquela noite foi diferente. Fiquei rolando na cama, ouvindo o ventilador velho ranger, pensando no que fazer.
No dia seguinte, fui até o apartamento dela. O prédio era antigo, sem elevador, cheiro de café e mofo misturados. Dona Lourdes me recebeu com um sorriso amarelo, o braço roxo escondido sob a manga comprida.
— Não precisava vir, Henrico.
— Precisa sim, mãe.
Fiz café, ajeitei a cozinha, tentei convencê-la de novo a aceitar uma cuidadora. Ela se irritou.
— Não sou inválida, menino!
— Não é isso, mãe. Mas e se acontecer de novo?
Ela desviou o olhar, mexendo no açúcar.
— Você acha que eu não sinto medo?
A frase ficou no ar. Pela primeira vez, vi minha mãe pequena, frágil. Senti raiva de mim mesmo por não perceber antes.
Os dias passaram. Voltei para minha rotina: trabalho, trânsito, supermercado. Mas a imagem dela, sozinha naquele apartamento, não saía da minha cabeça. Comecei a ligar todo dia. Às vezes, ela não atendia. Meu coração disparava.
— Mãe, por que não atende?
— Tava no quintal, Henrico. Não precisa se preocupar tanto.
Mas eu me preocupava. E comecei a me afastar dos amigos, da namorada, de mim mesmo. Tudo girava em torno dela.
Um domingo, cheguei de surpresa. Encontrei o portão aberto, o Zeca latindo. Entrei correndo. Ela estava sentada no sofá, olhando pro nada.
— Mãe!
Ela sorriu, mas os olhos estavam vermelhos.
— Tô bem, filho. Só cansada.
Sentei ao lado dela. Ficamos em silêncio.
— Sabe, Henrico… às vezes eu penso que devia ter ido embora com seu pai.
A frase me atingiu como um soco. Meu pai nos deixou quando eu tinha sete anos. Nunca mais voltou.
— Não fala isso, mãe.
— É só um pensamento bobo. Mas a solidão pesa, filho.
Eu não sabia o que dizer.
Naquela noite, liguei para minha tia, irmã dela.
— Lourdes não aceita ajuda, Henrico. Sempre foi assim. Mas ela precisa de você.
— E eu? Quem cuida de mim?
A pergunta saiu antes que eu pudesse segurar.
— Você é o filho, Henrico.
Fiquei com raiva. Por que tudo sempre sobra pra mim? Por que ninguém entende que eu também tenho medo, que eu também me sinto sozinho?
Os meses foram passando. Minha mãe foi piorando. Esquecia as panelas no fogo, confundia os remédios. Um dia, a vizinha ligou:
— Henrico, sua mãe tá trancada no banheiro faz uma hora.
Corri pra lá. Arrombei a porta. Ela estava caída, chorando.
— Me desculpa, filho.
Levei ela pro hospital. Fratura no braço. Fiquei com ela na enfermaria, ouvindo o bip das máquinas, o choro dos outros pacientes.
— Não quero ser um peso pra você, Henrico.
— A senhora nunca foi um peso, mãe.
Mas era mentira. Eu sentia o peso. O peso da responsabilidade, da culpa, do medo.
Depois do hospital, ela aceitou uma cuidadora. Mas chorava todo dia.
— Não quero estranha na minha casa.
— É pra sua segurança, mãe.
Eu tentava ser firme, mas por dentro estava despedaçado. Minha vida virou um ciclo de culpa e preocupação.
Uma noite, sentei na varanda do apartamento dela, olhando as luzes da cidade. Minha mãe dormia, a cuidadora na sala. Pensei em tudo que tinha perdido: amigos, amores, sonhos. Pensei no menino que eu fui, no homem que me tornei.
Será que algum dia vou conseguir cuidar de mim mesmo? Ou vou passar a vida tentando salvar alguém, tentando preencher o vazio que meu pai deixou?
Às vezes, me pergunto: até onde vai o amor de um filho? Até onde vai o sacrifício? E quem cuida de quem cuida?