Não Há Nada a Lamentar

— E agora, Ana? O que você vai fazer com tanto tempo livre? — Lucas perguntou, sem tirar os olhos do rio, como se a resposta estivesse escondida entre as ondas sujas e lentas do Tietê.

Suspirei, tentando parecer leve, mas a verdade era que o peso da pergunta me esmagava. — Sei lá, Lucas. Acho que vou dormir até tarde, ler uns livros, caminhar pelo bairro… — minha voz saiu baixa, quase um sussurro. Não queria admitir que, por dentro, eu estava perdida. A faculdade de Direito tinha sido um sonho da minha mãe, não meu. Agora, com o semestre terminado, eu me sentia à deriva, sem saber se queria voltar para mais um ciclo de provas, trabalhos e cobranças.

Lucas jogou mais um pedaço de pão na água. — Você já pensou em viajar? Sei lá, ir pra praia, pro interior… fugir um pouco daqui?

Balancei a cabeça. — Não posso. Minha mãe precisa de mim em casa. Desde que meu pai foi embora, ela não consegue segurar as pontas sozinha. E tem a minha irmã, a Bia, que ainda tá no ensino médio. Não posso largar tudo e sumir.

Ele me olhou, finalmente, com aquela expressão de quem entende, mas não sabe o que dizer. — Você nunca pensa em você, Ana. Sempre colocando todo mundo na frente.

Fiquei em silêncio. Era verdade. Desde pequena, aprendi que meu papel era cuidar, ajudar, ser forte. Meu pai sempre dizia: “Você é a mulher da casa agora”. E eu acreditei. Mas, às vezes, tudo o que eu queria era ser só Ana, sem títulos, sem responsabilidades.

O celular vibrou no meu bolso. Era uma mensagem da minha mãe: “Filha, pode passar no mercado e trazer arroz? O nosso acabou.”

— Preciso ir — falei, levantando. Lucas segurou minha mão por um instante.

— Ana, você merece ser feliz também. Não esquece disso.

Sorri, mas por dentro senti uma pontada de tristeza. Caminhei até o mercado, sentindo o peso de cada passo. As ruas de Santana estavam cheias, o barulho dos carros misturava-se ao cheiro de pastel vindo da feira. Peguei o arroz, paguei com o pouco dinheiro que tinha e voltei para casa.

Minha mãe estava na cozinha, lavando a louça. O rosto cansado, as olheiras profundas. — Oi, filha. Obrigada por trazer o arroz. Como foi lá com o Lucas?

— Foi bom, mãe. Só conversamos um pouco.

Ela me olhou de relance, enxugando as mãos no pano de prato. — Você merece descansar, Ana. Eu sei que peço muita coisa, mas…

— Tá tudo bem, mãe. Eu gosto de ajudar — menti, porque não queria vê-la ainda mais preocupada.

Bia apareceu na porta, o uniforme da escola amarrotado. — Ana, você pode me ajudar com matemática depois?

— Claro, Bia. Só vou tomar um banho primeiro.

No chuveiro, deixei a água quente escorrer pelo corpo, tentando lavar o cansaço, a frustração, a sensação de que minha vida estava parada enquanto todo mundo seguia em frente. Pensei em Lucas, na leveza com que ele falava de viajar, de fugir. Pensei em mim, presa a uma rotina que não escolhi.

Naquela noite, depois de ajudar Bia com os exercícios, sentei na varanda e olhei para o céu poluído de São Paulo. As estrelas quase não apareciam, escondidas atrás da fumaça e das luzes da cidade. Peguei meu caderno e comecei a escrever:

“Às vezes, sinto que minha vida não é minha. Que cada escolha já foi feita por mim antes mesmo de eu nascer. Será que um dia vou ter coragem de mudar?”

Os dias seguintes passaram arrastados. Acordava cedo, ajudava minha mãe, estudava com Bia, tentava ler um livro, mas a cabeça não deixava. Lucas mandava mensagens, me chamava para sair, mas eu sempre arranjava uma desculpa. Sentia vergonha de não ter nada interessante para contar, de não ter sonhos próprios.

Uma tarde, enquanto lavava a louça, ouvi minha mãe chorando no quarto. Fui até lá, bati de leve na porta.

— Mãe, tá tudo bem?

Ela enxugou as lágrimas rapidamente. — Tá sim, filha. Só tô cansada.

Sentei ao lado dela na cama. — Você sente falta do pai?

Ela hesitou, depois assentiu. — Sinto. Não pelo homem que ele era, mas pela ajuda, pela companhia. Tudo ficou tão difícil depois que ele foi embora. Às vezes, penso que você e a Bia mereciam uma vida melhor.

Segurei sua mão. — A gente se vira, mãe. Juntas.

Naquela noite, não consegui dormir. Fiquei pensando em tudo o que minha mãe abriu mão por nós. Em tudo o que eu também estava abrindo mão. Será que era justo? Será que era isso que ela queria para mim?

No dia seguinte, Lucas apareceu em casa sem avisar. — Ana, vamos dar uma volta? Preciso conversar.

Saímos andando pelo bairro, em silêncio. Ele parecia nervoso.

— O que foi, Lucas?

— Eu consegui um estágio em Belo Horizonte. Vou embora semana que vem.

Meu coração disparou. — Nossa… que notícia boa. Parabéns.

Ele me olhou nos olhos. — Eu queria que você fosse comigo.

Fiquei sem ar. — Lucas, eu não posso. Minha mãe, a Bia…

— Ana, você tem o direito de viver sua vida. Sua mãe vai entender. Você não pode se anular pra sempre.

Senti as lágrimas subirem, mas segurei. — Não é tão simples assim. Você não entende.

— Eu entendo, sim. Mas você precisa escolher. Ou você vive pra você, ou vai passar a vida inteira vivendo pros outros.

Voltei pra casa com o peito apertado. Minha mãe percebeu meu estado.

— O que aconteceu, filha?

— Lucas vai embora. Me chamou pra ir junto.

Ela ficou em silêncio por um tempo. — E o que você quer?

— Eu não sei, mãe. Tenho medo de te deixar sozinha, de deixar a Bia…

Ela sorriu triste. — Eu sempre quis que você fosse livre, Ana. Não quero que você repita meus erros. Se quiser ir, vá. A gente dá um jeito aqui.

Chorei, abraçada a ela. Pela primeira vez, senti que talvez eu pudesse escolher. Que talvez minha vida pudesse ser minha, afinal.

Na semana seguinte, arrumei minhas coisas. Bia chorou, mas prometeu estudar bastante. Minha mãe me abraçou forte, dizendo que sempre estaria comigo, não importa a distância.

No ônibus para Belo Horizonte, olhei pela janela e vi a cidade ficando para trás. O coração apertado, mas uma esperança nova nascendo.

Será que finalmente estou vivendo por mim? Será que, um dia, vou conseguir deixar a culpa para trás e ser feliz de verdade? E você, já teve que escolher entre você e sua família? O que faria no meu lugar?