O que restou do nosso almoço: entre marmitas, segredos e saudade

— De novo arroz, feijão e frango grelhado? — ouvi a voz do Krystian ecoando pela cozinha, enquanto eu fechava a tampa da marmita com força demais. Ele nem olhou pra mim, só continuou mexendo no celular, largado na mesa da sala. — Você quer que eu faça o quê? Risoto de camarão todo dia? — rebati, tentando não deixar a voz embargar. O cheiro do tempero ainda pairava no ar, misturado ao ranço da nossa rotina.

Eu sou Aninha, 32 anos, professora de português numa escola estadual aqui em Campinas. Casada há oito anos com Krystian, vendedor numa loja de material de construção. A gente se conheceu na faculdade, apaixonou rápido, casou cedo. No começo era tudo leve, divertido. Agora… agora parecia que a vida tinha virado um looping de cobranças e silêncios.

Naquela manhã, o clima já estava estranho. Ele saiu atrasado, nem me deu beijo. Só pegou a marmita e foi embora. Fiquei olhando pra porta fechada, sentindo um aperto no peito. Será que era só cansaço? Ou tinha algo mais?

No grupo das amigas no WhatsApp, desabafei:

— Meninas, vocês também sentem que ninguém valoriza o que a gente faz?

A Luana respondeu na hora:

— Amiga, aqui em casa é igualzinho! Meu marido só reclama da comida. Se faço lasanha, queria feijoada. Se faço feijoada, queria pizza.

Sorri triste pro celular. Não era só comigo.

No fim do expediente, resolvi passar no mercado pra comprar algo diferente pro jantar. Quem sabe um agrado mudasse o clima? Peguei um pacote de macarrão parafuso, molho de tomate e queijo ralado. No caixa, encontrei a Dona Cida, vizinha do 302.

— Ô Aninha! Tá sumida! — ela disse, ajeitando os óculos na ponta do nariz.

— Correria, Dona Cida… — respondi.

— E o Krystian? Tá tudo bem?

— Tá sim… — menti.

Cheguei em casa cansada. Preparei o macarrão com carinho, pus a mesa bonitinha. Quando ele chegou, largou a mochila no sofá e foi direto pro banho. Nem notou o jantar especial.

— Fiz macarrão hoje — falei alto.

— Não tô com muita fome não — respondeu do banheiro.

Sentei sozinha à mesa. O barulho do chuveiro era como uma chuva fria dentro de mim.

No dia seguinte, acordei antes dele. Preparei café, pus pão na mesa. Ele saiu apressado de novo. Pegou a marmita sem olhar pra mim.

Na escola, tentei me distrair com as crianças. Mas minha cabeça estava longe. Será que ele não me amava mais? Será que tinha outra?

À tarde, resolvi passar na loja onde ele trabalhava. Queria fazer uma surpresa. Quando cheguei lá, vi ele conversando animado com uma colega loira do caixa. Meu coração disparou. Fiquei parada na porta, sem coragem de entrar.

Voltei pra casa arrasada. Chorei baixinho no banheiro pra ninguém ouvir.

À noite, ele chegou tarde. Disse que ficou resolvendo estoque. Não perguntei nada. Só entreguei a marmita do dia seguinte e fui dormir virada pra parede.

Os dias foram passando assim: ele cada vez mais distante; eu cada vez mais insegura.

Até que um sábado à tarde, enquanto arrumava o armário da cozinha, achei uma pilha de embalagens de miojo escondidas atrás das panelas. Fiquei olhando aquilo sem entender. Por que ele estava comendo miojo se eu fazia comida fresca todo dia?

Esperei ele chegar pra perguntar:

— Krystian, por que você tá comendo miojo escondido?

Ele ficou vermelho na hora:

— Não é nada… só às vezes bate vontade…

— Vontade de quê? De não comer minha comida?

Ele suspirou fundo:

— Não é isso… É que… sei lá… às vezes eu só queria comer besteira igual quando era solteiro. Sem ninguém olhando, sem obrigação…

Fiquei em silêncio. Doeu ouvir aquilo. Mas entendi na hora: não era sobre a comida. Era sobre nós dois.

— Você sente falta de quando era solteiro? — perguntei baixinho.

Ele demorou pra responder:

— Sinto falta de quando a gente ria à toa… De quando tudo era leve…

Sentei ao lado dele no sofá. Ficamos ali quietos um tempo.

— Eu também sinto — confessei.

Naquela noite, não fiz jantar nenhum. Pedi pizza pelo aplicativo e sentamos juntos na sala pra comer vendo TV, igual fazíamos no começo do namoro.

Aos poucos, fomos conversando mais. Ele contou das pressões no trabalho, do medo de não dar conta das contas da casa. Eu contei das minhas inseguranças, da solidão mesmo estando junto.

Decidimos tentar mudar pequenas coisas: menos cobrança, mais leveza. Um dia ele faz o jantar; no outro sou eu; às vezes pedimos comida pronta sem culpa.

Não foi fácil nem rápido. Ainda temos dias ruins. Mas aprendemos a falar o que sentimos antes que vire mágoa escondida atrás das panelas ou das embalagens de miojo.

Hoje olho pra trás e penso: quantos casais não se perdem assim? Quantos segredos bobos viram abismos?

E você aí do outro lado: já passou por isso? Já escondeu alguma saudade ou vontade boba do seu parceiro? O que você faria diferente se pudesse voltar atrás?