Remédio Para Todos os Problemas

— E agora, Rafa? — minha voz saiu trêmula, quase um sussurro, enquanto eu olhava para o teste de gravidez em cima da pia do banheiro do nosso minúsculo apartamento em Belo Horizonte. O silêncio dele foi como um soco no estômago. Eu sabia que ele estava tão assustado quanto eu, mas precisava de uma resposta, de um abraço, de qualquer coisa que me fizesse acreditar que não estávamos sozinhos.

Rafael passou a mão pelos cabelos, nervoso. — Calma, Luiza… A gente vai dar um jeito. Sempre demos, não demos? — Ele tentou sorrir, mas seus olhos estavam marejados. Eu queria acreditar nele, mas o medo era maior do que qualquer esperança naquele momento.

Conheci Rafael no segundo período da faculdade de Letras. Ele era aquele tipo de cara que todo mundo gostava: engraçado, gentil, sempre pronto pra ajudar. Morávamos no mesmo bloco do alojamento estudantil e, entre festas e trabalhos em grupo, nos apaixonamos. Era pra ser só mais uma história de amor universitária, dessas que acabam quando o semestre termina. Mas a vida tinha outros planos.

Quando contei pra minha mãe, ela ficou em choque. — Grávida? Agora? Você não pensa no seu futuro? — Ela chorou, gritou, me chamou de irresponsável. Meu pai ficou dias sem falar comigo. Só minha avó Dona Cida me abraçou forte e disse baixinho: — Filha, criança é bênção. Mas vai ser difícil. Muito difícil.

Os dias seguintes foram um turbilhão. Rafael tentou ser forte, mas eu via o desespero nos olhos dele toda vez que falávamos sobre dinheiro ou sobre como contar para os pais dele em Contagem. Ele trabalhava meio período numa papelaria e eu dava aulas particulares de português para pagar as contas do mês. Agora, tudo parecia impossível.

— Você pensou em… — Rafael hesitou. — Sei lá… Não ter o bebê?

Senti um frio na espinha. — Não consigo nem pensar nisso, Rafa. Não posso.

Ele assentiu em silêncio. Não tocamos mais no assunto.

Na faculdade, os olhares começaram. As amigas cochichavam pelos corredores. Uma delas, Camila, veio falar comigo no banheiro:

— Luiza, você vai largar o curso?
— Não sei ainda… — respondi.
— Se precisar de ajuda com as matérias, me chama. Sério.

Agradeci com um sorriso tímido. Mas sabia que a vida nunca mais seria a mesma.

Quando finalmente fomos à casa dos pais do Rafael, a mãe dele chorou e o pai ficou furioso:
— Você é um moleque! Vai largar tudo agora? Vai virar mais um desses que some e deixa a menina sozinha?

Rafael ficou vermelho de vergonha e raiva.
— Eu não vou abandonar a Luiza nem meu filho!

Voltamos para casa em silêncio. No ônibus lotado, ele segurou minha mão com força.
— Eu prometo que vou dar conta.

Mas as promessas pesam quando a realidade bate à porta.

O dinheiro começou a faltar antes mesmo da barriga crescer. Tive que trancar a faculdade no sexto mês porque não aguentava mais trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Rafael pegou mais horas na papelaria e começou a fazer bicos como entregador de aplicativo à noite.

As brigas vieram junto com o cansaço:
— Você só pensa em trabalhar! Nem conversa mais comigo! — gritei uma noite.
— E você acha que eu queria isso? Eu tô tentando! — ele respondeu, jogando a mochila no chão.

Chorei sozinha no banheiro enquanto ele saía pra mais uma entrega.

Quando nossa filha nasceu — Mariana, nome escolhido pela minha avó — tudo mudou e nada mudou ao mesmo tempo. O amor foi imediato, mas o medo também. As noites sem dormir, as contas atrasadas, as fraldas caras demais pro nosso bolso.

Minha mãe veio visitar e trouxe um pacote de fraldas e um bolo de fubá.
— Eu sei que errei com você — ela disse baixinho enquanto embalava Mariana nos braços. — Mas quero te ajudar agora.

Foi a primeira vez que chorei de alívio desde o início de tudo.

Rafael se desdobrava entre dois empregos e quase não parava em casa. Eu sentia falta dele, sentia falta de mim mesma antes de tudo isso. Às vezes olhava no espelho e mal me reconhecia: olheiras profundas, cabelo preso num coque desleixado, camiseta manchada de leite.

Um dia ele chegou tarde da noite e me encontrou chorando na cozinha.
— O que foi agora?
— Eu não aguento mais… Sinto que tô sozinha nessa!
— Você acha que eu não tô sofrendo também? — ele rebateu, cansado demais pra discutir.

O silêncio entre nós virou rotina. Mariana crescia linda e saudável, mas nosso amor parecia cada vez mais distante.

Foi Dona Cida quem me acordou pra vida:
— Filha, ninguém disse que seria fácil. Mas vocês precisam conversar. Se não cuidar do amor agora, ele morre.

Naquela noite sentei com Rafael na varanda do prédio velho onde morávamos.
— Rafa… Eu sinto sua falta. Sinto falta da gente rindo à toa na praça da faculdade…
Ele segurou minha mão.
— Eu também sinto sua falta, Luiza. Mas eu tenho tanto medo de falhar com vocês…

Choramos juntos pela primeira vez em meses. Decidimos procurar ajuda: terapia gratuita na universidade, conversar mais, dividir as tarefas da casa e do bebê.

Aos poucos fomos nos reencontrando. Voltei a estudar à distância quando Mariana fez um ano e Rafael conseguiu um emprego melhor numa editora pequena do centro.

Ainda temos dias difíceis. Ainda brigamos por bobagens e choramos de cansaço às vezes. Mas aprendemos que não existe remédio mágico pra todos os problemas — só coragem pra encarar cada dia juntos.

Às vezes olho pra Mariana dormindo e penso: será que fizemos as escolhas certas? Será que algum dia vou conseguir perdoar meus próprios erros?

E você aí do outro lado: já se sentiu perdido diante dos desafios da vida? O que te ajudou a seguir em frente quando tudo parecia impossível?