O Chá de Uma Só Saqueta e a Torta Esquecida: O Que Restou Aos 42 Anos
— Você acha mesmo que vale a pena, Luciana? — perguntou minha amiga Carla, enquanto mexia o café na padaria da esquina. — Esses aplicativos só têm homem enrolado.
Eu ri, mas por dentro sentia um frio na barriga. Fazer 42 anos tinha me dado um choque de realidade. Meus pais cobravam netos, minha irmã mais nova já tinha dois filhos e um casamento estável. Eu? Só histórias mal resolvidas e um apartamento silencioso em Belo Horizonte.
— Não sei, Carla. Mas não aguento mais esse vazio — confessei, olhando para fora, onde a chuva começava a engrossar.
Foi então que ela sugeriu: — Por que você não tenta conhecer alguém do jeito antigo? Sabe, amigos de amigos, eventos… Você é tão simpática!
Na semana seguinte, aceitei o convite de um colega do trabalho para um churrasco. Lá conheci o Eduardo. Ele tinha 45 anos, era professor de História, olhos castanhos intensos e um jeito calmo que me desconcertou. Conversamos sobre música mineira, política, infância no interior. Ele riu das minhas piadas, elogiou meu vestido azul.
No fim da noite, trocamos números. Passei os dias seguintes esperando uma mensagem. Quando chegou, quase deixei o celular cair de nervoso.
— Oi, Luciana! Que tal um chá aqui em casa sábado à tarde?
Fiquei animada. Queria impressionar. Passei na confeitaria mais cara do bairro e comprei uma torta de limão linda — dessas que a gente só vê em vitrine de novela. Escolhi uma blusa nova, fiz escova no cabelo.
Cheguei ao apartamento dele com o coração disparado. Eduardo abriu a porta sorrindo, mas percebi um cansaço nos olhos.
— Que bom que você veio! — disse ele, pegando a torta das minhas mãos. — Nossa, que capricho!
Entramos. O apartamento era simples, mas arrumado. Livros por toda parte, uma samambaia enorme na janela. Sentei no sofá enquanto ele ia até a cozinha.
Ouvi barulho de água fervendo. Ele voltou com duas xícaras e uma única saqueta de chá de camomila.
— Espero que não se importe — falou, colocando a saqueta em uma xícara e depois transferindo para a outra. — É o último chá que tenho.
Sorri sem graça. Ele guardou a torta na geladeira sem nem abrir a caixa.
Conversamos sobre trabalho, política, filmes antigos. Mas logo o assunto morreu. Eduardo parecia distante, olhando para o nada às vezes.
— Tá tudo bem? — perguntei, tentando quebrar o gelo.
Ele hesitou antes de responder:
— Desculpa… É que faz pouco tempo que minha mãe faleceu. Ainda tô meio perdido.
Meu coração apertou. Lembrei do luto pelo meu pai anos atrás — aquela sensação de andar por um mundo cinza.
— Sinto muito, Eduardo. Se quiser conversar…
Ele sorriu triste:
— Obrigado. Mas não quero te jogar esse peso logo no primeiro encontro.
O silêncio voltou. Eu mexia na xícara vazia, sentindo o cheiro fraco do chá reaproveitado. Olhei para a geladeira e pensei na torta esquecida ali dentro.
Depois de um tempo constrangedor, me despedi. No elevador, senti vontade de chorar — não pela rejeição, mas pela solidão escancarada naquela tarde.
Cheguei em casa e liguei para Carla:
— Foi horrível. Ele mal falou comigo, nem abriu a torta!
Ela riu:
— Amiga… Às vezes as pessoas estão tão machucadas que não conseguem nem aceitar carinho.
Passei os dias seguintes remoendo aquilo. Por que eu sempre esperava tanto dos outros? Por que achava que um encontro mudaria minha vida?
Uma semana depois, Eduardo mandou mensagem:
— Desculpa pelo sábado. Não estou pronto pra nada agora. Mas agradeço sua companhia.
Respondi com sinceridade:
— Tudo bem. Espero que você fique bem.
Naquela noite, sentei sozinha na cozinha com um pedaço da torta que trouxe de volta pra casa. Pensei nos anos que perdi esperando alguém me salvar da solidão. Lembrei dos conselhos da minha mãe: “Filha, felicidade não depende dos outros.”
No domingo seguinte, fui ao parque sozinha. Levei um livro e sentei sob uma árvore. Vi famílias brincando, casais de mãos dadas, crianças correndo atrás de pombos. Pela primeira vez em muito tempo, senti paz.
Talvez eu ainda encontre alguém especial — ou talvez não. Mas percebi que preciso aprender a gostar da minha própria companhia antes de tudo.
Será que a gente não se cobra demais? Será que não colocamos expectativas demais nos outros quando o vazio é nosso? O que vocês acham?