Não Há o Que Lamentar: Uma Vida Entre Escolhas e Renúncias

— Você vai sair assim, Mariana? — A voz da minha mãe ecoou pela casa, atravessando o cheiro de feijão queimado e o barulho da chuva batendo no telhado de zinco.

Eu já estava com a mão na maçaneta, mochila nas costas, coração disparado. — Vou, mãe. Preciso ir. — Minha voz saiu trêmula, mas firme. Ela apareceu na porta da cozinha, o rosto cansado, os olhos vermelhos de tanto chorar desde que meu pai foi embora de vez, há três meses.

— E se ele não aparecer? E se for só mais uma promessa? — Ela cruzou os braços, tentando esconder o medo atrás da raiva.

— Mãe, eu preciso tentar. Não aguento mais ficar aqui esperando a vida acontecer. — Senti as lágrimas queimando meus olhos, mas não deixei cair. Não na frente dela.

Meu irmãozinho, Lucas, apareceu atrás dela, segurando o carrinho quebrado. — Você volta amanhã? — perguntou baixinho.

Abaixei para ficar na altura dele. — Volto sim, Luquinha. Prometo. — Beijei sua testa suada e me levantei antes que minha mãe pudesse dizer mais alguma coisa.

Saí correndo pela rua enlameada do Jardim Ângela, desviando dos buracos e dos cachorros magros que sempre rondavam as calçadas. O ônibus já vinha lotado, mas consegui entrar espremida entre uma senhora com sacolas e um rapaz ouvindo funk alto no celular.

No caminho até o centro, pensei em tudo que estava deixando para trás: minha mãe sozinha, Lucas sem pai, a casa sempre faltando alguma coisa. Mas também pensei em mim — na Mariana que queria ser mais do que a filha da Dona Sônia e do Seu Jorge ausente.

Cheguei na rodoviária com o coração na boca. Rafael estava lá, encostado num pilar, mochila rasgada e olhar ansioso. — Achei que você não vinha — disse ele, tentando sorrir.

— Minha mãe quase me trancou em casa — respondi, tentando rir também.

— Pronta? — Ele estendeu a mão. Eu hesitei por um segundo. O plano era simples: pegar um ônibus para o litoral norte, tentar arrumar trabalho de temporada e juntar dinheiro para voltar a estudar. Mas nada era simples na nossa vida.

Pegamos o ônibus noturno para Ubatuba. No caminho, Rafael falou dos sonhos dele: ser músico, sair da quebrada, dar uma vida melhor pra mãe dele também. Eu falei dos meus: fazer faculdade de Letras, escrever um livro sobre mulheres como minha mãe.

Chegando lá, a realidade bateu forte. Dormimos duas noites na praia porque não tínhamos dinheiro para pousada. No terceiro dia, conseguimos um bico lavando pratos num quiosque. O dono era um senhor chamado Seu Zé Carlos, que tinha vindo do interior da Bahia há décadas e ria alto de tudo.

— Vocês acham que a vida é fácil? Aqui é ralação! Mas se quiserem trabalhar de verdade, amanhã tem serviço — disse ele.

Trabalhamos feito loucos. Eu lavava pratos até as mãos ficarem em carne viva; Rafael servia mesas e tocava violão nas noites de movimento. Às vezes dormíamos no depósito do quiosque; às vezes na areia mesmo.

No começo era aventura. Depois virou sobrevivência. O dinheiro mal dava pra comer direito. Liguei pra minha mãe algumas vezes:

— Filha, volta pra casa. Aqui pelo menos você tem cama e comida — ela dizia.

— Mãe, eu preciso tentar. Não quero viver presa nesse ciclo — respondia sempre.

Mas cada ligação era mais difícil. Lucas ficou doente uma semana; minha mãe chorava no telefone dizendo que não sabia mais o que fazer sem mim.

Rafael começou a se perder também. Bebia depois do expediente; brigava com outros garçons por gorjeta. Uma noite chegou sangrando:

— Foi só uma discussão boba — disse ele, mas eu sabia que era mais.

Comecei a sentir medo. Medo de não conseguir sair dali; medo de nunca realizar meus sonhos; medo de perder minha família de vez.

Numa madrugada chuvosa como aquela em que saí de casa, sentei sozinha na praia e chorei tudo que tinha segurado por meses. Lembrei das palavras da minha mãe: “Aqui pelo menos você tem cama e comida”. Lembrei do Lucas me perguntando se eu voltava amanhã.

No dia seguinte, pedi demissão ao Seu Zé Carlos.

— Vai desistir fácil assim? — perguntou ele.

— Não é desistir. É escolher minha família agora pra poder escolher meus sonhos depois — respondi.

Voltei pra São Paulo com uma mochila ainda mais leve e o coração pesado de dúvidas.

Minha mãe me recebeu com um abraço apertado e lágrimas nos olhos:

— Achei que nunca mais ia te ver — disse ela.

Lucas pulou no meu colo:

— Promete que não vai mais embora?

Prometi. E dessa vez cumpri.

Voltei a estudar à noite; arrumei um emprego de caixa num mercadinho do bairro; ajudei minha mãe em casa. Rafael ficou pelo litoral; nos falamos algumas vezes ainda, mas logo a vida nos separou de vez.

Anos depois, consegui entrar numa faculdade pública pelo ProUni. Me formei em Letras aos 27 anos — com minha mãe e Lucas na plateia chorando de orgulho.

Hoje dou aula numa escola estadual da periferia onde cresci. Vejo nos olhos das minhas alunas o mesmo brilho inquieto que eu tinha; vejo também o medo de errar e perder tudo.

Às vezes penso: será que teria sido diferente se eu tivesse ficado no litoral? Será que teria conseguido realizar meus sonhos mais cedo?

Mas então olho pra minha família reunida num domingo simples; vejo Lucas estudando pra ser engenheiro; vejo minha mãe sorrindo sem tanto peso nos ombros.

E penso: não há o que lamentar quando a gente escolhe com o coração.

Será que coragem é só ir embora? Ou também é saber voltar? E você: já precisou escolher entre seus sonhos e sua família?