O Destino de Halina: Entre Sorrisos e Silêncios

— Halina, você não vai dançar? — perguntou Marta, com um sorriso torto, já meio embriagada, enquanto a banda tocava um forró animado no palco improvisado do salão de festas.

Balancei a cabeça, tentando sorrir. — Não, Marta. Prefiro ficar aqui mesmo. — Meu olhar se perdeu entre as luzes coloridas e as vozes altas. O salão estava cheio de gente conhecida, mas eu me sentia invisível.

Meu marido, Paulo, estava ao meu lado, mas parecia a quilômetros de distância. Ele mexia no celular, rindo sozinho de alguma mensagem. O cheiro de vinho barato misturava-se ao perfume forte das mulheres e ao suor dos homens que dançavam sem parar. O aniversariante, seu João, chefe do Paulo há mais de vinte anos, rodopiava no centro da pista com uma energia invejável para seus sessenta e cinco anos. As mulheres cochichavam: “Que homem elegante…”, “Ainda dá um caldo…”. Eu só conseguia pensar em como tudo aquilo parecia uma encenação.

A mesa onde estávamos era um retrato do fim da festa: pratos sujos, copos pela metade, guardanapos amassados. Olhei para Paulo e tentei puxar assunto:

— Você viu como a filha do seu João cresceu? Está uma moça bonita.

Ele nem levantou os olhos do celular. — Uhum.

Senti uma pontada no peito. Não era só o cansaço da festa; era o cansaço de anos tentando manter um casamento que já não existia. Lembrei dos tempos em que dançávamos juntos, em que ele me olhava como se eu fosse a única mulher do mundo. Agora, éramos dois estranhos dividindo uma mesa destruída.

No canto oposto do salão, dois colegas discutiam alto sobre política. Um terceiro dormia com a cabeça apoiada nos braços, alheio ao barulho. A banda anunciou uma brincadeira: “Agora é hora do sorteio! Quem será o sortudo da noite?”

As pessoas se animaram. Cartõezinhos foram distribuídos nas mesas. Marta voltou correndo:

— Halina, pega um pra você! Vai que ganha alguma coisa!

Peguei o papel sem entusiasmo. Paulo nem se mexeu. O sorteio começou. Prêmios simples: um vinho, uma caixa de bombons, um jantar para dois em um restaurante da cidade.

Quando anunciaram meu número, demorei a perceber que era eu. Marta me cutucou:

— Vai lá! Ganhou!

Caminhei até o palco sob aplausos tímidos. O prêmio: um jantar romântico para dois. O microfone foi colocado na minha mão.

— E aí, Halina? Vai levar o maridão? — brincou o apresentador.

Olhei para Paulo. Ele nem sorriu. Senti vontade de chorar ali mesmo.

— Claro… — respondi, forçando um sorriso.

Voltei para a mesa com o voucher nas mãos. Marta tentou animar:

— Olha aí! Uma chance pra vocês dois saírem juntos! Faz tempo que não vejo vocês se divertindo…

Paulo guardou o celular e olhou para mim pela primeira vez na noite:

— Se quiser ir com alguém, pode ir. Eu não faço questão.

As palavras dele cortaram mais fundo do que qualquer briga. Marta ficou sem graça e se afastou. Fiquei ali, segurando o papel como se fosse uma sentença.

A festa continuou. As pessoas dançavam, riam, fingiam felicidade. Eu só queria ir embora. Lembrei das conversas sussurradas entre as mulheres sobre traições, sobre maridos que tinham outra família em outra cidade, sobre sonhos abandonados por causa dos filhos ou da rotina.

Quando finalmente saímos do salão, a madrugada já caía sobre a cidade pequena do interior paulista. O vento frio me fez abraçar os próprios braços.

No carro, o silêncio era pesado. Paulo dirigia olhando fixamente para frente.

— Por que você disse aquilo na frente de todo mundo? — perguntei baixinho.

Ele suspirou.— Porque é verdade, Halina. A gente não é mais um casal faz tempo. Só estamos juntos por costume… ou por medo de ficar sozinho.

As lágrimas vieram sem que eu pudesse controlar.

— Você tem outra pessoa?

Ele demorou a responder.— Não… Mas às vezes penso que seria melhor se tivesse. Pelo menos teria algum motivo pra sair dessa vida morna.

Chegamos em casa e cada um foi para um lado. Deitei na cama e fiquei olhando para o teto, ouvindo os sons da rua vazia lá fora. Lembrei dos meus pais brigando na cozinha quando eu era criança; minha mãe dizendo que casamento era assim mesmo, feito de silêncios e concessões.

No dia seguinte, acordei cedo e fui caminhar pela praça central da cidade. Vi dona Lourdes varrendo a calçada, seu Antônio abrindo a padaria, crianças brincando antes da aula começar. Tudo parecia tão normal… menos eu.

Encontrei Marta sentada no banco da praça.

— Você está bem? — ela perguntou.

Sentei ao lado dela.— Não sei mais quem eu sou, Marta. Passei a vida toda tentando agradar os outros… meu marido, meus filhos, até meus pais já falecidos. E agora percebo que não sei o que quero pra mim.

Ela segurou minha mão.— Você ainda pode escolher, Halina. Nunca é tarde pra recomeçar.

Fiquei pensando nisso o dia todo. Olhei para o voucher do jantar romântico na bolsa e decidi: iria sozinha. Ou talvez convidasse Marta ou minha filha mais velha para conversar sobre a vida.

Naquela noite, sentei com Paulo na cozinha.— Acho que precisamos conversar de verdade desta vez.

Ele assentiu.— Também acho.

Falamos sobre tudo: sobre as mágoas guardadas, os sonhos esquecidos, o medo do futuro. Choramos juntos pela primeira vez em anos.

Não resolvemos tudo naquela noite, mas foi um começo.

Agora escrevo estas palavras pensando em quantas mulheres vivem histórias parecidas com a minha pelo Brasil afora: presas em casamentos sem amor, sufocadas pela rotina e pelo medo do julgamento alheio.

Será que vale a pena viver assim? Ou ainda dá tempo de buscar felicidade verdadeira?

E você? Já se sentiu presa numa vida que não escolheu? O que faria no meu lugar?