O Preço de um Abraço: Entre o Amor e o Dinheiro
— Quer? Pode levar essa menina, pra mim tanto faz. Não aguento mais olhar pra ela. Mas me dá dinheiro em troca — disse minha mãe, com a voz seca, enquanto mexia no cabelo preso num coque apressado. Eu tinha só oito anos, mas entendi cada palavra. Senti o chão sumir sob meus pés magros, descalços, encardidos de poeira da rua de terra batida do bairro Jardim das Palmeiras, periferia de Belo Horizonte.
Meu nome é Camila. Sempre tive o rosto comprido, olhos castanhos grandes demais pro meu rosto, dentes grandes e o queixo forte, igualzinho ao da minha mãe, Vânia. Mas o que mais chamava atenção eram meus cabelos: grossos, escuros, enrolados em cachos que ela nunca soube cuidar. Quando eu era pequena, ela dizia que meu cabelo era bonito, mas depois passou a reclamar que dava trabalho demais.
Naquela tarde abafada de fevereiro, minha mãe discutia com minha tia Lúcia na cozinha apertada. O cheiro de feijão queimado se misturava ao suor e à raiva. — Vânia, pelo amor de Deus, não fala isso na frente da menina! — Lúcia sussurrou, olhando pra mim com pena. — Ela é sua filha!
Minha mãe bufou. — Filha? Filha é despesa! Você acha que eu queria isso? Ela só me atrapalha. Se você quiser levar, leva logo. Mas não vem de graça não, viu? — Ela olhou pra mim como se eu fosse um móvel velho.
Eu queria gritar, correr pra longe, mas fiquei ali, parada, sentindo o coração bater tão forte que doía. Lúcia me puxou pra perto dela e me abraçou. — Calma, Camila. Vai dar tudo certo — sussurrou no meu ouvido.
A verdade é que nunca deu certo. Minha mãe aceitou um punhado de notas amassadas da minha tia e me deixou ir embora sem olhar pra trás. Fui morar com Lúcia e meu primo Rafael num barraco ainda mais apertado, mas pelo menos ali tinha carinho. Só que a ferida ficou aberta.
Cresci ouvindo cochichos das vizinhas: — Aquela ali é a menina que a mãe vendeu pra irmã… — E eu fingia não ouvir, mas cada palavra era uma facada.
Na escola, as crianças riam do meu cabelo armado e dos meus dentes grandes. — Olha a leoa! — gritavam no recreio. Eu tentava me esconder atrás dos livros ou do jaleco da professora Marlene, que sempre dizia: — Camila, você é inteligente demais pra se importar com bobagem.
Mas como não se importar? Quando cheguei na adolescência, comecei a questionar tudo. Por que minha mãe me trocou por dinheiro? Por que ela nunca ligou pra saber se eu tava bem? Tentei ligar pra ela algumas vezes. Uma vez atendeu:
— Oi, mãe… sou eu, Camila.
— Ah… Oi. Tá precisando de quê?
— Não… só queria saber como você tá.
— Tô viva. Se não for pra pedir nada, não precisa ligar.
Desligou na minha cara. Chorei escondida no banheiro da casa da tia Lúcia. Rafael bateu na porta:
— Camila? Tá tudo bem?
— Tá sim… só tô cansada.
Mentira. Eu tava era despedaçada.
O tempo passou e tentei seguir em frente. Trabalhei de babá, depois numa padaria. Juntei dinheiro pra fazer faculdade de pedagogia à noite. Lúcia sempre dizia: — Você vai ser alguém na vida, menina! Não deixa ninguém te dizer o contrário.
Mas a sombra da rejeição me perseguia. Quando comecei a namorar o Lucas, contei minha história pra ele numa noite chuvosa:
— Minha mãe me trocou por dinheiro.
Ele ficou em silêncio por um tempo e depois disse:
— Você não é mercadoria, Camila. Você é incrível.
Chorei de novo. Pela primeira vez alguém olhou pra mim sem pena ou julgamento.
Mesmo assim, a dor não passava. Um dia decidi procurar minha mãe de novo. Fui até a casa dela no bairro vizinho. Bati na porta com as mãos suando frio. Ela abriu e me olhou como se eu fosse uma estranha.
— O que você quer?
— Só queria entender… Por quê?
Ela suspirou fundo e sentou na cadeira velha da sala.
— Você acha que foi fácil pra mim? Seu pai sumiu quando você nasceu. Eu tava sozinha, sem dinheiro nem pra comer! Lúcia sempre teve mais condição… Eu fiz o que achei melhor.
— Melhor pra quem? Pra mim não foi…
Ela desviou o olhar:
— Eu não sabia ser mãe.
Fiquei ali parada, esperando um abraço, um pedido de desculpa, qualquer coisa. Mas ela só levantou e foi pra cozinha.
Saí dali com o peito apertado e uma certeza: algumas feridas nunca cicatrizam completamente.
Hoje sou professora numa escola pública do bairro onde cresci. Vejo tantas crianças passando por situações parecidas: abandono, violência, fome… Tento ser pra elas o que ninguém foi pra mim: alguém que acredita nelas.
Às vezes olho no espelho e vejo os traços da minha mãe no meu rosto. O mesmo queixo forte, os mesmos olhos grandes e tristes. Mas decidi quebrar o ciclo. Quero ser diferente.
À noite, antes de dormir, fico pensando: será que um dia vou conseguir perdoar minha mãe? Será que ela algum dia pensou em mim com carinho?
E você? O que faria no meu lugar? É possível perdoar quem nos trocou por dinheiro?