O Preço da Vingança: Um Casamento para Ferir
— Você vai mesmo fazer isso, Olek? — a voz da minha mãe ecoou pela sala, carregada de incredulidade e dor. Eu estava parado diante do espelho, ajustando a gravata, sentindo o suor frio escorrer pelas costas apesar do ar-condicionado. Meu pai, sentado no sofá, balançava a cabeça em silêncio, como se já soubesse que nada do que dissessem mudaria minha decisão.
Eu ia me casar com Nadja em poucas horas. Não porque a amava, mas porque queria ferir Maria. Queria que ela sentisse pelo menos um pouco da dor que me consumia desde o dia em que descobri sua traição.
Maria e eu ficamos juntos por quase dois anos. Eu era completamente apaixonado por ela. Fazia tudo para agradá-la: levava café na cama, escrevia bilhetes de amor, planejava viagens para lugares que ela sonhava conhecer. Meus amigos diziam que eu estava cego, mas eu não ligava. Achava que nosso amor era forte o suficiente para superar qualquer coisa.
Só que Maria nunca quis falar sobre casamento. Sempre desviava o assunto, dizia que era cedo, que queria aproveitar mais a vida. Eu fingia não me importar, mas aquilo me corroía por dentro. Até que um dia, voltando mais cedo do trabalho, encontrei-a no nosso apartamento com outro homem. Era o Rafael, colega dela da faculdade. Eles nem tentaram se explicar. Maria só chorava e pedia desculpas.
A partir daquele dia, algo dentro de mim morreu. Passei semanas vagando pela cidade, dormindo na casa de amigos, evitando minha família. Minha mãe tentava me consolar: “Filho, você vai superar. O tempo cura tudo.” Mas eu não queria curar. Eu queria vingança.
Foi então que Nadja apareceu. Ela era prima distante de um amigo meu, recém-chegada do interior para estudar enfermagem em São Paulo. Era bonita, simpática e parecia realmente gostar de mim. Mas eu não conseguia sentir nada além de gratidão por sua companhia. Mesmo assim, comecei a sair com ela — e logo espalhei nas redes sociais fotos nossas juntos.
Maria viu tudo. Mandou mensagens, ligou várias vezes. Eu ignorei todas. Queria que ela sofresse como eu sofri.
Em menos de três meses pedi Nadja em casamento. Ela aceitou com um sorriso radiante, sem saber que era apenas uma peça no meu jogo de vingança. Minha família ficou chocada com a rapidez da decisão.
Na noite anterior ao casamento, minha irmã Bianca tentou me convencer a desistir:
— Olek, você não ama a Nadja. Não faz isso com ela… nem com você mesmo.
— Já está tudo decidido — respondi seco, evitando seu olhar.
O dia do casamento chegou e eu estava ali, diante do espelho, sentindo-me vazio. Quando entrei na igreja, vi Nadja sorrindo no altar e senti uma pontada de culpa. Mas segui em frente.
Durante a cerimônia, meus pensamentos estavam longe dali. Lembrei dos momentos com Maria: nossos passeios na Avenida Paulista aos domingos, as risadas no Ibirapuera, as noites em claro conversando sobre sonhos e medos. Lembrei também da dor da traição e tentei me convencer de que estava fazendo a coisa certa.
Após a festa, Nadja e eu fomos morar juntos num pequeno apartamento na Vila Mariana. No começo ela era só alegria e dedicação — preparava jantares especiais, enchia a casa de flores. Mas logo percebeu meu distanciamento. Eu evitava contato físico, inventava desculpas para chegar tarde em casa.
As brigas começaram cedo:
— Você nunca está presente! — ela gritava entre lágrimas.
— Estou cansado do trabalho — mentia eu.
Minha mãe me ligava todos os dias:
— Filho, você precisa ser honesto com ela…
Mas eu não tinha coragem.
Um dia encontrei Maria por acaso no metrô. Ela estava diferente: mais magra, olhar triste.
— Olek…
— O que você quer? — respondi seco.
— Só queria pedir desculpas… De verdade. Sei que te magoei muito.
Por um instante quis abraçá-la e dizer que ainda a amava. Mas me contive.
— Agora é tarde — disse antes de virar as costas.
Em casa, Nadja me esperava com um jantar especial para comemorar nosso primeiro mês de casados. Eu mal consegui comer. Senti um nó na garganta ao ver seus olhos brilhando de esperança.
As semanas passaram e o clima ficou insuportável em casa. Nadja começou a desconfiar:
— Você ainda ama a Maria?
Fiquei em silêncio. Ela chorou a noite toda.
No Natal daquele ano, minha família se reuniu na casa dos meus pais em Santo André. O clima era tenso; todos sabiam da minha infelicidade e do sofrimento de Nadja.
Durante a ceia, meu pai finalmente falou:
— Olek, você precisa parar de fugir dos seus sentimentos. Está destruindo duas vidas.
Eu explodi:
— E o que vocês querem que eu faça? Que eu admita que casei só pra machucar alguém?
O silêncio foi absoluto.
Naquela noite, Nadja fez as malas e foi embora para a casa dos pais dela no interior. Antes de sair, olhou nos meus olhos e disse:
— Eu merecia alguém que me amasse de verdade…
Fiquei sozinho no apartamento vazio, cercado por lembranças e arrependimentos. Perdi Maria por orgulho e perdi Nadja por covardia.
Meses depois tentei recomeçar: procurei terapia, voltei a estudar e me aproximei da minha família novamente. Mas as cicatrizes ficaram.
Hoje olho para trás e vejo o quanto fui imaturo e cruel — não só com as mulheres que passaram pela minha vida, mas comigo mesmo.
Às vezes me pergunto: quantas pessoas machucamos tentando curar nossas próprias feridas? Será que algum dia vou conseguir me perdoar por tudo isso?